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Quase-Morte – Dessa para uma melhor

É possível que 4,5% da população mundial já tenham passado por uma experiência de quase-morte (EQM): foram considerados clinicamente mortos, voltaram à vida e, inexplicavelmente, se lembram de algo que aconteceu naqueles segundos ou minutos de suposta ausência de consciência. Uma grande viagem, a julgar pelos relatos.

• Peace&Love
Toda a dor desaparece, e o sujeito é invadido por um misto de tranquilidade, prazer, bem-estar e contentamento – sensação quase sempre chamada de indescritível.

• Fora de si
Sentir-se fora do corpo, flutuando sobre a cama do hospital ou a cena do acidente, é uma descrição comum. Ao voltar, a pessoa se lembra do que os “vivos” estavam fazendo.

• Portas da esperança
Ainda flutuando, a pessoa segue em alta velocidade por um túnel escuro, antes de ver uma luz lá no fim, descrita como a mais brilhante já vista, embora ninguém relate que ela incomoda os olhos.

• No limite
Alguns contam que conseguiram chegar à luz. Lá, encontraram apenas claridade ou cenários paradisíacos. Depois da viagem, a pessoa acorda na cama do hospital.

 

 

FOI BOM PRA VOCÊ?
Apenas 3% das EQM são descritas como negativas.

Elvis morreu
É bem comum pacientes contarem que, durante a morte clínica, tiveram encontros ou conversas com amigos e parentes já falecidos. Muitos ainda deparam com celebridades nesse momento. O médico e parapsicólogo Raymond Moody, pioneiro nos estudos de EQM, reuniu várias histórias de gente que afirma ter visto Elvis Presley no outro plano. Seria a prova de que o rei do rock bateu as botas mesmo?

EU VI O QUE VOCÊ FEZ
Histórias assombrosas de EQM são relatadas pelos médicos. Como a de um homem que teve um ataque cardíaco, atendido pela equipe do cardiologista holandês Pim van Lommel. A enfermeira retirou sua dentadura para entubá-lo, e quando o sujeito voltou à vida ninguém lembrava o paradeiro da prótese. Só o paciente, que disparou: “Está no carrinho de instrumentos cirúrgicos”.

RECORDAR (NÃO) É VIVER
O maior estudo sobre EQM já realizado mostrou que metade dos pacientes que voltaram do “além” relatando experiências intensas do período de quase-morte morreu ao longo do mês seguinte. Entre os que voltaram e não se lembram de nada, o índice de óbitos não chega a 10% no mês. Isso levanta a hipótese de que quem lembra de alguma coisa pode ter tido lesões cerebrais.

VIDA NOVA
Após voltar, quem quase-foi tende a enxergar a vida de outro jeito. A maioria das vítimas ressuscitadas de acidentes ou paradas cardíacas conta que tornou-se mais espiritualizada, altruísta e segura quanto ao destino final.

DESMEMORIADOS
Calcula-se que entre 12 e 18% dos pacientes que são considerados clinicamente mortos e depois voltam à vida dizem se lembrar de coisas que teriam acontecido durante o período “morto”. O resto não lembra de nada.

 

 

ALTERNATIVOS
PARA OS CÉTICOS, EXPERIÊNCIAS DE QUASE-MORTE (EQM) SÃO MEROS TILTES NEUROLÓGICOS. PARA AS TEORIAS ALTERNATIVAS, ELAS PROVAM QUE HÁ CONSCIÊNCIA FORA DO CORPO (ALMA?). OS ARGUMENTOS DESTE EMBATE:

“Desde que pesquisadores de diversos países passaram a analisar e discutir as EQM de modo mais abrangente, a medicina e as neurociências têm sido forçadas a repensar a morte e a possibilidade de sobrevivência extrafísica da consciência. No entanto, ainda hoje, há cientistas que adotam abordagens superficiais tais como memória genética, diminuição de oxigenação cerebral ou associam a experiência à imaginação e a recordações do nascimento biológico, hipóteses que não fornecem explicações satisfatórias para o fenômeno.”

Site do Instituto Internacional de Projeciologia e Conscientologia. Seus pesquisadores defendem que mesmo instrumentos como o eletroencefalograma, usado para verificar a ausência de atividade neural, podem não detectar o que de fato se passa no cérebro.

“A administração de cetamina [um anestésico] pode provocar a sensação de estar fora do corpo e de atravessar um túnel em direção à luz. Entretanto, as experiências com cetamina geralmente envolvem imagens bizarras e assustadoras, normalmente reconhecidas como ilusões, e nos achados sobre EQM as experiências são relatadas como prazerosas, felizes e ‘mais reais que o real’.”

Bruce Greyson, pesquisador da Escola de Medicina da Universidade de Virgínia, em artigo traduzido na Revista de Psiquiatria Clínica, defendendo que as EQM são diferentes de outras simulações de experiência extracorpórea.

“Estudos sobre o cérebro durante paradas cardíacas têm mostrado consistentemente que nessas situações não há atividade cerebral, mas esses indivíduos [que tiveram uma EQM] reportaram percepções detalhadas que indicam o contrário – um alto nível de consciência na ausência de atividade cerebral. Se pudermos verificar essas experiências objetivamente, os resultados podem ter grandes implicações não só para a comunidade científica, mas para o modo como entendemos a vida e a morte.”

Sam Parnia, autor do livro O Que Acontece Quando Morremos e pesquisador da Universidade de Cornell, EUA.

“As mensagens das experiências de quase-morte estão em desacordo com a maioria dos ensinamentos das escrituras [sagradas]. Satã é a força por trás dessas mensagens que estão enganando as pessoas e desses eventos sobrenaturais e revelações que supostamente confirmam essas EQM e suas mensagens”.

Raymond Quigg Lawrence, reverendo morto em 2010, sugerindo que os relatos de quem quase-foi provam possessões demoníacas, no livro Blinded by the Light (“Cegado pela Luz”, inédito no Brasil). O tio do reverendo participou dos experimentos de Raymond Moody Jr., o pioneiro dos estudos de quase-morte.

 

 

CÉTICOS
ENQUANTO IS, NA SALA DE CIRURGIA

Um grupo de cientistas do Canadá conduz um projeto chamado Cool Study, que monitora pacientes em cirurgias em que é preciso induzir uma parada cardiocirculatória. Um monitor instalado na sala projeta figuras no chão – elas só poderiam ser vistas por “alguém” que flutuasse. Depois, o paciente responde sobre o que viu durante a inconsciência. Ainda não foram divulgados resultados conclusivos.

“As EQM podem ser causadas por uma onda de energia elétrica liberada quando o cérebro fica sem oxigênio. Como o fluxo de sangue diminui e os níveis de oxigênio caem, as células do cérebro mandam um último impulso elétrico antes de morrer. Esse fenômeno começa em um ponto e se espalha em cascata, o que provocaria as vívidas sensações mentais.”

Lakhmir Chawla, médico da Universidade George Washington, EUA, defendendo que as visões e conversas lembradas como se tivessem ocorrido durante o período “morto” do cérebro podem ter acontecido segundos antes, ainda durante atividade cerebral.

“A cada segundo, o cérebro regula a quantidade de sangue que circula nele. Se o fluxo diminui, o cérebro encara isso como uma crise e aciona mecanismos que controlam a passagem entre os estados de consciência. Normalmente, há 3 estados: a vigília (acordado), o sono leve e o profundo. O cérebro mantém esses estados bem separados. Mas o processo é diferente em pessoas que tiveram experiência de quase-morte: em vez de passar diretamente do sono para a vigília, o ‘interruptor’ pode misturar os estados de consciência. Ou seja, a pessoa não está totalmente dormindo nem acordada.”

Kevin Nelson, neurologista americano e autor do livro The Spiritual Doorway in the Brain (“A Porta Espiritual do Cérebro”, inédito no Brasil), em entrevista à revista Veja.

“Processos neurofisiológicos devem ter participação nas experiências de quase-morte. [Porque] sensações similares podem ser induzidas por estimulação elétrica do lobo temporal durante cirurgias em epilépticos, feita com altos índices de dióxido de carbono, o que provoca diminuição de oxigênio no cérebro. Ou com a aceleração rápida durante o treinamento de pilotos de caça [que também têm a visão de luz no fim do túnel, como nos relatos de EQM]”.

Pim van Lommel, cardiologista holandês, na revista médica inglesa The Lancet [em coautoria com pesquisadores do Hospital Rijnstate, em Arnhem].

“A desinibição cortical [diminuição dos estímulos elétricos] associada à anoxia [estágio agravado da hipóxia, em que o oxigênio acaba] pode ser responsável pela visão de túnel e de luzes. Como as células do córtex visual estão concentradas no centro do campo de visão e diminuem na periferia, uma excitação aleatória vai produzir o efeito de uma luz brilhante no centro que cresce em torno da escuridão – ou seja, um túnel.”

Susan Blackmore, psicóloga inglesa que se rendeu ao ceticismo depois de tentar, sem sucesso, provar eventos paranormais, na The Skeptic Encyclopedia of Pseudoscience (“Enciclopédia Cética da Pseudociência”, inédita no Brasil).