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Universidade e empresa, união que pode dar certo

Artigo de Sebastião Elias Kuri, reitor da Universidade Federal de São Carlos, sobre a necessidade da interação universidade-empresa.

Sebastião Elias Kuri

A interação universidade-empresa é assunto que gera opiniões controvertidas e polêmicas. Essa situação é compreensível, uma vez que o relacionamento tem implicações que podem afetar as duas instituições envolvidas. A experiência de alguns departamentos acadêmicos da Universidade Federal de São Carlos – que há muito desenvolvem esse tipo de interação e que proporcionaram participação efetiva dessa universidade da criação do Pólo de Alta Tecnologia de São Carlos – sugere que a transferência de tecnologia e a prestação de serviços para as indústrias não deve ser encarada como uma simples relação de trocas de serviço de interesse mútuo. 

O que deve ser levado em conta é a possibilidade desse relacionamento se desenvolver dentro de um conjunto de atividades que é de responsabilidade da universidade, como uma contribuição acadêmica na busca da superação dos problemas nacionais ou, até mesmo, na busca de uma estratégia que permita à empresa e à universidade contribuírem ainda mais para o pleno desenvolvimento nacional. Há condições potenciais para que esse relacionamento se efetue, já que num futuro cada vez mais próximo as empresas terão de se adaptar às condições de um mercado mais competitivo, que exigirá maior produtividade. Por outro lado, as universidades poderão dar sua contribuição, pois nelas se concentra a maioria dos pesquisadores brasileiros. 

Um bom exemplo disso é o recém-criado Centro de Caracterização e Desenvolvimento de Materiais em parceria com a Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp). Com equipamentos e laboratórios avançados, ele funcionará como prestador de serviços na área de tecnologia de materiais, aperfeiçoando metais, cerâmica, polímeros etc. e atendendo a instituições de ensino e pesquisa e indústria de todo o país. 

Por isso, a definição e o entendimento dos objetivos e atribuições da universidade são tarefas essenciais para o êxito de seu projeto acadêmico e a compreensão desse aspecto é que estabelecerá as linhas, diretrizes gerais e ações que deverão ser implementadas no dia-a-dia da vida universitária e nas relações com a empresa. A universidade deve ser um espaço privilegiado para a criação, reprodução e difusão do conhecimento, o que não pode acorrer isoladamente da sociedade. É fundamental, portanto, que a universidade interaja com todos os setores da sociedade para cumprir seu compromisso histórico com desenvolvimento do país.

É preciso compreender, entretanto, que a cooperação universidade-empresa, de forma isolada, não levará o país a um novo estágio de desenvolvimento. Uma reestruturação orgânica e de base das relações sociais, econômicas, políticas e culturais, que considere as dependências existentes entre estas áreas no contexto da sociedade brasileira, deverá ser caracterizada para viabilizar o desenvolvimento nacional. Esse raciocínio permite enxergar a relação universidade-empresa como parte integrante da missão da universidade pública brasileira. A autonomia institucional, entretanto, deve ser preservada. 

Para isso é necessário garantir: a) sólida formação científica e tecnológica dos grupos de pesquisa existentes nas universidades, para que cada departamento seja um ponto de referência e de incentivo às empresas que buscam ali a solução de seus problemas; b) a definição de planos diretores a médio e longo prazos nos departamentos acadêmicos para que evitar que modismos tecnológicos circunstanciais interfiram na definição de suas linhas de pesquisas e c) continuidade – e a ampliação – do financiamento das universidades públicas com recursos do Estado, condição essencial para assegurar que as ações acadêmicas promovam o desenvolvimento global da sociedade, sem discriminação e com a garantia de que suas atividades possam se exercidas de forma autônoma e com senso crítico.