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Cientistas usam bocejos – é, bocejos – para desafiar a Realidade Virtual

E a má notícia é que os ambientes imersivos não passaram no teste que os especialistas propuseram.

Eu só entrei em uma realidade virtual (VR) uma vez na vida. Estava em um encontro de jornalistas organizado pela Intel, e eles deixaram os convidados fazerem um test drive em um protótipo. O primeiro passo é colocar um aparato na cabeça. É uma espécie de óculos superdimensionado, com telas no lugar de lentes. Ele ocupa completamente o campo de visão e impede a entrada de luz, de modo que tudo a que seus olhos têm acesso são as imagens projetadas lá dentro. Isolamento total do mundo real.

O próximo passo foi me posicionar no centro de uma rede de quatro sensores distribuídos nos cantos da sala. Eles detectavam movimentos e faziam a paisagem no interior dos tais óculos se mover de acordo. Aí foi só começar a brincadeira: eu estava no topo de uma torre medieval, e precisava usar um arco-e-flecha para defender o castelo de invasores. Jogar videogame é bem diferente quando você está dentro dele. As ameaças parecem muito mais reais, mesmo que tenham traços pixelados tão rudimentares quanto os de um Playmobil.

Psicólogos da Universidade da Colúmbia Britânica queriam testar até que ponto nosso cérebro interpreta a realidade virtual como algo, de fato, real. Em outras palavras, se pessoas que estão imersas no interior dos óculos esquecem que aquilo é de mentirinha e passam a reagir aos estímulos pixelados da maneira como reagem aos estímulos de carne e osso.

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Parece engraçado à primeira vista, mas bocejos são bastante úteis para um teste desses. Por um lado, eles são algo contagioso: quando você vê alguém bocejar, você quase sempre boceja também. Por outro lado, há algum tabu envolvido: bocejar em público é tido como ofensa ou falta de educação em diversas contextos sociais. Assim, uma pessoa opta por segurar ou não um bocejo de acordo com o contexto em que ela está. Em casa, com a família, não há mal algum; numa reunião no trabalho, por outro lado, pega mal.

O que acontece quando você está imerso em uma VR, em uma situação em que não seria educado bocejar, e aí vê alguém bocejar lá dentro? Será que você resiste ao impulso de bocejar também – o que seria uma prova de que nós respondemos ao mundo virtual da mesma forma que respondemos ao mundo real? Ou será que você boceja como se estivesse sozinho – comprovando que, no fundo, seu cérebro sabe que aquilo é uma simulação?

Para descobrir, os psicólogos projetaram uma série de testes engenhosos. Os 22 voluntários que participaram do experimento, 15 mulheres, 7 homens, foram colocados uma realidade virtual onde havia alguém bocejando. Em alguns cenários, esse lugar fictício só tinha mesmo o sujeito mal educado. Em outros, havia uma câmera além dele. Em outros, além do sujeito, havia uma terceira pessoa observando os eventos. A ideia era ver se a presença da câmera ou da terceira pessoa virtual inibiam o bocejo da pessoa real – mesmo que ele tivesse consciência de que tudo aquilo se passava apenas dentro de um computador.

Além disso, havia algumas situações em que um pesquisador era mantido dentro da sala durante o experimento, e outras em que ele se retirava. O voluntário que estava com os óculos de realidade virtual, naturalmente, não podia ver o pesquisador lá dentro. Mas ele tinha consciência de que havia alguém presenciando a cena na vida real.

Conclusão? Muito mais pessoas inibiram os bocejos quando sabiam que o pesquisador estava na sala (mesmo que não pudessem vê-lo) do que quando havia alguém por perto na realidade virtual (a pessoa virtual era claramente visível). 38% das pessoas se deixavam contagiar pelo bocejo quando o pesquisador estava ausente na vida real, independente de haver ou não alguém observando dentro da realidade virtual.

O cérebro não consegue mergulhar completamente na simulação. Ele entende que o mundo real continua existindo. E reage a ele com mais afinco do que reage ao mundo virtual. Essa descoberta é um balde de água fria nos psicólogos que tinha esperanças de usar realidade virtual como uma ferramenta para experimentos. Se os voluntários não reagem a ela de maneira convincente, então as conclusões de estudos feitos com VR não são equivalente às situações da vida real.

“Usar realidade virtual para examinar como as pessoas pensam e se comportam na vida real pode levar a conclusões erradas”, afirmou em comunicado à imprensa Alan Kingstone, um dos autores do estudo. “Por exemplo: prever como pedestres vão agir quando andando em meio a carros sem motoristas, ou analisar as decisões que pilotos de avião tomam em situações de emergência. Essas experiências em realidade aumentada podem ser uma imitação fraca da vida real.”