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A Scanner Darkly

Mistura explosiva de drogas, sexo e repressão. Um trecho exclusivo da obra mais polêmica de Philip k. Dick, o autor que inspirou Blade Runner

Marcelo Cabral

Poucos autores tiveram tantos livros adaptados para as telas do cinema quanto o americano Philip K. Dick (1928-1982). Nada menos que 8 filmes já foram feitos a partir de suas obras. Entre os mais conhecidos estão clássicos como Blade Runner e grandes sucessos como Minority Report e O Vingador do Futuro. O mais recente da safra é A Scanner Darkly, lançado em julho nos EUA. Contando com atores consagrados como Keanu Reeves e Winona Ryder, o filme dirigido por Richard Linklater teve a recepção típica das obras cult: ótimas críticas e péssimas bilheterias. Até o final dessa edição, não estava decidido se no Brasil o filme passará nas telonas ou se o lançamento será diretamente no mercado de locação.

Basta folhear o livro de Dick para entender o porquê da difícil digestão de sua obra. A Scanner Darkly é uma verdadeira bomba atômica que mistura uso de drogas em escala maciça com sexo, neurociência, cultura freak, alta tecnologia, um Estado policialesco e referências bíblicas. Escrito em 1977, o livro é considerado como um dos mais pessoais de Dick. Ele foi inspirado nas experiências do autor, que passou dois anos vivendo em uma comunidade de hippies doidões na Califórnia no início dos anos 70, quando se tornou viciado em anfetaminas. Ao contrário da opinião de diversos médicos e especialistas, Dick sempre defen- deu que o uso de drogas não é uma doença orgânica mas “uma decisão pessoal, assim como se atirar em frente a um carro também é”.

A história do livro se passa em um futuro onde o governo repressivo vigia as atividades de seus cidadãos. O agente policial Fred é escalado para obter informações sobre a origem de uma droga chamada Substância M. Adotando o nome de Bob Arctor, ele se infiltra em um grupo de viciados na Califórnia e é obrigado a tomar grandes quantidades da droga para manter seu disfarce. No entanto, o consumo da Substância M danifica sua mente, fazendo com que ambos os hemisférios de seu cérebro passem a disputar o controle de sua consciência. Logo, Fred/Bob não sabe mais quem é na realidade: um agente policial se passando por drogado ou um viciado que usa o disfarce de policial para obter acesso mais fácil às drogas. Confira um pouco desse dilema nas páginas seguintes.

Novamente na sala 203, o laboratório de testes psicológicos da polícia, Fred ouviu sem interesse enquanto os resultados de seus testes eram explicados pelos dois psicólogos.

– Você mostra o que consideramos um fenômeno de competição, em vez de deterioração. Sente-se.

– Tudo bem – disse Fred estoicamente, sentando-se.

– Competição – disse o outro psicólogo – entre os hemisférios direito e esquerdo de seu cérebro. Não é um sinal único, deficiente ou contaminado; é mais como dois sinais que interferem um no outro ao transmitir informações conflitantes.

– Normalmente – explicou o outro psicólogo – uma pessoa usa o hemisfério esquerdo. O auto-sistema do ego, ou consciência, localiza-se ali. É dominante, porque é sempre no hemisfério esquerdo que se localiza o centro da fala; mais precisamente, a bilateralização (1+) envolve uma capacidade verbal ou valência no esquerdo, com capacidades espaciais no direito. O esquerdo pode ser comparado com um computador digital; o direito, com um analógico. Então a função bilateral não é uma mera duplicação; os dois sistemas de percepção monitoram e processam de forma diferente as informações que recebem. Mas, para você, nenhum dos dois hemisférios é dominante e eles não agem de forma compensatória, um com o outro. Um lhe diz uma coisa, o outro diz outra.

– É como se você tivesse dois mostradores de combustível em seu carro – disse o outro homem – e um lhe diz que seu tanque está cheio e o outro registra que está vazio. Não é possível que os dois estejam certos. Eles estão em conflito. Mas… no seu caso… não é que um esteja funcionando bem e o outro mal; é que… aqui está o que quero dizer. Os dois mostradores analisam exatamente a mesma quantidade de combustível; o mesmo combustível, o mesmo tanque. Na verdade eles testam a mesma coisa. Você, como motorista, só tem uma relação indireta com o tanque de combustível, através do mostrador ou, no seu caso, dos mostradores. Na verdade, o tanque pode se esvaziar e você só vai saber quando um mostrador do painel lhe disser ou quando o motor finalmente parar. Não deve haver dois mostradores dando informações conflitantes, porque, assim que isso acontece, você não tem ne-nhum conhecimento da situação que está sendo informada. Não é a mesma coisa que um mostrador e um mostrador de apoio, em que o de apoio entra em ação quando o normal dá defeito.

Fred disse:

– E o que isso significa?

– Tenho certeza de que você já sabe – disse o psicó-logo à esquerda. – Você anda vivendo isso, sem saber por que ou o que é.

– Os dois hemisférios de meu cérebro estão competindo? – disse Fred.

– Sim.

– Por quê?

– A Substância M (2+). Ela costuma causar isso, funcionalmente. Era o que esperávamos; foi o que os testes confirmaram. Quando os danos ocorrem no hemisfério esquerdo, normalmente dominante, o hemisfério direito tenta compensar a deterioração. Mas as funções gêmeas não se misturam, porque esse é um problema anormal, para o qual o corpo não está preparado. Não deve acontecer. Chamamos de sugestão cruzada. Relacionada com o fenômeno da divisão cerebral. Podemos fazer uma hemisferectomia (3+) direita, mas…

– Isso vai desaparecer – interrompeu Fred – quando eu largar a Substância M?

– Pode ser um dano orgânico. Pode ser permanente. O tempo dirá, e só depois que você deixar a Substância M por algum tempo. E largar inteiramente.

– Como é? – disse Fred. Ele não entendeu a resposta – era sim ou não? Ele tinha danos para sempre ou não? O que eles disseram?

– Mesmo que haja um dano no seu tecido cerebral – disse um dos psicólogos – há experimentos em andamento agora, na remoção de pequenas seções de cada hemisfério, para abortar o processamento competitivo de Gestalt (4+). Acredita-se que um dia isso pode levar o hemisfério original a recuperar a dominância.

– Porém, o problema aqui é que o indivíduo só pode receber impressões parciais… informações que recebe dos sentidos… pelo resto da vida. Em vez de dois sinais, ele recebe meio sinal. O que é igualmente prejudicial, na minha opinião.

– Sim, mas uma função parcial não competitiva é melhor do que não ter função nenhuma, uma vez que a sugestão cruzada competitiva equivale a recepção zero.

– Está vendo, Fred, – disse o outro homem – você não tem mais…

– Nunca mais vou tomar a Substância M – disse Fred. – Pelo resto da minha vida.

– Quantas está tomando agora?

– Não muito. – Depois de um intervalo, disse: – Mais, recentemente, com o estresse no trabalho.

– Ela sem dúvida deve aliviá-lo de suas atribuições – disse um psicólogo. – Isolá-lo de tudo. Você está mesmo com deterioração, Fred. E ficará assim por mais tempo. Provavelmente. Depois disso, ninguém poderá ter certeza. Você poderá ter uma recuperação total; mas pode ser que não.

– Como é – disse Fred numa voz aguda – que, mesmo que os dois hemisférios de meu cérebro sejam dominantes, eles não recebem os mesmos estímulos? Por que os dois não podem ser sincronizados, como um aparelho de som estéreo?

Silêncio.

– Quer dizer – disse ele, gesticulando –, a mão esquerda e a mão direita, quando pegam um objeto, o mesmo objeto, devem…

– O uso da mão esquerda comparado com o da mão direita, como por exemplo o que é indicado por, digamos, uma imagem especular… em que a esquerda “se torna” a mão direita… – O psicólogo se inclinou para Fred, que não olhou para ele. – Como você definiria uma luva esquerda se comparada com uma luva direita, de modo que uma pessoa que não conheça esses termos possa entender o que você quer dizer? E não entender o contrário? O oposto especular?

– Uma luva esquerda… – disse Fred, e depois parou.

– É como se um hemisfério de seu cérebro estivesse percebendo o mundo refletido em um espelho. Através de um espelho. Entendeu? Então esquerda se torna direita, e tudo o que isso implica. E não sabemos ainda o que isso implica, ver o mundo invertido desse jeito. Do ponto de vista da topologia, uma luva esquerda é o mesmo que uma luva direita infinitamente refletida.

– Através de um espelho – disse Fred. Um espelho escuro, pensou ele; um escâner escuro. E São Paulo (5+) quis dizer, por um espelho, não um espe- lho de vidro – eles não existiam na época – mas um reflexo de si mesmo quando ele olhava para a base polida de uma panela de metal. Luckman, em suas leituras de teologia, contara isso a ele. Não por um telescópio ou sistema de lentes, que não invertem, não através de nada, mas ver sua própria face refletida nele, invertida – através da infinidade. Como eles estavam me dizendo. Não é através do vidro, mas volta refletido por um vidro. É esse reflexo que volta a você: é você, é seu rosto, mas não é. E eles não tinham câmeras naquela época, e essa era a única maneira de uma pessoa se ver: ao contrário. Eu tenho visto a mim mesmo ao contrário. De certa forma eu tenho começado a ver todo o Universo ao contrário. Com o outro lado do meu cérebro!

– Fred está vendo o mundo de dentro para fora – declarava o outro homem no mesmo momento.

– De frente e de trás ao mesmo tempo, eu acho. É difícil sabermos como é para ele. A topologia é o ramo da matemática que investiga as propriedades de uma forma geométrica, ou outra configuração, que fica inalterada se o objeto é submetido a uma transformação contínua aos pares, somente aos pares. Mas aplicada à psicologia…

– E quando isso acontece com objetos, quem sabe que aparência eles terão? Eles são irreconhecíveis. Como acontece quando um ser primitivo vê pela primeira vez uma fotografia de si mesmo, ele não se reconhece nela. Embora ele tenha visto seu reflexo muitas vezes, nos regatos, em objetos de metal. Porque seu reflexo é invertido e a fotografia dele não é. Então ele não sabe que a pessoa é idêntica.

– Ele só está acostumado com a imagem refletida e invertida e acha que ele é assim.

– Em geral uma pessoa que ouve a própria voz numa gravação…

– Isso é diferente. Tem a ver com a ressonância da voz no sinus (6+)…

– Talvez sejam vocês, seus merdas – disse Fred – que estão vendo o Universo ao contrário, como num espelho. Talvez eu esteja vendo certo.

– Você vê das duas formas.

– O que é…

Um psicólogo disse:

– Costumavam falar de ver somente “reflexos” da realidade. Não a realidade em si. O principal erro em um reflexo não é que ele não seja real, mas que seja invertido. Fico admirado com isso. – Ele estava com uma expressão estranha. – Paridade. O princípio científico da paridade. O Universo e a imagem refletida, tomamos essa última pela primeira, por algum motivo… porque não temos paridade bilateral.

– Ao passo que uma fotografia pode compensar a falta de paridade bilateral hemisférica; não é o objeto, mas não é invertido, de modo que a oposição faria das imagens fotográficas não imagens, mas a forma verdadeira. O inverso do inverso.

– Aí está, Fred, o que lhe mostra como é complexo o problema de formular a distinção entre uma luva esquerda e…

– Então acontecerá o que está escrito – disse uma voz. – A morte é destruída. Na vitória. – Talvez só Fred estivesse ouvindo isto. – Porque – disse a voz – assim que a escrita parece invertida, sabeis o que é ilusão e o que não é. A confusão termina, e a morte, a derradeira ini-miga, a Substância Morte, desaparece não no corpo, mas na vitória. Vede, eu agora vos conto o segredo sagrado: não iremos todos dormir na morte.

O mistério, pensou ele, a explicação, ele quis dizer. De um segredo. Um segredo sagrado. Não vamos morrer. Os reflexos partirão. E tudo acontecerá rápido. Todos sermos mudados, e com isso ele quis dizer invertido novamente, de repente. Num… …piscar de olhos!

Porque, pensou ele taciturno enquanto observava os psicólogos da polícia escreverem suas conclusões e marcá-las, estamos ao contrário neste exato momento, eu acho, cada um de nós; cada um e todas as coisas, e o espaço, e até o tempo. Mas quanto tempo, pensou ele, quando é feita uma impressão, uma impressão de contato, quando o fotógrafo descobre que usou o ne-gativo invertido, quanto tempo leva para virar? Para invertê-lo novamente para o que deveria ser?

Eu entendo, pensou ele, o que quer dizer a passagem da Bíblia. Através de um vidro escuro. Mas meu sistema de percepção está fodido, como sempre foi. Como eles dizem. Eu entendo, mas não posso ajudar a mim mesmo. Talvez, pensou ele, depois que eu enxergar as duas formas de uma só vez, corretamente e invertidas, eu seja a primeira pessoa na história a ver virado e não virado simultaneamente, e tenha um vislumbre do que vai ser quando estiver correto. Embora eu também tenha o outro, o normal. E o que é o quê? O que é invertido e o que não é? Quando eu vejo uma foto, quando vejo um reflexo? E quanto vou receber de licença médica, ou aposentadoria ou invalidez enquanto estiver me tratando, perguntou-se ele, sentindo já o terror, o pavor profundo e o frio em tudo.

1+ BILATERALIZAÇÃO

Fenômeno onde ambos os lados do cérebro trabalham em conjunto para realizar certas funções. Já foi comprovada melhora em certas tarefas como aprendizado de idiomas por meio desse processo.

2+ SUBSTÂNCiA M

Criada pela imaginação de Philip K. Dick, a Substância M, também chamada de Substância Morte, é uma droga psicoativa que provoca alterações no funcionamento do cérebro de seus usuários.

3+ HEMISFERECTOMIA

Operação cirúrgica onde um dos hemisférios do cérebro é removido ou “desconectado” do resto do corpo. É usada para tratar alguns casos graves de doenças como a epilepsia.

4+ GESTALT

Teoria que estuda como as mentes respondem a estímulos. Um dos casos clássicos é o estudo do porquê pessoas vêem figuras diferentes quando olham para um mesmo objeto, tal como uma nuvem no céu.

5+ SÃO PAULO

Santo católico responsável pelo versículo bíblico que diz que “por agora, enxergamos através de um vidro escurecido”, uma metáfora para a incompreensão do homem frente ao Universo.

6+ SINUS

Cavidades situadas no corpo humano. No caso, trata-se das cavidades paranasais, no esqueleto da face. Entre várias outras funções, elas aumentam a ressonância da voz humana no ouvido.

Vale a pena ler

A Scanner Darkly, de Philip K. Dick, será lançado no Brasil em 2007 pela Editora Rocco. Por enquanto, a única versão em português saiu há 20 anos em Portugal pela editora Livros do Brasil, com o título de O Homem Duplo.

Editora Rocco http://www.editorarocco.com.br

Livros do Brasil http://www.livrosdobrasil.com