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Puro ecstasy

A

Rodrigo Cavalcante

Abatida seca da bateria, repetitiva, quase hipnótica, é entremeada por ruídos eletrônicos que parecem emanar de uma nave extraterrestre. As luzes fortes, cítricas, alternam-se no ritmo da música. Nada por ali é opaco. As cores cobrem tudo. E são vibrantes, fluorescentes. De repente, malabaristas mascarados aparecem fazendo círculos de fogo no ar, espalhando pela madrugada cheiro de querosene. Outros carregam pequenos bastões de neon verde, que lembram criptonita, e caminham em direção a uma tenda de circo onde mais de mil pessoas dançam em meio à fumaça colorida, numa espécie de transe coletivo. É uma e vinte da manhã. Cedíssimo para uma rave. A festa está só começando.

Inspiradas nos festivais psicodélicos dos anos 60 e 70, as raves são festas quase sempre realizadas ao ar livre em antigas fábricas, armazéns abandonados e sítios nos arredores de metrópoles como São Paulo ou Nova York. São um misto de clube noturno e parque de diversões. E podem durar mais de 15 horas ininterruptas. “É para agüentar esse ritmo que muita gente toma o ‘E’”, diz Alê de Lima, que organiza raves há mais de cinco anos. “E” é a abreviação de ecstasy, o combustível dessa maratona dançante. Não é preciso muito mais do que meia hora para que o pequeno comprimido colorido comece a produzir sorrisos contagiantes e uma sensação de bem-estar, alegria e leveza. “Não é preciso nem acompanhar a batida eletrônica, é só deixar o ritmo conduzir os seus movimentos. É como se você estivesse dentro da música”, diz C.C., de 23 anos, estudante carioca de Comunicação.

Os efeitos não param por aí. Com a dilatação da pupila, as luzes ganham um brilho especial e os olhos ficam mais sensíveis – daí os óculos de lentes amarelas, tipo night vision. E o mais notável: uma hipersensibilidade do tato. Qualquer toque no corpo, sob o efeito do ecstasy, tem a sensação multiplicada. Muitos se encostam e se abraçam como se todo o corpo fosse uma grande zona erógena. As mulheres, principalmente, falam do aumento do desejo sexual – uma sensação que acabou conferindo ao “E” outro famoso apelido: droga do amor. Além disso, o “E” é discreto – comparado a outras drogas, não tem o cheiro forte da maconha nem requer uma assimilação agressiva como a cocaína.

São esses relatos que insuflam o apelo do ecstasy junto à moçada. A idéia vendida é que, por 30 ou 40 reais – o que qualquer adolescente de classe média gasta numa noite de sábado –, pode-se comprar um comprimido do tamanho de uma aspirina, que vem com a felicidade dentro. O resultado é que o “E” está cada vez mais fora do gueto, atraindo cada vez mais jovens com sua imagem de droga “benigna”.

Evidente, o caminho para o nirvana não é tão curto nem tão simples. Os riscos para a saúde de quem embarca na onda do ecstasy não são poucos. O primeiro deles não tem a ver propriamente com os danos sobre o organismo, mas com a possibilidade de terminar a noite num lugar bem menos animado: atrás das grades. Trata-se de um risco tão óbvio quanto real: o ecstasy é tão ilegal quanto a heroína ou qualquer outra substância presente na lista de drogas proibidas pelo Ministério da Saúde. Até há pouco tempo, quando a droga era pouco conhecida, havia um certo clima de tolerância. O mesmo que costuma cercar os usuários de maconha. “Para a polícia essa diferença de tratamento nunca existiu”, diz o delegado Gilberto Cezar, da Polícia Federal de São Paulo. “Temos apenas que concentrar esforços nas drogas mais consumidas.” Mas a descoberta do primeiro laboratório para a fabricação do ecstasy no Brasil, num apartamento no centro de São Paulo, no mês passado, está mudando o modo como a sociedade vê o ecstasy. Cinco pessoas foram presas, entre elas dois estudantes. O material recolhido na apreensão poderia fabricar cerca de 10 000 unidades do “E”.

A substância que define o ecstasy é o MDMA, sigla de (não tente pronunciar) metilenodioxidometanfetamina. Com esse nome, a droga é confundida com as anfetaminas ou metanfetaminas, outros estimulantes sintéticos ilegais que deixam as pessoas “ligadas”. Apesar de ser derivado da anfetamina, o composto MDMA tem uma parte da sua molécula semelhante ao de um alucinógeno. O MDMA não chega a produzir as alucinações do LSD (ácido lisérgico), nem a excitação de substâncias estimulantes como a cocaína. Em compensação, mixa efeitos moderados das duas substâncias – segredo do seu sucesso como “droga social”.

Ingerido por via oral, o “E” chega à circulação sangüínea em 20 a 60 minutos, através do aparelho digestivo, e espalha-se por todo o corpo. Quando a substância alcança o cérebro, têm início os efeitos. Ela atua sobre os neurotransmissores – mensageiros responsáveis pela transmissão de informação no cérebro que regulam o nosso humor e outras funções do organismo. São três os neurotransmissores afetados: a serotonina, a dopamina e a noradrenalina. O mais atingido pelo “E” é a serotonina – que controla as nossas emoções e também regula o domínio sensorial, o motor e a capacidade associativa do cérebro. O MDMA provoca uma descarga de serotonina nas células nervosas do cérebro para produzir os efeitos de bem-estar e leveza tão apreciados pelos freqüentadores das raves.

Como a serotonina também é reguladora da temperatura do corpo, outro risco imediato de quem toma o ecstasy é o da hipertermia, ou superaquecimento do organismo. As mortes associadas à droga são decorrentes quase sempre da elevação da temperatura do corpo acima dos 41 graus. A partir dessa temperatura, os riscos são eminentes. O sangue pode coagular produzindo convulsões e parada cardíaca. Não é à toa que as raves são praticamente as únicas festas em que o consumo de água mineral ultrapassa de longe o das bebidas alcóolicas.

Por estar tão associado ao ambiente tecno-futurista da música digital, é difícil acreditar que o MDMA já existia em 1912 – quando o último grito em tecnologia sonora era o fonógrafo de Thomas Edison. Em 1914, o laboratório alemão Merck patenteou a fórmula do MDMA, na esperança que ela servisse como um medicamento para estancar hemorragias. Mas a droga nunca chegou a ser comercializada. E permaneceu esquecida por décadas até ser ressuscitada na Califórnia, nos Estados Unidos, nos anos 60. O químico Alexander Schulgin sintetizou o MDMA em seu laboratório e testou os efeitos em si mesmo. Em 1978, publicou o primeiro artigo científico sobre o efeito da substância em seres humanos. O artigo dizia que a droga produzia um “estado controlável de alteração da consciência com harmonia sensual e emocional”. Foi o bastante para que um grupo de psicoterapeutas americanos passasse a usar o MDMA como droga auxiliar em seus tratamentos. A idéia era simples: sob doses controladas, os pacientes falariam sem barreiras sobre os seus conflitos, ajudando seus tratamentos psicológicos.

Esses terapeutas pouco conheciam os efeitos da droga sobre o cérebro, a longo prazo. E tentaram manter seu uso restrito. Temiam que, assim como ocorreu com o LSD, o MDMA fosse proibido quando se tornasse popular. Os anos 80 confirmaram as previsões. No início daquela década, a droga podia ser encontrada em bares, nos Estados Unidos, com o nome de Adam, Essence e Love. Em 1986, a Comissão de Entorpecentes das Nações Unidas e peritos da Organização Mundial de Saúde solicitaram que os Estados membros de ambas as instituições banissem o MDMA com base na Convenção Internacional sobre substâncias psicotrópicas de 1971. Com a decisão, os psicoterapeutas ficaram proibidos de usar profissionalmente o MDMA – com exceção da Suíça, onde a droga permaneceu liberada para esse fim até 1993. Apesar da proibição, até hoje alguns médicos continuam insistindo nas possíveis vantagens terapêuticas da droga. É o caso da doutora Julie Holland, psiquiatra norte-americana que escreve artigos em defesa do MDMA. Para Holland, a substância pode servir como um antidepressivo de efeito imediato. “A maioria dos antidepressivos levam semanas e às vezes meses para funcionar, enquanto o MDMA precisa de apenas uma hora”, afirma Julie.

O que novas pesquisas da Universidade John Hopkins trazem são evidências de que o MDMA causa danos permanentes em determinadas células do cérebro (ver box acima). No mês passado, a revista americana Neurology publicou os resultados parciais de uma recente pesquisa canadense que dissecou cérebros de cadáveres de usuários de ecstasy para compará-los com cérebros de pessoas que não haviam usado a droga. Os resultados são surpreendentes: a quantidade de serotonina nos cérebros dos usuários do ecstasy era de 50% a 80% menor do que em um cérebro comum.

Mas nem a divulgação dessas pesquisas, nem a proibição da droga, impediram a escalada de vendas de “E”. Na cidade de Nova York, uma pesquisa revelou o impressionante dado de que um em quatro adolescentes já experimentaram a droga. Em São Paulo, até o ano passado o ecstasy nem era levado em conta pelas estatísticas. No levantamento domiciliar sobre o uso de drogas no Estado, realizado pela Universidade Federal de São Paulo, o ecstasy nem entrou na lista. Depois da maior apreensão de Ecstasy no Brasil, em novembro do ano passado – 170 000 comprimidos no Aeroporto de Cumbica em São Paulo –, e da recente descoberta do laboratório da droga no país, tudo indica que a indiferença em relação ao “E” vai acabar.

É provável que o maior risco do Ecstasy, no entanto, não advenha diretamente do MDMA. Como toda substância ilegal, ninguém pode garantir o conteúdo do comprimido que é vendido como ecstasy numa festa ou casa noturna. “Nas amostras que analisamos em São Paulo, encontramos diversas substâncias misturadas ao MDMA”, diz o professor Ovandir Silva, diretor do laboratório de análise toxicológica da USP. “Alguns comprimidos continham cafeína e metaanfetamina – droga com alto poder de vício.”

A propósito: ecstasy vicia? Por enquanto, há poucos relatos de dependência física de MDMA – apesar de a OMS recomendar que não se faça mais a distinção entre dependência física e psicológica. O que se estima, de toda forma, é que seu poder de vício seja equivalente ao do LSD. “Ainda não conheço nenhum viciado em ecstasy”, diz Arthur Guerra, professor da USP e um dos maiores especialistas no tratamento de dependentes de drogas no país. Guerra, que recentemente recebeu a incumbência de tratar o cantor Rafael, do grupo Polegar, usuário de cocaína e crack, diz que ainda é incomum ouvir depoimentos do uso de ecstasy fora das festas e de encontros entre amigos. “A droga ainda está associada a um tipo bem específico de cultura”, diz.

A origem dessa cultura que envolve o “E” remonta ao ano de 1987, na Ilha de Ibiza, na costa mediterrânea da Espanha, uma das maiores concentrações de jovens europeus, e especificamente ingleses, em férias de verão. Foi lá que surgiu a cultura clubber, em referência aos freqüentadores dos “clubs” de Ibiza, casas noturnas que correspondem às nossas danceterias. Uma associação entre psicodelismo, festas dançantes intermináveis e, claro, ecstasy. “Eles uniram a música eletrônica e a linguagem visual dos anos 60 e 70”, diz a jornalista Erika Palomino, espécie de porta-voz da cena clubber no Brasil. Erika acompanha raves desde suas origens, em 1994, quando o movimento estava restrito ao underground da noite paulista. “Naquele ano, chegaram as primeiras remessas significativas de ecstasy no país. Ele vinha cercado da fama de droga do amor”, diz. Erika conta que, depois de um certo tempo, muitos usuários não conseguem mais se divertir sem a droga. “De certa forma, eles também se tornam escravos do ‘E’.”

Para saber mais

Na livraria: Ecstasy and The Dance Culture

Nicholas Saunders, Turnaround e Knockabout, Inglaterra, 1995.

Ecstasy & Cia

Patrick Walder e Günter Amendt, Campo das Letras, Portugal, 1997.

Babado Forte

Erika Palomino, Editora Mandarim, São Paulo, 1999.

Na Internet: Dance Safe http://www.dancesafe.org

Na Internet: Maps http://www.maps.org/research/mdma/index.html

rcavalcante@abril.com.br

Euforia solta no cérebro

O ecstasy reforça o efeito do neurotransmissor do bem-estar, a serotonina

1. O cenário da ação

As sensações são criadas no cérebro pela troca de substâncias químicas, os neurotransmissores, entre os neurônios. O intercâmbio ocorre no local onde dois neurônios se encontram, as sinapses.

2. Fluxo normal

Quando você sente bem-estar, um neurônio libera algumas moléculas do neurotransmissor serotonina. Ao serem absorvidas por outro neurônio, surge a boa sensação. Mas o efeito não dura muito porque parte da serotonina é reabsorvida pelo primeiro neurônio.

3. Efeito turbo

E aí que entra em cena o ecstasy. Cerca de 30 minutos depois de ingerido, ele chega ao cérebro, entra na sinapse e bloqueia as moléculas de serotonina que, sem isso, seriam reabsorvidas. O prazer é prolongado.

4. Fim do barato

Um ou dois dias após o fim dos efeitos, ocorrem estados de depressão provocados provavelmente pela redução dos níveis de serotonina no cérebro. É a chamada Blue Tuesday, a terça-feira triste.

O underground conquista o andar de cima

Como culturas marginais viram tendências aceitas por todos

As drogas sempre estiveram ligadas a um tipo específico de cultura – ou contracultura, ou subcultura. Sempre inspiraram um determinado tipo de comportamento. E por isso mesmo sempre tiveram a sua estética própria. A maconha está para o reggae assim como o LSD (ácido lisérgico) está para o rock progressivo, por exemplo. A velocidade e a frieza yuppie dos anos 80, expressos em filmes como Nove e Meia Semanas de Amor, de Ridley Scott, ou Wall Street, de Oliver Stone, têm tudo a ver com cocaína. O mercado, por sua vez, mesmo sendo um ambiente conservador, sempre soube absorver essas estéticas, geradas inicialmente por artistas e indivíduos marginais, e transformá-las em tendências aceitas por todos.

Com o ecstasy e a estética clubber que lhe é peculiar, não é diferente. No Brasil, já há vários produtos emprestando o psicodelismo cibernético das raves. A Skol, por exemplo, apostou alto esse ano para posicionar sua marca entre os jovens: organizou a sua própria rave, o Skol Beats, um festival de música eletrônica que durou dois dias. O desodorante Axe, da Gessy Lever, cobriu de tons psicodélicos uma recente campanha publicitária. Em São Paulo, o Shopping Villa-Lobos, inaugurado em abril desse ano, foi projetado com uma ala exclusiva para lojas ligadas à cultura clubber, o espaço Hype. Enfim, valores e atitudes que nos assustam hoje – é o que mostra o retrospecto das últimas décadas – podem muito bem estar amanhã dentro da nossa sacola de compras.

O barato pode sair caro

Evidências mostram que o ecstasy causa danos permanentes ao cérebro

“Não há nenhuma evidência científica que sustente o uso do MDMA como um medicamento”, afirmou à Super o neurotoxicólogo George Ricaurte, da Universidade John Hopkins, em Baltimore, Estados Unidos, um dos maiores estudiosos do assunto. “Mais do que isso, temos evidências de que o MDMA pode provocar danos permanentes ao cérebro.” Ricaurte estuda há anos os efeitos do ecstasy no cérebro. Em 1994, mostrou que pessoas que tomam a droga pelo menos cinco vezes sofrem de apatia, problemas de insônia e têm menor quantidade de serotonina, o neurotransmissor responsável pelas nossas emoções, no cérebro. A baixa de serotonina foi confirmada em 1998 com tomografias realizadas em usuários de ecstasy. Ricaurte faz outro alerta: uma pesquisa recente feita com macacos revelou que os problemas causados pelo MDMA permanecem iguais mesmo depois de sete anos de abstinência da droga.

Rafael Kenski

“Você não quer parar de dançar”

Sabrina (nome falso), 22 anos, estudante, conta a sua experiência com ecstasy

“Estava ansiosa. A festa rolava a mil. Eu tinha tomado meio comprimido de ‘E’ há 30 minutos e nada, nenhum efeito. Mas, aos poucos, meu corpo foi ficando diferente, mais sensível, mais maleável. Quando era tocada em qualquer lugar, sentia o mesmo arrepio de uma carícia atrás da orelha ou na virilha. Um profundo sentimento de harmonia com o mundo foi me preenchendo.

Numa rave, as pessoas olham para você e sentem a sua felicidade. Basta um olhar, não é preciso mais nada. As cores ficam nítidas, como se você estivesse dentro de um mundo de cor. Parece um videoclip em que o DJ comanda os seus movimentos por meio do som. Quando eu tomo ecstasy, alterno fases de euforia e de relaxamento. É como a música que mistura a batida eletrônica com sons distorcidos. Você não quer parar de dançar. É o ritmo da galera que contagia. Chega um momento em que tudo parece estar em câmera lenta. O corpo aquece, você sente calor, fica derretendo, derretendo, bebe muita água. Mas não sente fome nem cansaço. Pode agüentar horas na pista. O desejo sexual também aumenta. Pelo menos o meu aumentou. Dividi um comprimido com o meu namorado e pude comprovar esse aumento de prazer. O nome ‘pílula do amor’ faz sentido. Tinha uma aura diferente entre a gente, um clima de muita compreensão e de carinho pleno em cada toque. Acho que é o contato com a pele que fica diferente.

Mas o ‘E’ dá depressão, sim. Você fica triste depois que o efeito passa. É difícil voltar e encarar a realidade de que a vida não é tão maravilhosa. As coisas ficam estranhas por um tempo. Acho que não compensa tomar o ‘E’ sempre. Eu, particulamente, só tomo acompanhada do meu namorado.”