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Ratos humanos

Fabricados num tubo de ensaio, eles têm em seu organismo substâncias ou órgãos do homem ou de outras espécies e por isso tornam-se modelosideais para o estudo de diversas doenças

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h49 - Publicado em 31 dez 1990, 22h00

As doenças, por motivos óbvios, estão entre os fenômenos naturais cuja compreensão mais interessa ao homem. Infelizmente, é impossível estudá-las por meio de experimentos, como se faz, com grande sucesso, em outras áreas do conhecimento. Certamente, não se pode provocar um distúrbio em uma pessoa para tentar elucidar as suas causas. A própria ciência, no entanto, encarregou-se de romper os limites naturais e acabou descobrindo um método excepcional de simular os males humanos no corpo dos ratos. Já existem animais especialmente talhados para desenvolver a calvície, o câncer, o diabetes e a hepatite, entre muitos outros exemplos. E, para coroar essas proezas, parece cada dia mais próxima a possibilidade de se fabricar um rato aidético.

A força da nova técnica é evidente: para estudar os males humanos, já não é preciso procurar animais naturalmente suscetíveis a doenças análogas a esses males humanos, nem tentar induzi-los por meio de drogas. Tais métodos são úteis, sem dúvida, a tal ponto que se colecionam raras linhagens de ratos com esse fim. Mas isso não é o ideal. O que se procura agora é recriar uma doença completa no organismo de uma cobaia e assim desnudar, com precisão jamais alcançada, o emaranhado de reações químicas existentes nas células. Uma analogia ajuda a entender como isso é feito. Afinal, apesar de seu volume microscópico, as células são verdadeiras fábricas. No seu interior, fazendo as vezes de engrenagens, milhares de substâncias movimentam-se para elaborar os produtos essenciais ao organismo.Não é fácil, portanto, investigar os possíveis defeitos das engrenagens, ou os equivalentes das doenças, de acordo com essa analogia. Mas, além de engrenagens, as células também têm um roteiro de trabalho, por meio do qual é muito mais simples entender o funcionamento da fábrica. Esse roteiro está inscrito nos genes, substâncias-capatazes cuja função é orientar o trabalho das substâncias-engrenagens Os problemas da calvíce, por exemplo, mostram como o estudo dos genes pode ser útil. Eles têm origem na linha de montagem da queratina, o principal ingrediente dos cabelos, cuja produção exige cerca de vinte comandos químicos diferentes.

Em vista disso, os bioquímicos decidiram sabotar pelo menos um desses comandos para ver que tipo de doença poderiam produzir. Primeiro, extraíram do organismo de uma ovelha um gene de nome IF, um dos responsáveis pela produção de queratina. Depois, num tubo de ensaio, copiaram-no diversas vezes e introduziram as cópias nas células sexuais de uma rata prenhe. Como resultado, os filhotes da rata herdaram as instruções defeituosas inseridas na mãe; por ter genes de uma outra espécie, a ovelha, esse tipo de animal é chamado transgênico. Os cientistas haviam imaginado um defeito simples, em que um gene começa a trabalhar mais do que o normal e provoca um desequilíbrio danoso na química celular. O excesso de cópias poderia simular esse efeito.

A experiência confirmou a hipótese, pois os filhotes nasceram suscetíveis à calvíce. Mais do que isso, apresentavam muitos desequilíbrios químicos efetivamente observados nas pessoas que têm problema com os cabelos. Assim, apesar de não deslindar a causa desses males, a experiência mostrou como procurar pelo fio da meada. Não se deve pensar que a questão se resume ao excesso de uma substância. A lição extraída é que uma simples mudança na quantidade altera por completo as instruções originais de um gene, sejam elas quais forem. “Os animais transgênicos desvelam as verdadeiras ações dos genes dentro dos organismos”, ensina a bioquímica Brenda Leckie, do Centro de Pesquisas Médicas, de Glasgow, Escócia.

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Ela analisa uma intrigante experiência, na qual alguns ratos receberam uma cópia extra do gene produtor de renina, substância associada ao controle da pressão sangüínea. Quando injetada no sangue de um animal qualquer, inclusive o homem, a renina provoca hipertensão. Nesse caso, porém, o que se observou foi algo bem diferente: embora sofressem de pressão alta, os ratos não tinham elevada concentração de renina no sangue. Isso prova que não há uma relação simples entre o excesso de trabalho de um gene e as alterações provocadas por ele. Ainda não existe uma pista bem definida sobre os furtivos caminhos desse gene. Mas há indícios de que ele estabelece uma verdadeira revolução na química dos vasos sangüíneos, do coração ou dos rins, em cujas células ele costuma trabalhar. Resultados parecidos podem advir das traquinagens bioquímicas de um gene humano, denominado Apo CIII, que hoje tornou-se suspeito personagem de diversas doenças.Quando se enxertam muitas cópias de Apo CIII numa rata, seus filhotes tornam-se superprodutores de apolipoproteína, substância aparentada ao colesterol. Como decorrência, sofrem de hipertrigliceridemia, ou HTG, distúrbio comum em pessoas com problemas nas coronárias. Em outras palavras, a experiência faz pensar que a causa da HTG é um excesso de trabalho do Apo CIII. Mas esse fato é ainda mais significativo quando se sabe que a HTG também está associada a diabetes, obesidade, pancreatite, deficiência renal crônica, estresse e até alcoolismo.

A criação de modelos para as doenças, embora recente, transformou-se na aplicação de maior sucesso dos animais transgênicos. Fabricam-se muitos outros tipos de bichos mistos, como as cabras com um gene humano produtor de insulina, cujas células tornam-se fábricas ambulantes desse importante medicamento para diabéticos. Um problema com cabras desse tipo é que a insulina brota de vários tipos de células, quando o ideal seria concentrar a produção nas tetas. Assim, seria mais prático coletá-la. De qualquer modo, considera-se que a experiência é um sucesso. Já se fazem, também, porcos magros, animais que recebem um gene humano responsável pela produção de hormônio de crescimento. Outras experiências utilizam um gene de boi do mesmo tipo, com efeito quase idêntico.

Em conseqüência disso, crescem mais esbeltos e desenvolvem uma carcaça com menor proporção de gordura, comparados a seus iguais da natureza. O mesmo pode-se fazer em organismos tão diferentes quanto o dos peixes. Esse tipo de animal, inicialmente, era acometido por severos efeitos colaterais, geralmente devido a uma imperfeita extração dos genes. No entanto, a técnica está sendo aparada rapidamente. Na realidade, os genes dos hormônios de crescimento ganharam uma aplicação mais direta: já estão nascendo porcos anões, duas vezes menores que o normal. É o que diz o geneticista Francisco Duarte, da Faculdade de Medicina (USP) de Ribeirão Preto, interior de São Paulo. “Estamos nos preparando para gerar um miniporco e um microporco”, conta ele, animado com a perspectiva de iniciar a pesquisa com transgênicos no Brasil.

Esses estranhos suínos têm uma dupla finalidade. O miniporco deverá ser criado como um substituto para a leitoa, que é excessivamente gorda quando jovem. O microporco terá grande utilidade na toxicologia, para testar o nível de perigo dos agentes tóxicos industriais e agrícolas. O porco tem um organismo bastante análogo ao do homem e sua reação aos venenos pode ser considerada uma indicação confiável sobre as reações humanas. Mas o tamanho dos animais, atualmente, torna difícil criá-los em laboratórios. O pesquisador quer resolver o problema. “Os microporcos o contornarão.”O trabalho em Ribeirão Preto terá início em março e deve avançar ao longo dos próximos anos. Nesse caso, haverá uma auspiciosa corrida, já que inúmeros outros laboratórios do país apostam no estudo dos animais transgênicos. No Rio de Janeiro, nas dependências da Universidade Federal, prevê-se o nascimento, em breve, do primeiro rato transgênico nacional. “Ele será o protótipo de um futuro boi transgênico imune à febre aftosa”, proclama o pesquisador Rodrigo Brindeiro. A aftosa é uma das maiores ameaças aos rebanhos, e um boi capaz de resistir a ela faria uma revolução nos campos. Portanto, já de saída, abrem-se largos horizontes para uma tecnologia transgênica tipicamente brasileira.

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Finalmente, um dos maiores sucessos dos últimos tempos são os ratos híbridos mas não transgênicos. Em vez de genes, logo que nascem, esses animais recebem transplantes de células humanas. Assim, crescem dotados de miniaturas de órgãos humanos, verdadeiros penetras em seu organismo. São pequenas cópias do fígado, timo, rins, pulmões e diversas outras peças básicas do corpo. O grande sucesso dessa tecnologia são recriações, na escala dos ratos, do sistema imunológico humano, uma proeza concebida e executada, em primeiro lugar, pelo médico Michael Cune, do Hospital Geral de San Francisco, na Califórnia, Estados Unidos. Seus ratos têm uma dupla capacidade.Primeiro, porque desenvolvem um sistema imunológico humano perfeitamente capaz de defendê-los. Segundo, porque esse sistema pode fracassar, exatamente como ocorre durante um ataque de AIDS. Essa segunda característica é uma triste prerrogativa dos homens, os únicos animais vulneráveis ao vírus desse mal. Mas, aparentemente, os ratos de Cune também terão esse potencial, daqui para a frente, fato que Ihes dá imenso valor para a Medicina. No inicio não se dava crédito a Cune e ainda não há certeza sobre o verdadeiro valor dos seus ratos. Agora, inúmeros outros vírus humanos infestam ratos híbridos e fortalece-se a idéia de que as doenças do homem podem ser forjadas de maneira independente do seu próprio organismo.

Para saber mais:

O homem decifrado

(SUPER número 7, ano 6)

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Pela seleção artificial

(SUPER número 4, ano 7)

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