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1. Homem de gelo

Wim Hof passeia descalço e só de sunga onde você não iria nem agasalhado

Eduardo Szklarz

Superpoder: Resistir ao frio
Utilidade: É possível nadar em águas geladas, escalar montanhas, enfrentar nevascas, fortalecer o corpo e até evitar doenças
Frequência: É um caso único

Se você treme o queixo até quando sai da piscina no verão, precisa conhecer a história do holandês Wim Hof. Aos 53 anos, ele coleciona 20 recordes no livro Guinness por suas façanhas em baixas temperaturas. Uma delas foi permanecer 1 hora e 52 minutos imerso num cubo de vidro com gelo até o pescoço, em Nova York. Ele também correu uma meia maratona (21 quilômetros) descalço no Círculo Ártico, a -20°C, usando um prosaico shortinho. Escalou os 5.895 metros do monte Kilimanjaro, o mais alto da África, sem nenhum agasalho. E nadou 80 metros só de sunga sob a crosta do Polo Norte.

Em condições assim, o seu sistema cardiovascular entraria em colapso. A exposição ao frio extremo levaria qualquer um à hipotermia. A pessoa começa a tremer violentamente, sente dores insuportáveis, delira e perde a consciência. Quando a temperatura corporal cai abaixo dos 32°C, a morte é certa. Mas com Hof é diferente: seu corpo se estabiliza nos 37°C. Ele não bate o queixo. Não treme. E ainda puxa conversa com os médicos que monitoram seus feitos.

“Pareço super-humano quando sou comparado a pessoas que não se expõem a baixas temperaturas, mas qualquer um pode fazer o que eu faço”, disse Hof a SUPER. “Gostamos de estar em ambientes mornos e confortáveis. Mas o frio é um grande estimulador de poderes escondidos dentro de nós. E aprendi a usar esses poderes.”

A explicação do homem de gelo para tantos poderes é simples. De tanto se expor ao frio, ele desenvolveu uma técnica de concentração e meditação que lhe permite ajustar seu “termostato interno”. Ou seja: ele teria poder sobre o hipotálamo, que controla a temperatura do corpo. Hof também diz que consegue agir sobre o sistema nervoso autônomo – que regula a respiração, a circulação do sangue e o ritmo cardíaco. Mais: sua concentração incidiria sobre o sistema imunológico, aumentando as defesas do organismo.

“Parecem poderes sobrenaturais, mas é tudo natural. O frio me ensinou a conhecer mais o meu corpo e despertou capacidades que eu já tinha dentro de mim”, afirma. Aos poucos, você também poderia aprender a usar as suas.

Segundo Hof, ele é um autodidata. Seu único mestre foi o próprio frio. Tudo começou com banhos de imersão na neve em sua cidade natal, Sittard, quando tinha 20 e poucos. Logo vieram os mergulhos mais ousados e as escaladas nos confins do planeta. “O frio é o melhor estimulador do sistema cardiovascular. E, se a ele agregamos uma técnica de respiração, criamos uma fisiologia mais forte, que me permitiu atingir os recordes”, diz. Mas mesmo o homem de gelo passa por dissabores. “A façanha mais difícil foi nadar mais de 100 metros sob o gelo na Finlândia porque minha retina congelou e perdi o rumo.” Hof também passou um sufoco ao tentar escalar o Everest, em 2007. Descalço, machucou o pé e teve de desistir. Mas, claro, ele não sentiu frio algum. Hoje, ele ministra cursos sobre suas técnicas. Garante que em 2 dias as pessoas já mudam a forma de lidar com o corpo. Em seu site, Hof dá dicas para quem quiser se aventurar. Em janeiro de 2013, ele pretende escalar o monte Kilimanjaro com um grupo de alunos. “Vamos ficar lá por 3 dias só de short”, diz. “Mostraremos ao mundo que podemos fazer mais do que pensamos. Temos que nos voltar a nossos poderes naturais. Essa é minha mensagem”, afirma Hof.

Meditação, treino ou genética?

Para os cientistas, contudo, o caso de Wim Hof pode ir além de mera concentração. Maria Hopman, médica da Universidade de Radboud, na Holanda, o acompanha em vários experimentos. Num deles, Hopman monitorou as funções vitais de Hof enquanto ele ficou sentado num cilindro com 700 quilos de gelo. A temperatura dele ficou cravada nos 37°C. Ele não tremeu. E o mais estranho: o metabolismo aumentou em quase 100% sem acelerar a frequência cardíaca.

Como é possível explicar esse fenômeno? A médica cita três possibilidades. “A primeira é a meditação, como fazem os monges do Nepal. Por meio dela, Hof poderia de fato controlar o sistema nervoso autônomo e regular a temperatura do corpo.” A segunda hipótese é a adaptação fisiológica. Com seus treinos frequentes na neve, o corpo do homem de gelo pode ter aprendido a separar duas circulações sanguíneas: a da superfície e a do interior. Assim, a superfície ficaria mais fria devido ao contato com o gelo, mas o resto do corpo se manteria a 37°C. E ele conseguiria isso com muito treino. Mesmo assim, isso não seria para qualquer um, provavelmente.

A terceira possibilidade é a variação genética. “Ela faria com que com que os receptores da pele de Wim Hof funcionassem de forma diferente.” Se a hipótese genética estiver certa, o holandês simplesmente não sente frio como o resto dos mortais. Ele teria nascido com alguma característica que o impede de sentir diferenças nas temperaturas ao seu redor. “Em certo sentido, eu o vejo como uma espécie de super-humano porque ele faz algo que ninguém mais faz. É realmente excepcional”, diz Hopman. “A questão é saber por quê.” Ela continua estudando Hof para tentar chegar a alguma certeza. Enquanto isso, o holandês já sonha com um novo recorde: ficar 7 minutos sem respirar – claro, sob o gelo.

Foto: Reprodução/www.icemanwimhof.com