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… Todas as espécies pudessem cruzar entre si?

Se todas as espécies pudessem cruzar entre si, o resultado, paradoxal, seria a mais tediosa hemogeneização da vida no planeta.

Por Fábio Koleski Atualizado em 18 nov 2016, 16h52 - Publicado em 31 ago 2001, 22h00

Imagine o planeta Terra como um grande zoológico psicodélico, onde animais e até vegetais produzissem híbridos cada vez mais bizarros, como baleias voadoras, árvores-macacos e serpentes-cipós. Também não faltariam seres semi-humanos à moda da mitologia grega: sereias, centauros, sátiros e minotauros. Esse é o primeiro cenário que vem à mente quando se tenta projetar as conseqüências de um irrestrito vale-tudo genético. Mas um carnaval surrealista desse calibre só poderia, de fato, acontecer se a possibilidade de todas as espécies cruzarem entre si surgisse de uma hora para outra, após centenas de milênios de evolução.

Caso contrário, em vez de ampliar infinitamente a variedade de criaturas terrestes, o cruzamento entre as espécies só levaria à mais tediosa homogeneização da vida no planeta.

Os biológos garantem que se hoje encontramos seres tão diversificados quanto o homem, o ornitorrinco, o camarão e a laranjeira, é justamente por causa da barreira genética que impede tal entrecruzamento. “Segundo a teoria darwiniana da evolução, há apenas um ancestral comum a todas as espécies. Aconteceu, porém, na Terra primitiva, alguma ação que transformou esse antepassado primordial em duas outras espécies diferentes, incapazes de cruzar entre si”, diz João Morganti, professor de genética do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP). Esse acontecimento, um dos maiores mistérios que cerca a existência de vida em nosso planeta, teria sido fruto das mutações ocorridas naturalmente com o passar de várias gerações daquele primeiro e único organismo. Assim, acredita-se que seus descendentes foram assumindo caraterísticas próprias até o ponto de bifurcação, em que se formaram duas linhagens distintas, inaugurando a vasta diversidade de seres vivos hoje existente.

Milhões de anos depois, as espécies haviam se tornado tão diferentes que, genética à parte, a reprodução entre elas seria fisicamente tão impossível quanto o acasalamento entre a pulga e o elefante. Mas o obstáculo principal está mesmo no código genético: “O número diferente de cromossomos entre duas espécies impossibilita sua reprodução, porque eles precisam estar alinhados durante o processo de divisão das células do embrião”, afirma Mayana Zatz, geneticista da Universidade de São Paulo.

Essa nem é a única barreira: “Mesmo quando duas espécies diferentes chegam a formar um zigoto (célula fecundada que dá origem ao embrião), nada garante que o organismo chegue à fase adulta. E quando chega, não é capaz de se reproduzir”, diz João Morganti. O exemplo clássico citado por ele são os muares: mulas e mulos, resultados do cruzamento entre asno e égua ou entre asna e cavalo. Mulos são totalmente estéreis, enquanto as mulas podem ser fecundadas, mas em casos extremamente raros.

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Se, em vez disso, todas as criaturas pudessem cruzar entre si – o que os biólogos chamam de panmixia (“mistura total”, soma das palavras gregas pan, tudo, e mixis, mistura) – e gerassem uma prole fértil, as cargas genéticas de todos seriam muito parecidas, uma vez que as características adquiridas por determinados grupos também acabariam sendo repassadas aos demais. “A conclusão é simples: não haveria hoje diversidade nenhuma e só poderia existir uma única espécie viva na Terra”, afirma o biólogo Flávio Lima, do Museu de Zoologia da USP. Tudo leva a crer que a conseqüência de tamanha mesmice biológica seria das mais trágicas. Mudanças climáticas como as ocorridas durante a era glacial poderiam simplesmente ter acabado com a vida no planeta. “A diversidade entre as espécies garantiu que, mesmo com todas as alterações ambientais ocorridas na Terra, a vida continuasse existindo.

Muitas espécies não resistiram a essas mudanças e foram extintas – e a prova disso é que não há descendentes para grande parte dos fósseis encontrados. Mas, como existia uma enorme diversidade de organismos, outros acabaram sobrevivendo e deixando sucessores”, diz Flávio Lima.

Portanto, se hoje você está lendo esta revista foi porque, em algum momento, o ancestral do homem e o do peixe deixaram de se cruzar. O que não impediu a imaginação humana de criar esfinges, grifos, sereias, centauros e outros seres panmixiados.

Se a genética fosse um grande vale-tudo, o resultado, totalmente paradoxal, seria uma única espécie de vida no planeta.

 

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