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Oceanógrafos, os caçadores de vórtices

A bordo do navio da USP Professor Besnard, cientistas perseguem redemoinhos de água fria do litoral sudeste e lançam bóias para desvendar os mistérios da Corrente do Brasil.

Paulo D´Amaro

Por Paulo D´Amaro

Uma peculiar caçada oceânica aconteceu em fevereiro, na costa sudeste do Brasil. A bordo do navio oceanográfico Professor Besnard, da Universidade de São Paulo, pesquisadores tentavam achar uma presa invisível e que talvez nem existisse. Se alguém perguntasse o que era exatamente o alvo da perseguição, ouviria uma desconcertante resposta: “água”. Não, os oceanógrafos não estavam fora do juízo, ainda que o mar — inusitadamente revolto nas imediações de Santos — estivesse deixando verdes de enjôo até alguns experientes marinheiros. A tal “água” que procuravam era, na verdade, um grande redemoinho frio, em meio ao calor tropical de nossa costa. Os cientistas buscavam um vórtice frio.

Os redemoinhos de água fria aparecem no litoral do Rio de Janeiro, às vezes com mais de 100 quilômetros de diâmetro, e são um dos mais intrigantes fenômenos do mar territorial brasileiro. “Nascem do encontro da água quente predominante na região com uma massa de água fria que, vez por outra, sobe das profundezas do oceano perto de Cabo Frio, no Rio de Janeiro”, explica o chefe da expedição, Merrit Raymond Stevenson, da equipe de oceanógrafos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Como se fossem canoas num riacho, porções dessa água fria se desprendem e são carregadas para o Sul, pela quente Corrente do Brasil. No caminho, vão diminuindo de tamanho, enquanto as águas quentes aquecem suas bordas, e acabam desaparecendo perto do Uruguai.

E por que estudar uma enorme gota de água fria perdida no oceano? Em primeiro lugar, pela estranheza do fato em si: era de esperar que uma região tropical como o litoral fluminense fosse banhada o ano todo por águas mornas. Mas, em certas épocas, ocorre um fenômeno conhecido como ressurgência, que traz águas geladas das regiões mais profundas do oceano para a superfície. Além disso, um vórtice frio tem implicações climáticas e econômicas. Com temperatura inferior à da água que o envolve, o vórtice influi no microclima oceânico. Absorve calor do ar e causa mudanças de tempo por onde passa. Os redemoinhos também são ricos em nutrientes, contrastando com a extenuada água da superfície. “A água que compõe os vórtices costuma ter mais nitratos, o que favorece o aumento do fitoplâncton”, explica o biólogo Salvador Airton Gaeta, do Instituto Oceanográfico da USP. Com mais fitoplâncton — a base da cadeia alimentar oceânica —, os vórtices se tornam um lugar bastante atraente para algumas espécies de peixes.

Há grandes indícios de que quatro espécies de atum tenham o hábito de freqüentar os vórtices frios brasileiros: Thunnus albacores (albacora-de-lage), Thunnus alalunga (albacora branca), Thunnus obesus (albacora bandolim) e Katsuwonus pelamis (bonito-listrado). “Conforme os vórtices são carregados pela corrente quente, vão diminuindo de tamanho e, desta forma, concentrando cada vez mais os peixes”, conta a pesquisadora Sydnéa Maluf Rosa, do INPE. Para os empresários da pesca, que subesploram os cardumes de atum, o mapeamento dos vórtices pode ser um grande achado. Vale lembrar que a maior parte do atum que vai parar na mesa dos brasileiros vem das águas frias do Peru.

Perseguir vórtices frios é também uma forma de desvendar os mistérios da própria Corrente do Brasil, que nunca foi pesquisada a fundo. Hoje, sabe-se apenas que ela nasce na altura de Pernambuco e que desce 2 000 quilômetros pela costa, até a Argentina. Perto de Mar del Plata, choca-se com a gelada Corrente das Malvinas e desaparece.

Ninguém sabe, contudo, detalhes mais precisos, por exemplo, o papel da Corrente do Brasil nas condições do tempo e na pesca em nosso litoral ou o ciclo de vida dos vórtices. Por isso, os oceanógrafos do INPE e da USP criaram o projeto Coroas (Estudo da Circulação Oceânica na Região Oeste do Atlântico Sul). O Coroas é a fase brasileira de um estudo internacional que pretende descobrir como funciona a máquina oceânica global. Isso porque as correntes marinhas são como rios dentro do próprio oceano. Em seu percurso, acabam liberando ou absorvendo calor da atmosfera. “No hemisfério norte, por exemplo, a Corrente do Golfo transmite o calor que recebe no golfo do México para o ar da Europa, garantindo ao norte do continente um clima bem mais agradável do que teria se fosse banhado apenas pelas águas de origem polar ártica”, diz Merrit Stevenson, do INPE.

O mesmo faz a Corrente do Brasil com os estados do Sul. E mais: já nas costas da Argentina, ela se torna uma barreira física ao avanço da Corrente das Malvinas, impedindo que a massa de água fria carregada por ela chegue ao Brasil. “Se ‘desligassem’ a Corrente do Brasil, só os pingüins nadariam nestas praias”, brinca Stevenson, referindo-se ao esfriamento que presumivelmente chegaria até o Estado de São Paulo.

Brincadeiras à parte, a hipótese de um ataque de águas geladas ao litoral brasileiro não é absurda. Tanto que, vez por outra, pingüins aparecem em lugares quentes como Florianópolis ou São Sebastião, e não por que estejam querendo variar seus hábitos. Isso é resultado de invasões ocasionais de águas geladas nas costas brasileiras, quando algum ramo costeiro da Corrente das Malvinas consegue furar o bloqueio da Corrente do Brasil. Ela ruma ao norte, trazendo os pingüins de Magalhães, uma espécie que habita o sul da Argentina e do Chile.

Como os outros fenômenos relacionados à costa oeste do Atlântico, sabe-se que essas invasões acontecem, mas não quando e com que intensidade. Por isso elas também estão na mira dos oceanógrafos. Há quem tema que elas se tornem freqüentes. Basta lembrar que a Corrente das Malvinas é alimentada por águas polares da Antártida. Se o tão proclamado “efeito estufa” estiver mesmo causando um degelo maior nos polos, essa massa de água pode se fortalecer e empurrar a fronteira gelada bem para o norte. Os oceanógrafos brasileiros ainda não consideram essa hipótese. Mesmo assim, os resultados de seus estudos serão decisivos para se perceber a mudança, caso ela realmente comece a ocorrer.

Por enquanto, os pesquisadores a bordo do Besnard perseguem outro tipo de água fria — felizmente não tão fria assim. No cruzeiro realizado pelo navio Professor Besnard em fevereiro, a missão era lançar cinco bóias oceanográficas no interior e nas imediações de um vórtice frio. As bóias utilizadas — conhecidas como LCDs (sigla em inglês para derivadoras de baixo custo) — vagam livremente pelo mar, enviando várias vezes por dia dados de temperatura da água para os satélites americanos NOAA-11 e 12. Os satélites também captam a posição exata de cada bóia e retransmitem as informações para um centro na França. Por meio de seus computadores, os oceanógrafos do INPE, em São José dos Campos (SP), recebem as informações no conforto de seus escritórios. “Com isso, podemos descobrir o rumo, a velocidade e a duração dos vórtices frios, assim como as características bastante peculiares da Corrente do Brasil, ainda uma ilustre desconhecida”, revela Stevenson.

Achar o ponto ideal para lançar as bóias é um trabalho semelhante a uma caçada. Nos cruzeiros premiados pela sorte, o tempo bom permite que os satélites da série NOAA enviem ao INPE imagens térmicas do oceano, mostrando em cores quais os pontos mais quentes e mais frios. A equipe de apoio em São José dos Campos, liderada pelo oceanógrafo João Antonio Lorenzzetti, transmite via rádio as coordenadas do vórtice para o navio, que corre em sua direção. Na expedição de fevereiro, no entanto, a natureza obstruiu o uso da tecnologia. Com chuvas castigando o litoral paulista e fluminense durante os quatro dias de viagem, tudo que os computadores do INPE puderam desenhar nas telas foi um emaranhado de nuvens encobrindo o local da experiência.

O jeito foi apelar para métodos tradicionais, bem mais trabalhosos. O navio passou a varrer um determinado trecho da costa, colhendo, minuto a minuto, amostras de água para análise de temperatura e salinidade num equipamento chamado termosalinógrafo. “O objetivo era achar uma frente oceânica, a passagem de uma massa de água para outra com notável diferença de temperatura e salinidade”, explica Stevenson. Achar uma frente oceânica na costa de São Paulo significa, quase sempre, encontrar a borda de um vórtice. “Sabemos que estamos sobre uma frente quando a água esfria ou esquenta alguns graus em poucas milhas”. Depois de três dias de procura em meio a um mar pouco amigável, os oceanógrafos perceberam uma variação de quase 3 graus centígrados num pequeno trecho de 150 metros. Era, finalmente, uma frente oceânica e chegava a hora das LCDs seguirem seu rumo.

O lançamento é uma curiosidade à parte. Apesar de serem idênticas às usadas pelos oceanógrafos do mundo todo para o projeto WOCE (sigla em inglês para Experimento Mundial de Circulação Oceânica), as bóias foram construídas inteiramente no Brasil, por Stevenson e sua equipe. Por isso, deixaram de ser um simples instrumento de fazer medidas e são tratadas com especial carinho. Antes de serem jogadas ao mar, são batizadas com nomes de mulher, geralmente das mães, esposas ou namoradas dos pesquisadores. “Aparecida” foi arremessada no lado frio da frente; “Ilma”, no setor quente; e as outras três — “Nilda”, “Carlita” e “Ione” — na zona intermediária. Mas a certeza de que havia realmente um vórtice do lado frio da frente oceânica só veio dias depois, quando o tempo se abriu e permitiu ao satélite fazer imagens.

Não apenas os vórtices frios brasileiros serão visitados pelas bóias. As LCDs transmitirão dados durante um ano para os computadores do INPE. “Espera-se que elas percorram uma grande extensão do Atlântico Sul”, diz Ronald Buss de Souza, um jovem oceanógrafo gaúcho que integra a equipe do projeto Coroas. As bóias devem descer a Cor-rente do Brasil até o encontro com a das Malvinas. A partir daí, fazem uma curva para leste e seguem para a África, levadas pela corrente conhecida como Giro Subtropical. É provável então que entrem na Corrente das Agulhas e subam para o noroeste africano, onde pegam carona na Corrente Sul-Equatorial que pode jogá-las novamente na Corrente do Brasil.

Essa previsão, no entanto, pode cair por terra. “É possível que as bóias acabem entrando na Corrente Norte do Brasil e sejam levadas para o Golfo do México”, admite Ronald Buss de Souza. Isso não seria nenhuma decepção para os cientistas. “A intenção do projeto Coroas é exatamente confirmar ou derrubar tudo o que se supõe sobre o Atlântico Sul”. Logo no primeiro mês de sua jornada, as LCDs revelaram algo que contraria as expectativas. Quatro das cinco bóias foram de imediato arrebatadas por um vórtice. Até aí nada de anormal. A surpresa é que o vórtice ficou estacionado, em vez de deslizar para o Sul. “Três bóias foram ejetadas e desceram com a Corrente do Brasil, mas ‘Aparecida’ ainda está girando no mar, a cerca de 60 milhas das praias de Ubatuba”, conta Souza.

Ainda não se sabe por que o vórtice se recusou a seguir o rumo esperado. A primeira hipótese é de que o redemoinho achado no litoral paulista numa tempestuosa tarde de fevereiro seja permanente e estacionário, coisa que ninguém imaginava antes. É possível que o relevo do fundo do mar naquela área cause a subida constante de águas frias das regiões profundas, a exemplo da ressurgência. Ou então simplesmente provoque uma contracorrente que aprisiona os vórtices. Uma coisa é certa: como esta, muitas surpresas e mistérios estão para vir à tona.

Para saber mais:

Mergulho na água

(SUPER número 10, ano 4)

O mundo na palma das mãos

(SUPER número 5, ano 6)

Mar à vista

(SUPER número 8, ano 6)