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Vírus: Simplicidade mortal

Eles só carregam o essencial para sua multiplicação, mas fazem estragos enormes.

Por fora, os vírus usam traje de gala. Sob um microscópio potente, a capa de proteína que os recobre adquire formas geométricas exuberantes. Mas isso é só na superfície. Por dentro são muito simples. Trazem apenas um ou mais pedacinhos dos ácidos ribonucléico (RNA) ou desoxirribonucléico (DNA), que armazenam informações genéticas em doses ínfimas. De tão banais, nem conseguem se reproduzir sozinhos. É por isso que invadem as células. Lá dentro, eles dão as ordens. Dominam a hospedeira mandando que faça cópias deles mesmos sem parar. “São como programas inseridos num computador”, diz André Lomar, presidente da Associação Pan-Americana de Infectologia. “A máquina só obedece.”

A incapacidade de gerar descendentes com seus próprios recursos deixa essas criaturas com um pé de cada lado da fronteira que separa os seres animados dos inanimados. “Quando entram nas células, passam a ter os requisitos básicos da vida: multiplicam-se e geram cópias capazes de sobreviver sob determinadas condições”, explica o virologista Paulo Zanotto, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Quando estão fora, ficam como sementes de uma planta.” Não estão exatamente vivos, mas também não morrem. Nesse estado, são chamados de vírions e podem resistir por prazos que variam de minutos, caso do HIV, que causa a Aids, a semanas, como o da hepatite B. Mas há alguns que passam décadas sossegados sem perder a potência. A simplicidade é seu grande trunfo.

Proteína pirada

A famosa doença da vaca louca, que tem o nome oficial de Creutzfeld-Jakob, não é transmitida por vírus, como muita gente ainda pensa. Ela é causada pelo príon, uma proteína que existe no sistema nervoso dos mamíferos. Ninguém sabe por que, mas às vezes um príon enlouquece e muda de formato, contagiando outros. Como a função de toda proteína é orientada por sua forma, o cérebro sofre uma degeneração mortal.

Onipresentes

Os vírus estão em toda parte. Pesquisadores noruegueses descobriram que em apenas 1 milímetro cúbico de água do mar podem existir até 250 milhões deles. A maior parte só infecta bactérias.

Nem todos são parentes

Olhando num microscópio eletrônico, você pode até achar que todos os vírus pertencem à mesma família. “Mas alguns são tão diferentes entre si quanto você de uma bactéria”, compara o virologista Paolo Zanotto, da Unifesp. Isso porque uns têm como material genético o DNA e outros, o RNA. Para você ter uma idéia da diferença que isso faz, basta lembrar que todos os animais e todas as plantas usam apenas o DNA para fabricar suas proteínas. As cadeias de DNA e de RNA dos vírus podem ser simples ou duplas, lineares ou circulares, e podem estar numa única fita ou divididas em pedaços.<

Visita à nave inimiga

Camada de proteínas dá forma exótica ao vírus.

 
A FUSELAGEM

A casca do vírus, o capsídio, é composta de proteínas que protegem o material genético do parasita. Alguns, como o HIV e o vírus da gripe, têm por cima uma camada de lipídios, ou gorduras, chamada envelope.

AS ANTENAS

Os espinhos também são feitos de proteína. O vírus usa esses ganchos para se agarrar a receptores – portas químicas – na superfície da célula. A forma dos ganchos e dos receptores é o que define que partes do corpo ele vai infectar.

O PILOTO

O ácido nucléico – DNA ou RNA– é a razão de ser de todo vírus. Ele carrega, em sua seqüência, as instruções para a célula infectada produzir cópias e mais cópias do invasor.

O COCKPIT

Nucleoproteínas envolvem o DNA ou RNA viral (a informação genética), como uma capa. É uma proteção contra ataques das enzimas da célula infectada. Além delas, alguns vírus carregam proteínas que ajudam na replicação.