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Evolução: Homo sapiens 2.0

Viemos dos macacos, mas para onde vamos? Ainda estamos evoluindo? Que tipo de bicho seremos no futuro?

Tiago Cordeiro

Qual é o futuro da evolução humana? O zoólogo britânico Richard Dawkins costuma dizer que essa é a pergunta mais feita a todo especialista em evolução, e é aquela que os mais sensatos sempre evitam responder. Desde a década de 1940, uma saída alternativa era simplesmente negar que o ser humano continua evoluindo. A sombra dos experimentos envolvendo eugenia durante a 2ª Guerra ainda pairava sobre os cientistas, e havia evidências de que nossa espécie teria parado no tempo há aproximadamente 50 mil anos. Mas essa é uma posição cada vez mais difícil de sustentar. “É claro que estamos evoluindo. Todos os seres vivos evoluem, mas alguns mais devagar e nem sempre no sentido de melhorar as condições de competição diante da seleção natural”, diz o filósofo americano Daniel Dennett, diretor do Centro de Estudos Cognitivos da Tufs University. Em março deste ano, uma equipe liderada pelo biólogo americano Jonathan Pritchard, da Universidade de Chicago, anunciou a descoberta de mais de 700 genes que sofreram seleção natural entre 6 mil e 10 mil anos atrás – entre eles, genes que definem a pigmentação da pele, a formação de pêlos e o metabolismo. Portanto, estamos mesmo evoluindo, e está cada vez mais difícil seguir a dica de Dawkins de não discutir o futuro.

Animais domesticados

A evolução depende basicamente de 3 fatores: a mutação, que cria a variedade; a seleção natural, que direciona qual tipo de variedade vai sobreviver; e os fatos que são impossíveis de serem previstos. “A mutação e a seleção são um pouco mais previsíveis, mas a contingência histórica pode mudar tudo, e muito rápido. Foi graças a ela que os grandes répteis perderam a hegemonia do planeta para os grandes mamíferos”, diz a geneticista Maria Cátira Bortoloni, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Nos últimos séculos, o ser humano criou mecanismos para minimizar os efeitos de um desses fatores, a seleção natural. Nos últimos 150 mil anos, por causa das mudanças de estilo de vida e de alimentação, ganhamos pernas mais compridas, braços mais curtos, cabeças maiores e menos pêlos no corpo. Também ficamos mais altos – os homens americanos são hoje 7,5 centímetros mais altos do que os seus bisavós eram há 100 anos. Além disso, nos tornamos fisicamente mais fracos. “A mutação que provocou a atrofia de um dos músculos que sustentam a mandíbula se mostrou positiva. Isso acabou gerando o relaxamento da caixa craniana”, diz Maria Cátira. Nos próximos séculos, essas mudanças tendem a continuar. Em muitos aspectos, os seres humanos se tornaram animais domésticos. Ao diminuir a força da seleção natural e reforçar o poder da seleção artificial, perdemos grande parte da nossa capacidade auditiva. Quanto ao nosso peso, há controvérsias. O mundo desenvolvido está mais gordo, e toda modelo que passa fome por causa do trabalho luta contra uma necessidade ancestral de acumular gordura para encarar períodos de alimentação escassa. Há quem aposte que, num futuro distante, as pessoas mais magras vão viver e procriar mais do que as gordas, até que essa tendência gordurosa não seja mais dominante. De fato, a pesquisa do grupo de Jonathan Pritchard identificou uma mudança em genes envolvendo o metabolismo de carboidratos e a regulação da camada adiposa no organismo.

Corpo fechado?

Há 50 mil anos, quando os homens ainda caçavam para comer, as chances de sobrevivência de uma pessoa míope seriam mínimas. Hoje, essa mesma pessoa cresce e se reproduz sem grandes problemas. Parte dos cientistas usa exemplos como esse para apostar que, no futuro, seremos cada vez mais frágeis – afinal, do ponto de vista biológico, o que interessa é alcançar a idade de reprodução. Quanto e como vivemos depois disso interfere pouco na seleção natural. Desde que se tornou uma meca dos equipamentos de informática, a região do Vale do Silício, na Califórnia, experimentou um grande aumento do número de habitantes autistas. “Eles se mostraram competentes para lidar com computadores. Como têm uma carreira, acabam conhecendo outras pessoas no trabalho, casam-se mais e se reproduzem. Esse é um forte indício de que os genes de praticamente todos nós estão chegando à próxima geração, e não só aqueles mais bem adaptados ao meio ambiente”, diz a antropóloga Kristin Nicole Harper, da Emory University, em Atlanta. Claro que esse processo é mais forte nos países desenvolvidos, onde as condições de higiene são melhores e o atendimento hospitalar de qualidade atende um maior número de pessoas. Em outros lugares, diz a professora, a seleção natural ainda tende a avançar com mais força. “Na África, a tendência é que, dentro de algumas centenas de anos, todos tenham resistência a aids. Foi o que aconteceu entre os chimpanzés, que provavelmente sofreram com mortes maciças até que uma pequena parcela adquiriu imunidade e começou a se reproduzir.” De olho na engenharia genética, outros cientistas apontam para uma tendência contrária: quando os pais forem capazes de escolher as características dos filhos antes do nascimento, as novas gerações serão mais fortes, mais inteligentes e mais resistentes a doenças. Já existem no mundo 3 milhões de crianças nascidas por fertilização in vitro. Centenas dessas crianças foram criadas depois de um processo de seleção genética, um diagnóstico que garantiu que elas não teriam deformidades ou doenças graves. Hoje é possível escolher o sexo do filho – estima-se que, nos EUA, 2 mil casais já tenham feito isso – e diminuir os riscos de que eles desenvolvam mal de Alzheimer ou artrite.

Planeta Brasil

A miscigenação existe desde que o Homo sapiens surgiu na África e se espalhou pelo mundo – não fosse assim, nesses 200 mil anos de história, já teríamos nos dividido em várias espécies diferentes. Mas as últimas 3 gerações experimentaram uma miscigenação ainda maior. “As pessoas estão se casando hoje com mulheres que eles encontraram muito mais longe do lugar onde nasceram do que antigamente. Essa grande mistura de genes vai produzir uma população mundial com uma cor de pele muito parecida e próxima do marrom”, diz o biólogo Peter Ward, da Universidade de Washington. Nem todo mundo pensa assim. Maria Cátira Bortoloni acredita que a tendência é que um número cada vez maior de países, principalmente no Ocidente, experimente uma miscigenação muito parecida com a que o nosso país viveu nos últimos 500 anos. “O Brasil passou por um processo civilizatório muito complexo, até se tornar uma nação em que populações de origens completamente diferentes se misturam. Algo possível pode acontecer no restante do mundo. O mais provável não é o surgimento de um único tipo físico, mas a coexistência, no mesmo espaço, de pessoas de cores de pele, olhos e cabelo diferentes”, ela argumenta. A pesquisa de Pritchard reforça a tese da professora. Ele percebeu que nem todas as mudanças genéticas acontecem simetricamente em diferentes grupos étnicos. Entre os habitantes europeus, foram identificados 4 genes dominantes ligados à pigmentação mais clara da pele. Tanto europeus quanto asiáticos estão sofrendo mutações em um gene que impede a má formação dos ossos, enquanto a população da Nigéria é a que mais experimenta uma diminuição na quantidade de pêlos do corpo. Só em dois aspectos todas as populações analisadas estão evoluindo juntas: a regulação do metabolismo e o desenvolvimento do cérebro.

Inteligência crescente

Há 2 milhões de anos, a caixa craniana dos hominídeos começou a crescer rapidamente, até que surgisse o cérebro, a mais eficiente e complexa estrutura de que se tem notícia. Existem indícios de que esse processo continua acontecendo. Pesquisa do geneticista Bruce Lahn, da Universidade de Chicago, aponta que dois genes que influenciam o tamanho e a complexidade do cérebro continuam sofrendo mutações – há registros de variações tão recentes quanto 5 800 anos. “Se nossa espécie sobreviver por mais 1 milhão de anos, imagino que nosso cérebro será maior e terá diferenças estruturais significativas. As mutações que favorecem o maior desenvolvimento da inteligência são visivelmente favorecidas pela seleção”, diz o professor. Michel Hofman, pesquisador do Netherlands Institute for Brain Research, prevê que ainda há espaço para o cérebro humano crescer até 3 vezes mais do que o tamanho atual, antes de começar a perder a eficiência. A partir desse limite, o tamanho superaria a capacidade de estabelecer sinapses rapidamente. “Temos espaço para evoluir bastante em termos de capacidade cerebral, mas só até certo ponto”, aponta o professor Lahn. “Tudo indica que estamos avançando em direção a um aumento das capacidades intelectuais humanas, mas essa evolução não é ilimitada.”

Rumo ao homo machinus

“As próximas gerações do Homo sapiens serão capazes de controlar sua própria evolução. A tecnologia e os avanços da genética vão nos levar a níveis evolutivos nunca vistos no planeta”, diz o matemático inglês Ian Pearson. Para ele, a civilização está para passar por novos estágios evolutivos. “A partir de 2015, os robôs vão se tornar uma nova forma de inteligência, superior à humana. Quando isso acontecer, vamos começar um processo de união do homem com a máquina”, ele prevê. Primeiro, diz Pearson, virá o Homo cyberneticus, formado pela junção do organismo humano com microchips. Depois, chegará o Homo hybridus, com mutações genéticas que facilitem a incorporação de nanotecnologia. Por fim, virá a era do Homo machinus, quando as máquinas farão parte da própria composição do nosso corpo. “Em 2200, nós mesmos seremos capazes de entrar na internet, porque nós e os computadores teremos elementos em comum”.

Vale a pena ler

The Third Chimpanzee: The Evolution and Future of the Human Animal, Jared Diamond, HarperCollins, EUA, 1992

Future Evolution, Peter Ward, W. H. Freeman, EUA, 2001

O Laptop de Leonardo, Ben Shneiderman, Nova Fronteira, Brasil, 2006