É verdade que beber dá vontade de fumar?
Leia atentamente antes do próximo happy hour.
Sim. Tanto para fumantes crônicos quanto para os ocasionais, tomar uma aumenta o desejo por um cigarro. E isso acontece antes mesmo de abrir a lata: só a expectativa de ingerir álcool (saber que tem happy hour depois do expediente, por exemplo), já basta para querer uns tragos.
O álcool e a nicotina do cigarro atuam de forma semelhante no cérebro, estimulando a produção de dopamina. Essa é a molécula mensageira que move o circuito do desejo, um sistema que nos deixa motivados ao menor sinal de que algo positivo aconteça. É ele que nos deixa ouriçados com um hambúrguer na chapa, um anúncio de vaga no LinkedIn e a mensagem do contatinho.
O cérebro tem contrapesos para a dopamina, como os circuitos de saciedade e o neocórtex, que baliza os impulsos do circuito do desejo. As drogas, porém, contornam essas travas, jogando os níveis de dopamina no teto. Acredita-se que, combinados, álcool e nicotina potencializam os efeitos reforçadores de ambos. Consumir os dois ao mesmo tempo torna-se mais prazeroso.
Há também um componente psicológico. Álcool e cigarro possuem uma ligação histórica, reforçada pela cultura pop, festas e bares mundo afora. O cérebro, com o tempo, é condicionado a associar as duas drogas.
Beber, então, torna-se um gatilho – que é especialmente forte para os fumantes ocasionais, que costumam limitar o hábito a contextos específicos, como o boteco. Nesses casos, aumentar a frequência de ingestão de álcool também pode aumentar a frequência de fumo. Péssimo negócio.
A vontade de fumar costuma ser maior no começo da bebedeira, quando o nível de álcool no sangue está subindo e a substância atua como estimulante. Além disso, a nicotina pode neutralizar as propriedades sedativas do álcool, que aparecem quando os níveis da droga no corpo baixam. Ou seja: fumar pode fazer com que a pessoa demore mais a sentir aquela canseira típica de uma bebedeira – e, aí, beber mais. Outro péssimo negócio.
Para quem nunca fumou, beber talvez não desperte vontade, mas pode atiçar a curiosidade. “O álcool te deixa mais desinibido. Ele pode fazer com que você se coloque menos restrições para fazer alguma coisa – como experimentar um cigarro”, diz Laura Cury, coordenadora do projeto de controle do álcool da ACT Promoção da Saúde.
É algo para se pensar, sem dúvida, especialmente no cenário atual. Uma pesquisa mostrou que, pela primeira vez em 20 anos, o número de fumantes aumentou no Brasil. Em 2024, a taxa observada foi de 11,6% da população adulta. Em 2023, era 9,3% – um crescimento de 25%.
Fontes: Laura Cury, coordenadora do projeto de controle do álcool da ACT Promoção da Saúde; artigo “An Overview of Alcohol and Tobacco/Nicotine Interactions in the Human Laboratory”; relatório Vigitel Brasil 2006-2024.





