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8. Superbebê

Menino com mutação em uma proteína tem duas vezes mais músculos do que o normal

Nathália Braga

Superpoder – Força desproporcional à idade

Utilidade – Carregar uma mamadeira de 3 litros e ser o bebê mais respeitado – e temido – da maternidade

Frequência – Rara

Em 2000, em Berlim, na Alemanha, uma saudável ex-atleta profissional de 24 anos deu à luz um filho depois de uma gravidez normal. A identidade do pai da criança, assim como a própria, nunca foi revelada. Mas nem por isso ele ficaria no anonimato. Era o primeiro caso a ser registrado de uma mutação que parecia ter criado um pequeno halterofilista.

Logo após o nascimento, os médicos notaram que o garoto possuía músculos exageradamente grandes nas coxas e nos braços – algo não muito esperado para um recém-nascido. Deram início a uma série de exames clínicos, que concluíram que estava tudo bem com sua saúde. Mas algo ainda não se encaixava. Imagens contidas nos estudos sobre o garoto mostram que aos 7 meses, pernas e braços já eram cerca de duas vezes maiores do que o comum para garotos da mesma idade. Aos 4 anos, ele podia sustentar pesos de 3 quilos com os braços estendidos – se você é um mero mortal sedentário provavelmente terá dificuldades se tentar repetir a mesma façanha. Por causa dessas características, ele foi estudado por cientistas do Centro Médico de Berlim da Universidade Charite, que tinham um único objetivo: descobrir o que o fazia ter músculos que pareciam ter sido esculpidos por horas de treino puxando peso na academia.

Para chegar a uma conclusão sobre o caso, cientistas analisaram o material genético do paciente por meio de seu DNA. A mutação foi confirmada analisando o RNA do menino, responsável pela síntese de proteínas das células. Os testes, concluídos em 2004, mostraram que o garoto realmente tem uma mutação genética que bloqueia a produção da miostatina, uma proteína que limita o crescimento muscular. Sem a miostatina, o músculo segue crescendo por causa das células-tronco. “Essa proteína inibe a ativação das células-tronco que moram no músculo. Então, se uma pessoa não tem esse inibidor, vai produzir mais células-tronco no músculo e vai gerar mais tecido muscular do que o normal”, afirma o geneticista Salmo Raskin, especialista em genética médica e diretor do Centro de Aconselhamento e Laboratório Genetika, em Curitiba.

O estudo, conduzido pelo médico do garoto e professor do departamento de neurologia infantil da Universidade de Medicina Center Berlin, Markus Shuelke, mostra ainda que essa mesma mutação não existia em outros 200 indivíduos que tinham semelhanças genéticas.

Apesar de o caso do garoto alemão ser o primeiro a ser documentado, a pesquisa também concluiu que se trata mesmo de uma mutação hereditária passada para o garoto por meio de sua mãe, que era fisicamente forte e com músculos de dar inveja a qualquer Panicat. Os tios do garoto também tinham uma força além do comum.

Mas, mesmo com a forcinha dos parentes, ninguém era como ele. Isso porque, enquanto a mãe tem apenas uma cópia do gene alterada, o garoto tem duas cópias com mutação – daí sua aparência exageradamente musculosa e sua força incomum para uma criança. “A mutação é a mesma, ela não aumenta de geração para geração. Existe outro componente que se associa a ele que faz com que a expressão nele seja diferente e bem mais forte”, esclarece Raskin.

De acordo com os registros da pesquisa, foram analisadas células, em vez de músculos, pois não se tinha feito uma biópsia muscular e o material celular pode ser utilizado para a detecção de mutações sobre o nível de RNA. Depois de muita pesquisa, não foi encontrada nenhuma produção de miostatina nas células do paciente. Anos antes, os mesmos testes foram feitos em ratos e bovinos, na Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, quando especialistas criaram um super-rato, que tinha quatro vezes mais músculos do que um roedor comum.

A pesquisa não foi só para saciar a curiosidade dos cientistas. Agora, a ideia é aplicar o conhecimento para desenvolver tratamentos de males que afetam os músculos.

Proteínas milagrosas

Não é só para dar músculos de aço a uma criança alemã que a falta de miostatina veio ao mundo. Essa alteração genética não chega a ser considerada uma doença. Pelo contrário, pode ser uma solução. Cientistas acreditam que essa condição genética pode ser recriada em laboratório justamente para tratar essas doenças, diz o geneticista Raskin. A doença faz com que seus portadores percam a massa muscular lentamente. O problema é grave: crianças com esse quadro raramente chegam à idade adulta. Um bloqueador de miostatina, então, poderia promover o crescimento dos músculos e ajudar esses pacientes a terem uma vida normal.

Outra proteína milagrosa também vem sendo alvo de pesquisas para o tratamento destas doenças. Nos Estados Unidos, os mesmos pesquisadores do Instituto Johns Hopkins descobriram a folistatina, que, quando produzida em excesso, faz os músculos cresceram ainda mais. Combinar as duas situações seria explosivo em um tratamento para desenvolver a musculatura. As pesquisas indicam que, quando um roedor não tem miostatina ao mesmo tempo que tem folistatina em excesso, o efeito é ainda melhor. Nessas condições, os ratos testados apresentaram tamanho das fibras musculares nada menos que 117% maior do que o normal. “A injecção de bloqueadores de miostatina em ratos aumenta a massa muscular e força específica, sugerindo que a miostatina desempenha um papel importante na regulação do crescimento muscular também em animais adultos”, diz o estudo.

Suplemento perigoso

Os números mágicos e a eficácia comprovada já fez os olhinhos dos ratos – desta vez, os de academia – brilharem. Tem gente querendo vender miostatina em forma de suplementos alimentares, afinal, não é difícil encontrar por aí atletas e fisiculturistas que fazem de tudo para ter músculos de super-herói.

Ainda mais além, pode ser que um dia seja possível recriar a mutação em humanos. Da mesma forma que os cientistas estão tentando usar a miostatina para curar doenças, poderia ser possível usar a proteína para deixar atletas e até pessoas comuns com músculos incríveis. Isso seria feito com base no anticorpo MYO-029, que tem sido testado como um bloqueador da ação da miostatina no corpo.

O procedimento pode ser comparado à terapia genética – quando genes são inseridos nas células e tecidos para tratar doenças -, com a ressalva de que ele atua na proteína diretamente e não no gene que a produz. Se aplicada na corrente sanguínea, poderia aumentar o crescimento dos músculos. Mas os resultados ainda não são conhecidos – ou seja, ter músculos da noite para o dia talvez não seja possível sem muito treino e exercícios. Além disso, não há conclusão sobre os riscos que o consumo de suplementos desse tipo poderiam trazer.

Mesmo no garoto mutante, cientistas não descartam riscos de complicações futuras, já que a miostatina também pode afetar o coração. “O coração de uma pessoa que não tenha nascido com essa mutação não é feito para lidar com a deficiência da proteína. A função cardíaca do paciente tem sido monitorada e por enquanto sabemos que seu coração é saudável, mas ele é muito novo ainda e precisaremos acompanhá-lo”, afirma Shuelke no estudo. Ou seja, se você quer ter músculos definidos e não nasceu com uma mutação genética, o único jeito é aquele mais tradicional: passar horas e horas na academia.

Superfortões
Por US$ 149, você descobre se tem o gene dos musculosos

Você consegue imaginar que um bebê seja capaz de ficar de pé apenas dois dias depois de seu nascimento? Pois Liam Hoekstra, nascido em 2005 e adotado por uma família de Michigan, nos Estados Unidos, conseguiu realizar tal façanha. O organismo de Liam produz níveis normais de miostatina, mas especialistas acreditam que uma falha em seus receptores impeça que ela aja normalmente nas células musculares. O resultado é um corpo com 40% a mais de músculos do que o normal e muita força. Com menos de 6 meses de vida, ele conseguia fazer um movimento chamado cruz de ferro ¿ exercício de ginástica artística em que o ginasta ergue o corpo com os braços estendidos para o lado. Aos 3 anos de idade, apesar de pesar 17 quilos, levantava halteres de 2 quilos em cada braço.

Nascer com esta mutação seria o sonho de qualquer atleta. Por causa disso, já existem empresas que dizem prestar um serviço para descobrir se a pessoa tem ou não este ¿dom¿. Por US$ 149, uma clínica nos Estados Unidos promete fazer uma análise do material genético para saber se o indivíduo tem o gene ACTN3, que é associado à presença de uma proteína que aumentaria o desenvolvimento de músculos.