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Caçadores de cupins

É preciso aniquilar, exterminar. Não pode restar nada, nem poeira. A poeira, aliás, é um dos primeiros sinais da presença dessa praga que causa um prejuízo de 10 bilhões de dólares por ano em todo o mundo. É preciso erradicar.

Ivonete D. Lucírio

Siriris voando são bonitos. E um sinal de tragédia

Num fim de tarde quente e úmido, você olha para cima e vê aquele monte de bichos esvoaçando ao redor da luz. Parece só mais uma cena bucólica, mas é o prenúncio da devastação. Os cupins podem estar comendo a cômoda antiga que foi da sua avó, e você nem aí. Ou pior: podem estar roendo as estruturas da sua casa, deixando no chão a poeirinha fina inconfundível.

Aqueles que você vê voando, conhecidos como siriris ou aleluias, são os reprodutores. Milhões saem em revoada no final de setembro e marcam encontro em volta de uma lâmpada acesa. Os que têm sorte acham seus pares e fundam uma nova colônia. Instalados, geram novos demônios que saem em busca de comida, o que, quase sempre, quer dizer estrago. A menos que sejam descobertos a tempo (veja quadro ao lado) e liquidados. Com esses insetos, a única ecologia que (nos) interessa é a morte (deles).

Uma sobremesa literária

Além de madeira, a literatura universal. No cardápio da praga, o papel, rico em celulose, é um quitute cobiçado.

Um banquete subterrâneo e aterrorizante

Além dos prejuízos anuais de 10 bilhões de dólares causados pelo inseto, pesquisadores ingleses calcularam também a fortuna necessária para curar os edifícios contaminados no mundo: 1,9 bilhão de dólares. “É comum encontrarmos edifícios novos totalmente infestados”, conta o biólogo Flávio Carlos Geraldo, especializado em tecnologia da madeira. “E isso por um descuido das construtoras, que enterram a madeira que sobrou da obra nas cercanias do prédio.” O cupim se instala. Quando as tábuas acabam, ele vai buscar mais no prédio ali do lado.

Todos os cupins comem madeira. Mas não é só dentro dela que eles moram. A maior parte dos cupinzeiros é construída na terra. De dentro deles saem os operários, que, em busca de um ágape para saciar a colônia, detonam os móveis dos humanos. Por isso, uma das novas técnicas de combate à praga consiste em colocar um pau envenenado no caminho deles (veja infográfico).

Comida intragável

A tábua tratada com substâncias químicas repelentes (direita) resiste melhor do que as não tratadas (esquerda).

Lixeiros da mata destroem a casa da gente

“É fácil perceber como os cupins são odiados nas cidades”, comenta o biólogo Sidney Milano, da Associação Paulista dos Controladores de Pragas Urbanas. “Basta ver o número de classificados anunciando descupinizadoras.” Mas nas florestas eles até que têm um papel fundamental: ajudam a digerir os troncos das árvores que morrem. São os lixeiros da mata. E não é de hoje. Os primeiros fósseis conhecidos são de 130 milhões de anos atrás, mas provavelmente eles já existiam há 230 milhões de anos.

O problema é que as florestas estão sumindo e as cidades, cheias de papéis velhos e pedaços de tábuas, estão aumentando. Se há comida nos centros urbanos, é para lá que a peste vai. “Boa parte dos cupins que causam estragos hoje nas cidades da região sudeste entraram pelo porto, trazidos por navios”, conta Milano.

Para sorte do bicho, ele se adapta aos mais variados ambientes. Como odeia a luz (os reprodutores são exceção), fixa residência embaixo da terra e na escuridão. Protege-se das áreas iluminadas construindo pequenos túneis e torres. Até topar com o homem. De preferência, impiedoso.

Para saber mais

Alguns Aspectos Atuais da Biologia e Controle de Cupins, Evoneo Berti Filho, Luiz Roberto Fonte, Fealq (tel.: 019 422-2755), Piracicaba, 1995.

É preciso dar ouvidos aos intrusos

Por mais que o cupim se esconda, o exterminador está na cola.

Falta de modos

Quando os bandidos mastigam as fibras da madeira, é como se comessem de boca aberta. Fazem barulho, deixando uma pista valiosa.

As fibras partindo-se vibram como as cordas de um violão. O ouvido humano não sente, mas os aparelhos registram.

O novo método é chamado de detecção acústica e serve para localizar os vilões. Instrumentos muito sensíveis são pregados ao corpo da estátua infestada 1, ou qualquer outra coisa que se queira examinar. Um aparelho amplifica e filtra as ondas de som produzidas pelos invasores que estão ali dentro 2. Os dados são enviados para um pequeno computador que faz a análise e a interpretação das informações 3.

Como pegar o bicho pelo estômago

Um novo processo usa iscas para exterminar a colônia inteira.

O técnico enterra a isca – um pedaço de madeira impregnado com um hormônio que inibe o crescimento – em uma região onde se supõe que haja cupinzeiros 1. Os insetos operários são os encarregados de buscar a ceia para o resto da colônia. Eles engolem pedacinhos da isca 2 e retornam para o cupinzeiro 3. Lá, regurgitam a papa que vai servir de refeição para os companheiros 4. Com os adultos não acontece nada. Mas as larvas (filhotes) não vão conseguir crescer. O cupinzeiro começa a minguar e desaparece. Em algumas iscas, o hormônio é substituído por veneno. Aí, os adultos também sofrem.

Quando a vítima é um santo

Gás tóxico pode salvar obras de arte.

Se os insetos comem uma mesa, ela é trocada por outra. E quando eles atacam uma estátua insubstituível, uma obra-prima? Como não dá para simplesmente trocá-la, é preciso acabar com o bicho. O método mais comum é a fumigação. Em um ambiente fechado, a peça é borrifada com uma grande quantidade de um gás tóxico que penetra na sua estrutura, matando o que estiver vivo ali dentro. O técnico tem que estar bem protegido, com uma roupa isolante e máscara de oxigênio, para não ser afetado. Mas cuidado: o processo cura a imagem mas não a protege de ataques futuros, pois o veneno se dissipa.