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Brasileiro condena o brasileiro

Uma pesquisa exclusiva revela como é negativa a-auto-imagem da população: no julgamento dos brasileiros, a acusação leva a melhor.

Luis Weis

Levado ao espelho, o brasileiro dá de cara com uma imagem perturbadora—a sua própria identidade em desordem. Certamente por força da crise que há longo tempo o invade por todos os lados, ele vê desmancharem-se diante de si conhecidas e reconfortantes fantasias. A realidade atropela as ilusões nacionais, a começar pela matriz de todas elas: a de que Deus é brasileiro. Como um saltimbanco entre um trapézio e outro, o brasileiro parece ter perdido a confiança na mitologia de suas gostosas qualidades, mas ainda não conseguiu se agarrar a uma cadeia de novas crenças, capazes de protegê-lo do abismo.

Apesar da vista embaralhada, o brasileiro lança um duro olhar sobre seus semelhantes: um meneio de reprovação percorre boa parte dos resultados de uma exclusiva pesquisa de opinião destinada a descobrir como os brasileiros se percebem atualmente. Concebido por SUPERINTERESSANTE e realizado em agosto último pela empresa paulista Feedback, o inquérito abrangeu 1 200 residentes de seis grandes capitais—São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador e Belém—, homens e mulheres, de 15 a 65 anos, de todos os níveis de renda e instrução.

Nesse tribunal em que juiz, promotor, réu e advogado são por definição a mesma pessoa, as condenações predominam. Ao relacionar logo de saída as características essenciais da população, metade dos entrevistados apontou apenas defeitos. As críticas mais freqüentes falam em acomodação, preguiça, apatia política. Políticos, empresários, mulheres, homens, jovens — a todos se atribui alguma culpa no cartório. Figuras públicas merecedoras de admiração praticamente inexistem: o país está sem heróis. Percebe-se, de todo modo, diferenças marcantes de julgamento conforme a renda e a região dos entrevistados.

Os mais pobres são quase sempre menos severos. Eles louvam o que consideram ser o esforço, o espírito de solidariedade e o temperamento bem-humorado dos concidadãos. Paulistas, gaúchos e mineiros estão em alta. Cariocas e baianos, em baixa. A vontade de ir embora é uma comichão mais viva do que talvez se pudesse supor. E um resultado em particular vai fundo na crise da auto-estima: a não ser para uma minoria, a afinidade com os estrangeiros radicados no país não aumenta uma vírgula pelo fato de serem eles eventualmente parecidos com os brasileiros.

Um dado assombroso: um em cada dois entrevistados não acha nada de bom nos brasileiros. Outros 11% também embora apontem atenuantes para o que criticam no povo —”injustiçado, sofredor, massacrado pelos baixos salários manobrado pelo governo”. De seu lado, 17% misturam a críticas e elogios e 2,2% enfim manifestam opiniões exclusivamente positivas. Quanto mais jovens os entrevistados, mais freqüentes também as avaliações negativas. Os mais tolerantes são, disparado, os entrevistados de renda até dois salários mínimos. A tendência a juntar reprovações e aplausos aparece sobretudo entre os portadores de diploma universitário e no grupo de renda mais alta (acima de vinte salários).

A principal acusação feita aos brasileiros é a de serem acomodados. Comentários do tipo “aceitam tudo passivamente”, “não lutam pelos seus objetivos”, “são sossegados demais”, deram o tom das respostas, notadamente entre os entrevistados mais severos. Esses juízos vieram acompanhados de uma saraivada de críticas de mesma extração: o brasileiro “é preguiçoso”, “quer tudo de mão beijada”, “não gosta de trabalhar”, “só pensa em se divertir”. Outro importante traço brasileiro seria sua condição de “politicamente alienado”, “inconsciente”, “desinteressado do país”. E ainda: “egoísta”, “individualista “, “oportunista “, “falso”, “mentiroso”, “desonesto”.

No partido minoritário dos que só enxergam méritos nos concidadãos, o principal elogio contempla a atitude diante do trabalho. O brasileiro seria o avesso do acomodado e do preguiçoso—”esforçado”, “lutador”, alguém que “trabalha muito e ganha pouco”. Sintomaticamente, essa convicção segue pela contramão do nível de renda, chegando a ser três vezes mais freqüente na ponta pobre do que na ponta rica da amostra. Outro atributo consistiria na solidariedade, a antítese do egoísmo: principalmente os analfabetos e os mais velhos saudaram o espírito generoso do povo, “sempre pronto a ajudar”. O temperamento bem humorado, a capacidade de festejar e divenir-se (“apesar de sofrido, o brasileiro é muito alegre”) foram lembrados por um quinto daqueles entrevistados, a começar dos cariocas.

Para descobrir a primeira coisa que vem à cabeça quando o assunto é o interesse básico dos brasileiros, pediu-se às pessoas uma resposta de bate-pronto, sem nenhuma elaboração. “O brasileiro se liga mesmo em…”, atiçava o entrevistador. E, em mais de um quarto dos casos, a reação reflexa era “futebol”, antecedendo uma extensa relação de “ligações”, quase todas com o lado ameno da vida— diversão, festas, mulheres, samba, gandaia, carnaval, televisão. Apenas a sete em 100 entrevistados ocorreu dizer “dinheiro”. E não mais de 4% do total imaginam que o brasileiro se liga mesmo em trabalho.

Se existisse um conjunto de características capazes de delimitar a personalidade básica dos brasileiros, quais seriam elas? Para conhecer o pensamento dos entrevistados, a pesquisa apresentou-lhes dezesseis pares de atributos opostos (exemplo: pacato/briguento), passíveis de ser associados a um hipotético modo brasileiro de ser. Os números indicam um claro consenso em relação a nove das dezesseis duplas apresentadas. Assim, segundo a maioria absoluta dos entrevistados, o brasileiro é um sonhador; apenas 9% acham que ele é o contrário disso, um espírito prático. O brasileiro também é impontual e tolerante. E ainda mão-aberta, trabalhador, otimista, sincero, religioso e egoísta. Em linhas gerais, tais resultados são coerentes com as respostas às perguntas iniciais da pesquisa. A exceção fica por conta da atitude do brasileiro diante do trabalho. Na avaliação espontânea, até entre os que só tinham elogios a fazer, menos de 10% disseram que o povo gosta de trabalhar. Aqui na avaliação estimulada, mais da metade preferiu cravar a alternativa “trabalhador” e só um quinto, “vagabundo”. Na fatia de menor renda, as opiniões favoráveis alcançaram três quintos.

O conjunto das respostas revela um misto de julgamentos negativos e positivos, com algum predomínio destes últimos. Negativo, por exemplo, é chamar o brasileiro de sonhador, atrasado, egoísta. Já ao dizer que ele é tolerante, mão-aberta, trabalhador e sincero, a maioria pinta um retrato simpático de sua personagem. Em relação aos demais conceitos, as diferenças de opinião não chegam a caracterizar uma tendência em favor do aplauso ou da censura. Embora mais entrevistados tenham assinalado os adjetivos responsável, obediente, pacato, honesto, libertino, democrata—em vez de, respectivamente, irresponsável, rebelde, briguento, desonesto, puritano e autoritário —, a vantagem é sempre inferior a dez pontos percentuais. Em um caso, houve empate: 35% votaram na alternativa “bem-educado”; outros tantos, no seu avesso, “grosso”.

Em busca da sintonia fina das opiniões acerca da brasilidade, pediu-se que os entrevistados apontassem a maior qualidade e o maior defeito dos patrícios. As respostas conferem com os resultados da pergunta inicial da pesquisa. O atributo “bom coração”, por exemplo, reaparece encabeçando coluna das alegadas qualidades nacionais. A generosidade, o amor ao próximo e o calor humano representariam o que o brasileiro tem de melhor Novamente o fator educação parece interferir: os elogios são maiores quanto maior a instrução do entrevistado, alcançando entre os analfabetos e os de primário incompleto o dobro de citações do que entre os universitários formados. Não mais de 13% dos entrevistados declararam que a grande virtude do brasileiro é o apego ao trabalho. Provável reflexo das realidades regionais e sociais, os paulistas que pensam assim são proporcionalmente três vezes mais numerosos do que os baianos. O pacifismo, o otimismo, a hospitalidade e a disposição de “aceitar as coisas” completam o elenco das características mais citadas como a fina flor do estilo brasileiro.

Quem já não ouviu dizer (ou já não disse) que o brasileiro quer levar vantagem em tudo? Ou que o brasileiro é cordial, não guarda rancor? Para saber até que ponto as pessoas acreditam nessas generalizações, ofereceu-se aos entrevistados uma relação de dezoito frases, referentes, umas, ao brasileiro em geral, outras, a brasileiros em determinados papéis ou situações.

Na primeira categoria, verifica-se que nada supera a crença na alegria do povo. Sete em dez entrevistados, o mais alto índice, concordam totalmente com a afirmação “O brasileiro é bem-humorado, consegue rir de seus problemas”. Os que mais sustentam essa crença são os mais pobres e os cariocas. Dois clássicos juízos negativos sobre a conduta das pessoas arrecadaram quase a mesma (alta) quantidade de adesões: “O brasileiro cuida mal da natureza”, “O brasileiro espera que o governo faça tudo por ele”.

Junto com a faixa mais pobre e menos instruída, os mineiros encabeçam a sólida maioria para quem é pura verdade outra ofuscante gema do imaginário nacional: “O brasileiro é vivo, em dificuldade sempre dá um jeitinho”. O contingente que nas perguntas abertas havia fustigado a passividade brasileira voltou à cena ao ser confrontado com a afirmação “O brasileiro não luta pelos seus direitos”, aprovada por maioria absoluta, mais instruídos. Coerentemente, os entrevistados repeliram a noção de que o brasileiro respeita o direito dos outros”. Mas não se trata de questão líquida e certa: afinal, quatro em dez entrevistados afirmaram concordar em parte com a afirmativa. Ainda uma vez, o maior contingente de céticos, em proporção, habita os patamares mais elevados da renda e escolaridade.

E como anda a crença de que “o brasileiro quer sem pre levar vantagem em tudo”? Concordam totalmente com ela perto de três quintos da amostra. Duas afirmações muito aparentadas—”O brasileiro tem bom coração, não agüenta ver alguém sofrer” e “O brasileiro é cordial, não guarda rancor”— nenhuma por maioria absoluta. O velho clichê da cordialidade brasileira já não passa batido em São Paulo, Belém e Porto Alegre. Os mais crédulos, por sua vez, estão no ponto mais baixo da escada de renda/instrução.

De todas as afirmações para as quais se pediu o parecer dos entrevistados, nenhuma certamente tem tão forte carga emocional quanto a que acusa o brasileiro de racismo; o enunciado ofende a patriótica presunção de que o Brasil é uma democracia racial. Pois se é, muita gente ainda não percebeu, passados 103 anos do fim oficial da escravidão no pais. De fato, duas em cinco pessoas disseram concordar integralmente com a frase “o brasileiro é racista”. Outras tantas concordaram em parte. E só um quinto do total discordou. A concordância plena aumenta entre as mulheres—neste caso, com uma diferença de onze pontos percentuais em relação aos homens, uma das maiores de toda a pesquisa. Diferença ainda mais acentuada se relaciona com a cor da pele: um em cada dois negros sustenta que o brasileiro é racista, contra apenas pouco mais de um terço dos brancos.

Chamados a julgar afirmações referentes a determinadas categorias de brasileiros, os entrevistados fulminaram em primeiro lugar os políticos. Três em quatro pessoas, com efeito, votaram a favor da declaração “O político brasileiro é pior do que o povo que o elegeu”. Os principais inimigos dos políticos parecem ser os mais velhos e os mineiros, os mais pobres e os mais ricos. Haja inimigos. A imagem do empresariado é igualmente turva. Quase três quartos da amostra rejeitou o postulado de que “o empresário brasileiro se interessa pelos seus empregados”. Uniram-se na condenação aos patrões tanto os entrevistados com renda mensal de até dois salários mínimos quanto os que ganham ao menos dez vezes isso. Já os pobres podem consolar-se. Apresentados à frase No Brasil só é pobre quem quer”. que traduz a ficção segundo a qual os pobres são os responsáveis por sua pobreza, sete em cada dez entrevistados foram taxativos: não é verdade.

Na guerra dos sexos, sobram estilhaços para brasileiras e brasileiros. Sessenta e nove por cento dos homens, contra 53% das mulheres, endossam plenamente a suposição de que a mulher brasileira é muito influenciada pelas novelas de TV”. Simetricamente, 61% das mulheres, contra 46% dos homens, aprovam a acusação de que “o homem brasileiro é machista, não trata a mulher como igual”. E não se animem os homens pelo fato de metade da amostra apoiar a afirmação O brasileiro é um bom pai, sacrifica-se pelos filhos”. O apoio tem gosto de elogio em boca própria, pois o entusiasmo do eleitorado feminino pelas virtudes paternas do brasileiro é consideravelmente menor.

Os moços tampouco escaparam da metralhadora giratória. Metade dos entrevistados disse sim à acusação de que “o jovem brasileiro não liga para o país, só pensa em consumir”. E não deu outra: a concordância aumenta rigorosamente com a idade. Em contrapartida, as opiniões se dividem em relação à imagem caricata do velho sabichão. Como seria de esperar. a maioria dos mais idosos rejeitou a noção de que eles “pensam que sabem tudo, não vêem que o mundo mudou”.

Tudo somado, quem é o brasileiro que o brasileiro mais admira? Os números dão o que pensar. Para 18% da amostra—e mais de 20% dos jovens—brasileiro nenhum, vivo ou morto, serve de exemplo ao país. Mais de um quinto dos entrevistados foram buscar seu brasileiro-modelo no circulo intimo de parentes e amigos. A admiração por esses anônimos cidadãos é explicada por serem eles esforçados, trabalhadores, honestos, solidários e generosos, nessa ordem. Mesmo quando o brasileiro exemplar é pescado do aquário de personalidades públicas, tamanha é a pulverização das escolhas que o campeão de votos não conquista mais de 5% das preferências nacionais. Seu nome: Tancredo Neves. Seus atributos: “patriota” e “idealista”. Pela caridade, Irmã Dulce, a religiosa de Salvador. teve 4% do total—e oito vezes isso entre os baianos.

Quando querem falar mal dos habitantes de um Estado, os brasileiros costumam recorrer a uma coleção de estereótipos da mesma família daqueles que servem para rotular a população em geral. Um deles é o que despeja sobre os cariocas a acusação de serem “metidos a malandros”. Pois seis em dez entrevistados na média geral subscreveram por completo esse depreciativo. Não se trata de uma conspiração anticarioca: mesmo no Rio de Janeiro, é a opinião da maioria. Um lugar-comum certamente mais insultuoso —”Os nortistas são violentos” — também mereceu aprovação do conjunto. Em Belém e Salvador, no entanto, as opiniões se dividiram.

Muitos gaúchos se abstiveram de julgar a suposta propensão dos nortistas à violência. Reciprocamente, uma ponderável parcela de entrevistados em Belém preferiu ficar no muro diante da afirmativa “Os gaúchos gostam de contar vantagem”, aceita ao pé da letra por mais de um terço na própria Porto Alegre e pela metade dos paulistas. Em São Paulo, porém, apenas uma em cada quatro pessoas topou vestir a carapuça com a inscrição “Os paulistas são arrogantes”. Infelizmente para eles, em todas as outras capitais a maioria se declarou convencida de que essa característica não é um mito, mas um fato.

Em dois casos, os entrevistados de uma capital foram os que mais se mostraram solidários com um xingatório dirigido indistintamente à população do respectivo Estado. Assim, além de um terço das pessoas ouvidas em Belo Horizonte depositaram seus votos na afirmação de que “os mineiros são pão-duros” —um índice superior ao de qualquer outra cidade. De duas, uma: ou os mineiros têm uma inclinação acima da média à autocrítica; ou simplesmente a avareza não é considerada motivo de vergonha pelo povo das Gerais.

Resultado bem mais grave veio de Salvador. Ali, quatro em dez pessoas apoiaram a injúria de que “os baianos são irresponsáveis”, rejeitada na amostra como um todo. O tamanho do buraco onde jaz a auto-estima dos habitantes de Salvador pode ser medido por uma singela comparação: justamente em São Paulo, onde se diz existir forte preconceito contra os nordestinos em geral, o estereótipo da irresponsabilidade baiana foi recusado pela metade dos entrevistados; em Salvador, só por um em quatro.

O levantamento pediu aos entrevistados que identificassem a população do Estado à qual o Brasil inteiro deveria se assemelhar para ficar melhor (ou pior). As respostas indicam que ninguém como os gaúchos está tão satisfeito consigo mesmo. Praticamente sete em dez pessoas de Porto Alegre não hesitaram em declarar que o Brasil seria melhor se todos fossem iguais a eles— opinião compartilhada por não mais de um quinto na média das outras capitais.

Quem ganhou o título de brasileiro ideal, com folgada vantagem, foram os paulistas. Expurgados os seus próprios votos, o placar favorável a eles fica em 25% — ainda assim um desempenho inigualável. Afinal, dois quintos dos baianos e dos mineiros e mais de um terço dos cariocas admiram os paulistas sobre todos os brasileiros. Depois dos gaúchos e dos paulistas, os mineiros são os que mais parecem estar apaziguados com a sua condição: para quase a metade dos entrevistados em Belo Horizonte, o Brasil seria melhor se tivesse a cara de Minas.

Há muito tempo, quando o Rio de Janeiro era capital do país e cidade maravilhosa, e Copacabana a princesinha do mar, não seria de espantar se a maioria dos brasileiros desejasse que todos fossem iguais aos cariocas. Atualmente, só 4% pensam, assim (e só 17% dos próprios interessados). E mais fácil achar em Belém (ou mesmo em Salvador) quem gostaria que os brasileiros fossem como os paraenses (ou os baianos).

O Rio está com um problema e tanto: mais de um terço do conjunto de entrevistados e 15% dos próprios cariocas apostam que o país ficaria pior se todos os brasileiros fossem iguais aos cariocas. Esse resultado deixa com o Rio o indesejável primeiro lugar nessa perversa competição. Os vice-campeões de impopularidade são os baianos, em parte graças a eles mesmos: para uma em cada três pessoas de Salvador, nada pior que um Brasil com feições baianas. Os ganchos estão consagrados: não apenas a sua auto-rejeição é insignificante, como também é irrisória a parcela dos outros brasileiros que consideram que o pais pioraria se todos se assemelhassem aos rio-grandenses.

Se fosse possível, um em quatro brasileiros (e um em três mineiros) gostariam de nascer de novo—em outro país. E se nada impedisse, mais brasileiros (e mais cariocas) iriam viver no exterior. Regra geral, o desejo de partir (ou a fantasia de renascer em outras terras) acompanha sobretudo os mais jovens e os mais instruídos. A grande maioria que prefere ficar é liderada pelos mais pobres e pelos gaúchos. Os primeiros, já se viu, tendem a ser menos críticos em geral; estes, se sabe, estão em lua-de-mel consigo mesmos. Dois bons motivos para ficar em casa.

Como seria de supor, aqueles que gostariam de ir embora costumam ter opiniões mais duras sobre os brasileiros do que os que acham que seu lugar é aqui. De cada 100 entrevistados que só disseram coisas ruins, 58 fazem parte do primeiro grupo e 47 do segundo. Chama a atenção que somente 1% dos candidatos em potencial ao exterior tenha incluído a honestidade entre as virtudes dos concidadãos. Pior: nenhum deles acha que o brasileiro seja lutador.

Os Estados Unidos são o país preferido por 37% dos que sonham com um bilhete só de ida, e por dois terços na população mais pobre. Já a Itália é a pátria adotiva de um em cada quatro entrevistados na faixa de vinte salários para cima. Seguem-se Japão, Alemanha, França, Canadá e Portugal. Variações regionais existem: em Belém, três vezes mais entrevistados do que no resto do país gostariam de se mudar para o Japão; em Salvador, 14% optaram pela Alemanha. A idade influi também: a preferência das pessoas de 50 anos em diante por Portugal é o triplo da média.

Duas em cada cinco pessoas que acolheriam com festas um visto de permanência em língua estrangeira nos seus passaportes são movidas por uma ambição elementar: ganhar mais. Isso é especialmente verdade quando o país objeto do desejo são os Estados Unidos. Entre os brasileiros que gostariam de fazer a América, o fator remuneração foi invocado por quase dois terços dos entrevistados de menor renda. Uma certa noção do que seja qualidade de vida, traduzida em frases como “lá tem tudo que se precisa”, é outro importante motivo para sonhos americanos. Outra razão ainda é a expectativa em relação às oportunidades de trabalho (“o campo ali é muito maior”). Esse otimismo aparece, por exemplo, em um quarto das respostas de Belo Horizonte—a capital do Estado que, por causa da fama de Governador Valadares, é tido como o grande exportador de brasileiros. Pode-se ler a relação dos principais motivos de emigrar como uma espécie de lista das insuficiências nacionais: ao falarem do que os leva a sonhar com o mundo lá fora, os entrevistados estão na realidade enumerando o que lhes falta cá dentro.

Escolhidos espontaneamente por quase um terço da amostra, os italianos são os estrangeiros radicados aqui com quem os brasileiros mais parecem simpatizar. Seu fã-clube se concentra em Porto Alegre e vai se adensando conforme a renda dos entrevistados. Apoiados por outros 22%, os japoneses alcançaram a medalha de prata na modalidade simpatia, notadamente graças ao voto dos paraenses e dos mais pobres. A opinião dos cariocas e dos mais velhos, por sua vez, ajudou os portugueses a conquistar o terceiro lugar. Os alemães são estimados sobretudo em Porto Alegre. Cinco em cada 100 brasileiros são decididamente xenófobos: não gostam de nenhuma colônia estrangeira.

O que faz um brasileiro gostar de alemães, portugueses e japoneses é principalmente sua (deles) dedicação ao trabalho. Tem lógica: esse atributo revelou-se um critério decisivo para os entrevistados criticarem ou elogiarem seus semelhantes. No caso da simpatia pelos italianos, o que conta, porém, é o temperamento, valorizado sobretudo pelos paulistas. Contabilizadas todas as razões de simpatia, seja qual for a nacionalidade a que se apliquem emerge de novo em primeiro lugar o apego ao trabalho. A alegria e o temperamento extrovertido são o segundo fator de atração, com quase o dobro dos votos concedidos ao espírito solidário e à boa educação. Só a 9% do total ocorreu falar em “povo parecido com o nosso” para elogiar alguma colônia estrangeira —derradeiro indício de que, para o brasileiro, o brasileiro não está mais com aquela bola toda.

 

 

 

Boxes da reportagem

Ser ou não ser brasileiro

A teoria nos ensina que devemos ser cidadãos. Na prática, verificamos que agir como cidadãos não é possível, nem desejável

Por Jurandir Freire Costa

Do ponto de vista psicológico, a formação da identidade nacional de uma pessoa segue as mesmas regras de formação de qualquer outra de suas possíveis identidades. Em poucas palavras. identidade é a imagem que cada um tem de si. Essa imagem é construída na relação com os outros, por meio do aprendizado e da interiorização de como se pode ou se deve desejar, sentir, pensar, falar ou agir em tais ou quais circunstâncias. Nossa identidade de adulto, por exemplo, exige que nos comportemos de maneira x em tais situações; nossa identidade profissional, de maneira y; nossa identidade religiosa de maneira z e assim por diante.

O aprendizado dessas regras é longo e se baseia em dois requesitos. O primeiro é a existência de uma tradição que transmita, de modo estável, os modelos de identidade que caracterizam dada cultura. Esta tradição diz quais são os padrões ideais de conduta que devemos desejar e aos quais devemos obedecer. Ou seja, a tradição é o patrimônio de valores que mostra como as coisas devem ser, premiando as condutas que se aproximam dos ideais e punindo aquelas que deles se afastam. O segundo requisito é a coerência do mundo de valores que forma a tradição.

Uma cultura, para sobreviver, não pode propor ideais de comportamento contraditórios entre si, nem ideais incompatíveis com a vida real das pessoas. Não pode, por exemplo, dizer a um adulto que ser bom pai é ao mesmo tempo amar e odiar os filhos, nem tampouco impor um modelo de realização da função paterna, inconciliável com as condições reais de exercício da paternidade. Nesta hipótese, desorientado psicologicamente, o indivíduo não mais saberia o que é ser bom pai ou não mais poderia ser bom pai, mesmo conhecendo as regras da paternidade ideal. Ou porque qualquer conduta poderia se enquadrar no modelo (primeiro caso); ou porque nenhuma conduta seria adequada (segundo caso).Na atual crise brasileira de valores e perspectivas, ocorre algo semelhante à desorientação mencionada no exemplo acima, no que diz respeito à identidade nacional.

Nossa tradição cultural, por diversas razões criou um ideal de cidadania política sem vínculos com a efetiva vida social dos brasileiros. Na teoria aprendemos que devemos ser cidadãos; na prática, que não é possível, nem desejável, comportarmo-nos como cidadãos. A face política do modelo de identidade nacional é permanentemente corroída pelo desrespeito aos nossos ideais de conduta.

Idealmente, ser brasileiro significa herdar a tradição democrática na qual somos todos iguais perante a lei e onde o direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade é uma propriedade inalienável de cada um de nós; na realidade, ser brasileiro significa viver em um sistema sócio-econômico injusto, onde a lei só existe para os pobres e para os inimigos e onde os direitos individuais são monopólio dos poucos que têm muito.

Preso nesse impasse, o brasileiro vem sendo coagido a reagir de duas maneiras. Na primeira, com apatia e desesperança. É o caso dos que continuam acreditando nos valores ideais da cultura e não querem converter-se ao cinismo das classes dominantes e de seus seguidores. Essas pessoas experimentam uma notável diminuição da auto-estima na identidade de cidadão, pois não aceitam conviver com o baixo padrão de moralidade vigente, mas tampouco sabem como agir honradamente sem se tornarem vitimas de abusos e humilhações de toda ordem. Deixam-se assim contagiar pela inércia ou sonham em renunciar à identidade nacional, abandonando o país. Na segunda maneira, a mais nociva, o indivíduo adere à ética da sobrevivência ou à lei do vale-tudo: pensa escapar à delinqüência, tornando-se delinqüente.

Nos dois casos, obviamente, perde se a confiança na idéia de justiça, legalidade e interesse comum. É o primeiro passo para o império do banditismo— o modo de convívio social em que a lei se confunde com o interesse de um individuo ou de um grupo e a força substitui o diálogo. No banditismo, as leis dão lugar ao mercado da violência, que tende à expansão ilimitada. Numa sociedade regida pela moral da delinqüência, a cada dia se inventam novas formas de transgressão e de desmoralização das leis e novas formas de submissão dos mais fracos aos mais fortes.

Em suma, enquanto o regime da justiça e da legalidade tem como ideal a distribuição eqüitativa do poder, dos direitos e deveres, o regime da delinqüência busca simplesmente subjugar os indivíduos aos donos do poder. Foi assim nas experiências políticas ditatoriais que conhecemos; vem sendo assim na experiência de governos pusilânimes e na prática irresponsável das elites brasileiras, que entregaram o poder, em nossa sociedade, às gangues de colarinho branco ou de pés descalços. Reagir de modo conseqüente a esse estado de coisas significa portanto começar por reconhecer que somos aquilo que nos ensinam a ser ou aquilo que acreditamos e desejamos ser, quando agimos socialmente.

A imagem que temos de nossa identidade nacional é uma espécie de profecia que se auto-realiza. Quanto mais desmoralizamos nossa identidade, mais nos convencemos de que somos cidadãos inviáveis e mais contribuímos para convencer os outros de que nada podemos fazer para mudar o status quo. E isso que o banditismo deseja. No momento, talvez pareça mais fácil descrer e desistir do que lutar por nossos direitos. No entanto, se refletirmos um pouco melhor, veremos que o impossível é apenas o inimaginável. A médio ou curto prazo, quem sabe, com um pouco mais de esforço e tenacidade, poderemos respirar aliviados e dizer: Barbárie, nunca mais. Afinal, como disse a pensadora alemã Hanna Arendt, “os homens, embora devam morrer, não nascem para morrer, mas para começar”.

Jurandir Freire Costa é psicanalista, professor do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro” (UERJ), autor de “Narcisismo em Tempos Sombrios em Tempo e Desejo (Editora Brasiliense, São Paulo. 1989) e Psicanálise e Contexto Cultural (Editora Campus, Rio, 1989)

 

 

 

Identidade

Cédula de identidade

Respostas mais freqüentes à pergunta “Como é o brasileiro? O que melhor define o seu jeito de ser? (em %)

É acomodado ….. 25

É preguiçoso ….. 16

É alienado politicamente ….. 13

É trabalhador ….. 11

É alegre ….. 9

É ignorante ….. 8

É injustiçado ….. 8

É solidário ….. 8

 

 

 

Ou isso, ou aquilo

Concordância com afirmações sobre o comportamento do brasileiro (em %)

O brasileiro é

sonhador ….. 85

prático ….. 9

 

O brasileiro é

atrasado ….. 68

pontual ….. 18

 

O brasileiro é

tolerante ….. 61

repressivo ….. 22

 

O brasileiro é

mão aberta ….. 55

pão-duro ……. 19

 

O brasileiro é

trabalhador ….. 54

vagabundo ….. 21

 

O brasileiro é

otimista …… 55

pessimista …… 27

 

O brasileiro é

sincero …… 47

fingido …… 26

 

O brasileiro é

religioso …… 47

não praticante ….. 30

 

O brasileiro é

egoista ….. 47

desprendido …. 34

 

 

 

Bom, risonho, trabalhador

Respostas mais freqüentes à pergunta “ Qual a maior qualidade do brasileiro?”

Generosidade ….. 16

Alegria …… 14

 

Capacidade de

trabalho …..13

Tranqüilidade …. 9

Otimismo ….. 8

Hospitalidade ….. 8

 

 

 

Estereótipos sob medida

Concordância com generalizações sobre determinadas categorias de brasileiros ( em % de respostas “ concordo totalmente”)

O político brasileiro é pior do que o

povo que o elegeu ….. 74

 

A mulher brasileira é muito influenciada

pelas novelas …. 61

 

O homem brasileiro

é machista ….. 54

 

O jovem brasileiro só pensa em

consumir ……. 51

 

O idoso brasileiro

pensa que sabe tudo …… 36

 

O pobre brasileiro

é pobre porque quer ….. 14

 

O empresário brasileiro

se interessa por seus empregados ….. 6

 

 

 

 

 

Estrangeiros

Opções de vida

Resposta às perguntas “ Se você pudesse, nasceria de novo no Brasil?” , e “ Se pudesse escolher, continuaria vivendo no Brasil?” (em %)

Nasceria no

Brasil ….. 74

 

Nasceria em

outro país ….. 26

 

Continuaria

no Brasil ….. 71

 

Mudaria para

outro país ….. 39