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Os primeiros pescadores

Muito antes do homem, pequenos animais marinhos, como as anêmonas e os corais, já utilizavam "redes" para capturar seu alimento.

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h27 - Publicado em 29 fev 1992, 22h00

David F. Donavel

Numa praia desconhecida do Pacífico Sul, um pescador arremessa sua rede no raso, recolhe-a com cuidado e depois cata o produto de sua pesca. Nas proximidades da ilha de Sanibel, na Flórida, um barco a remos larga pouco a pouco uma rede de recolher pelo costado; depois de capturar um número determinado de tainhas, o pescador no comando dá por terminado o dia de trabalho. Nas águas frias do Atlântico Norte, um grande barco a motor arrasta redes pelo fundo do mar, dezenas de metros abaixo de sua quilha, recolhendo toneladas de peixe. Todos esses pescadores, a despeito das diferenças de capacidade e eficiência, e provavelmente sem consciência disso, empregam em seu trabalho uma “tecnologia” inventada pela natureza muitos anos antes do aparecimento de seres humanos no planeta — a rede. Por sua vez, muitos invertebrados marinhos, os primeiros pescadores, há milênios vêm empregando redes para garantir a sobrevivência, com uma eficácia impressionante e admirável.

Eles nem precisam se movimentar: basta fixar-se na correnteza e esperar a comida passar por ali

Consideradas umas das mais adoráveis criaturas marinhas, as anêmonas-do-mar incluem-se também entre as mais mortíferas. Predadores vorazes e excelentes pescadores, as anêmonas obtêm alimento estendendo uma franja de tentáculos ao sabor da maré, à maneira de uma rede. Cada tentáculo é provido de células urticantes ou cnidoblastos, que literalmente fincam farpas tóxicas nos animais que vivem no plâncton e tenham o azar de passar a seu alcance. Uma vez paralisadas, as vítimas indefesas são conduzidas pelos tentáculos para a boca da anêmona, a qual se localiza no topo do corpo peduncular, no centro da rede circular de tentáculos. Depois de atravessar a boca, o alimento passa à cavidade gastrovascular, onde é digerido. As anêmonas quase não saem do lugar e, quando o fazem movem-se suavemente: em geral preferem fixar-se em locais de forte correnteza, pois aí podem capturar maior quantidade de alimento.

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Parentes próximos das anêmonas são os corais-arborescentes, muito valorizados por sua beleza, que crescem em grande quantidade em todo o mundo, mas são particularmente admiráveis na região indo-pacífica. Assim como as anêmonas, são animais pescadores, e praticam sua atividade estendendo na corrente os braços em forma de galhos, produzindo uma estrutura em forma de rede com a qual capturam o plâncton. A captura propriamente dita é executada por minúsculas franjas de tentáculos circulares semelhantes às das anêmonas-do-mar, tentáculos esses também chamados pólipo, que são como pequenas ventosas tentaculares. Cada tentáculo de coral contém também cnidoblastos, ou células urticantes, que funcionam exatamente como nas anêmonas. Os corais-arborescentes utilizam essas células urticantes para defender-se e para atacar outros animais, ou ainda para conseguir alimento.

Os corais gorgonáceos, um tipo comum de corais-arborescentes, estendem delicados pólipos na corrente, capturando o plâncton, de que se alimentam. O corpo desses animais é sempre alongado, de modo que estendem suas “redes” na Corrente e, tal como os corais-arborescentes, usam suas células urticantes com propósitos defensivos e predatórios. Os corais gorgonáceos não são os responsáveis pelos extensos bancos de corais nas regiões tropicais do planeta. Esses verdadeiros recifes coralíneos são o trabalho de corais rochosos, animais que coexistem como os gorgonáceos, seus primos mais delicados. Os corais rochosos abrigam algas simbióticas que lhes fornecem boa parte de suas necessidades nutricionais, de modo que só capturam presas à noite, quando a população de plâncton nas águas acima do banco de coral aumenta bastante. Já os gorgonáceos, desprovidos dessas algas, são obrigados a pescar 24 horas por dia, estendendo os tentáculos de pesca tanto de dia quanto de noite. Algumas gorgonáceos, conhecidos também como leques-do-mar, erguem-se de modo que seu corpo em forma de ramos com folhas se abra e oscile na correnteza, capturando a maior quantidade possível de plâncton.

Movendo-se com habilidade, os ofiuróides podem escolher o melhor local para pesca

As anêmonas e todos os corais compartilham “equipamento de pesca” tentacular e células urticantes, mas não são o único grupo que se utiliza de redes naturais. Alguns equinodermos, um filo a que pertencem as estrelas-do-mar e bolachas-do-mar, são também excelentes pescadores, que utilizam estruturas corporais semelhantes a redes, e antes de capturar suas presas primeiro as intoxicam. Talvez o mais impressionante desses seres em aparência seja o ofiuróide, um habitante da maioria dos oceanos. Animais móveis, os ofiuróides do Norte localizam-se em locais de correnteza e estendem os longos braços em forma de galhos na correnteza, formando uma “rede” de franjas finas através das quais só os seres muito minúsculos conseguem passar. Uma vez que seus braços são flexíveis, a captura é completada quando a presa cai nas malhas da “rede” e então é levada para a boca do ofiuróide, no meio do disco central do animal.

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Os parentes do ofiuróide em águas quentes, os crinóides ou lírios-do-mar, são igualmente móveis e bem-sucedidos no modo de pescar. Assim como os ofiuróides, os lírios-do-mar escolhem “locais de pesca” favoráveis em lugares de forte correnteza. Esses animais, que se parecem mais com elaborados espanadores de penas do que com outras estrelas-do-mar ou lírios, com freqüência podem ser encontrados empoleirados numa esponja ou num coral, de onde estendem na correnteza suas extensões que mais parecem uma penugem. Quando os animais do plâncton caem prisioneiros de sua armadilha de penas, são recolhidos pelos braços para um canal ciliado até que atingem a boca do crinóide. Assim como as estrelas-do-mar que as crianças gostam de encontrar na praia, tanto os ofiuróides do Norte quanto os crinóides compartilham uma admirável capacidade de regeneração corporal. Assim, se um ofiuróide ou um crinóide “doa” um membro a um predador mais forte e rápido, em pouco tempo outro crescerá no lugar. Enquanto as redes dos pescadores humanos são consertadas à custa de esforço e despesa, essas redes naturais são capazes de consertar a si mesmas.

Os pepinos-do-mar são outros integrantes do clã dos equinodermos que empregam “redes” para prover seu sustento. Dois tipos comuns de pepino-do-mar na costa Nordeste da América do Norte, o psolo-vermelho-escarlate-brilhante e o igualmente brilhante pepino de pés laranja, são impressionantes de se verem nas águas turvas da região. Enquanto os ofiuróides e os crinóides se movem, os pepinos-do-mar quase não o fazem. Lentos e preguiçosos, para recolher alimento eles estendem os braços como ramos de rede na correnteza. Cada braço é recoberto por uma mucosa pegajosa, de modo que, quando os animais do plâncton entram em contato com a rede do psolo, não podem se livrar mais.

Uma vez que o pepino tenha coletado uma quantidade suficiente de animais num tentáculo, leva esse braço à boca, localizada no centro do círculo de braços, e retira daí o alimento. Ao mesmo tempo, o psolo renova o revestimento de mucosa e devolve o braço à correnteza. Observar um psolo-escarlate se alimentar é presenciar a passagem contínua dos braços pegajosos pela busca pegajosa, ainda que seja uma oportunidade rara, porque esse animal é muito sensível a perturbações: a mais leve vibração na água faz com que recolha os braços no corpo e “fique na sua” até perceber que o perigo passou. Enquanto outros crinóides são capazes de abrir mão de partes de seu corpo “sabendo” que voltarão a crescer, muitos pepinos-do-mar conseguem livrar-se de parte de suas entranhas, ao enfrentar uma ameaça séria. Quando isso acontece, eles simplesmente regurgitam as entranhas que distraem ou satisfazem um predador faminto. Depois, os órgãos voltam a crescer.

Peixes-pescadores são como os esportistas: em lugar de rede, usam iscas para atrair as presas

Enquanto a maioria desses pescadores empregam tipos diferentes de equipamento, que se parecem com redes para capturar suas presas, o peixe-pescador é uma notável exceção, pois é um vertebrado que se dedica a um tipo de aproximação diferente. Se anêmonas e os ofiuróides são os precursores do pescador humano profissional, o peixe-pescador é o protótipo do “pescador esportivo”. Um dos mais vorazes dentre os peixes-pescadores é o peixe-sapo. Um mestre da camuflagem, ele empoleira-se no solo marinho sobre suas curtas nadadeiras, como se fossem pernas. A primeira espinha de sua nadadeira dorsal é alongada e tem uma espécie de isca na extremidade, lembrando uma saliência de carne. Quando um peixinho entra em seu território, o peixe-sapo abana esse “engodo” e, se o incauto se aproxima para alcançar a isca, captura-o tranqüilamente. Com apenas 10 centímetros de comprimento e parecido com um pedaço de esponja, o peixe-sapo é muito difícil de ser localizado: os mergulhadores só conseguem enxergá-lo quando ele já está fugindo.

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Os humanos provavelmente começaram a pescar armando uma rede na água e o mesmo parece ter-se dado com esses pescadores que os antecederam. Se pudéssemos dar o benefício da dúvida aos cnidários e equinodermos, veríamos que a pesca que fazem é um ato de fé, baseado na confiança que depositam na generosidade do mar. Os pescadores humanos não são muito diferentes, com sua confiança implícita em que o oceano irá recompensar seu trabalho. No entanto, é provável que as anêmonas e os ofiuróides continuem a pescar e sobreviver nos mares que habitam, enquanto o mesmo talvez não possa ser dito de seus correspondentes humanos. Pois, embora esses invertebrados sejam pescadores eficientes, eles nunca pescam mais do que necessitam para se manter. Assim, quem sabe, por trás da lição sobre a provável origem da rede, haja algo mais que possamos aprender com esses primeiros pescadores.

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