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Os anéis de uma estrela morta

Ela explodiu há sete anos e agora está envolta em três imensos arcos de luz

Por 22 jul 2009, 22h00 | Atualizado em 31 out 2016, 18h51
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Augusto DamíneU Neto

A formação de um anel ou halo em torno das estrelas que explodem, as chamadas supernovas, é fato corriqueiro para os astrônomos. Eles sabem que, na explosão, uma enorme quantidade de matéria estelar é jogada no espaço e depois iluminada por uma luz milhões de vezes maior do que a emitida pelo Sol. Até aí, nenhuma novidade: com a supernova SN1987A, que explodiu em fevereiro de 1987, as coisas correram dentro da maior normalidade astronômica. Até que, em maio deste ano, o Telescópio Espacial Hubble revelou uma novidade: além do anel original, surgiram ao redor da SN1987A mais dois estranhos círculos de luz.

Os anéis já tinham sido detectados por outro telescópio, o NTT, do Observatório Europeu. Instalado nos Andes chilenos, o NTT é o mais poderoso telescópio de superfície. Mas só as imagens bem mais nítidas de um telescópio espacial, como o Hubble, deram uma idéia clara do estranho fenêmeno. Aparentemente, os anéis são criados pela luz de uma outra estrela, que estaria iluminando a matéria expelida pela SN1987A. Essa sugestão foi feita por Christopher Burrows, do Instituto do Telescópio Espacial Hubble. Burrows observou que o brilho dos anéis parecia vir de um determinado ponto. Nesse ponto, ele descobriu uma estrelinha extremamente fraca, situada a cerca de 4 meses-luz (ou seja, a mais de 3 trilhões de quilômetros) da supernova.

Pequena mas supercompacta, a estrelinha emite dois poderosos fachos de luz para o espaço. Um dos fachos sai do hemisfério norte e outro, do hemisfério sul do astro. Vistos da Terra, os dois anéis parecem estar lado a lado, mas, na verdade, um está mais próximo e outro mais afastado de nós. A estrelinha fica exatamente entre os dois. Como ela está girando muito rapidamente, os dois feixes luminosos varrem o espaço como os faróis marítimos varrem o mar. Mas isso só se torna visível quando a luz atravessa algo opaco. Neste caso, a luz encontrou a matéria expelida pela SN1987A, quando ela ainda era uma supergigante azul.

Se a explicação estiver correta, os astrônomos esperam fantásticos efeitos especiais dentro de mais um ano. Aí, os gases lançados na própria explosão da SN1987A terão atingido em cheio a estrelinha, fornecendo ainda mais combustível para a liberação de energia na forma de luz pela estrelinha.
Antes mesmo do inusitado espetáculo de luzes, a SN1987A já estava sob a mira dos telescópios. É que ela é a prova definitiva de algumas importantes teorias astronômicas, como a de que as chamadas supernovas são grandes estrelas que explodem. Este é o primeiro caso em que se conhecia a estrela inteira antes que ela explodisse. Até então, os astrônomos só tinham visto o brilho da explosão, sem saber o que havia no local antes disso.

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Calcula-se que acontece uma explosão dessas a cada trinta anos na Via Láctea. Não são tão raras assim.

Mas, a Terra está exatamente no disco da Galáxia, onde existe uma grande quantidade de poeira interestelar. Assim, fica muito difícil ver qualquer coisa além. A última vez que se viu uma supernova explodir aqui por perto foi em 1604. Ela recebeu o nome de Supernova Kepler, mas na verdade foi identificada por um assistente do grande astrônomo dinamarquês. Desta vez, a posição favorável da SN1987A e os potentes telescópios e instrumentos de medição permitiram aos pesquisadores presenciar todo o processo — antes, durante e depois — da morte da estrela.

A SN1987A serviu também de laboratório natural para a comprovação do chamado “efeito Urca”. A teoria, do físico brasileiro Mário Schenberg e seu colaborador George Gamow, explica como as supernovas explodem.

Por fim, esta foi a primeira oportunidade que os astrônomos tiveram de assistir à transformação do cobalto em ferro. E isso confirma a teoria da origem dos elementos químicos no Universo. Segundo ela, todos os elementos mais pesados do que o hélio teriam surgido exatamente da explosão de estrelas — o único fenômeno cósmico capaz de gerar a elevadíssima energia necessária para aglutinar prótons e nêutrons e formar novos núcleos atômicos. A transmutação de cobalto em ferro observada é um dos passos dessa extensa cadeia de reações químicas. Os físicos comprovaram, então, que a idéia está correta: ou seja, todos os elementos químicos nasceram mesmo da explosão de estrelas. Todos, com duas exceções: o hidrogênio e o hélio. Estes já tinham surgido na grande explosão inicial chamada Big Bang, que originou todo o Universo.

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