GABRILA65162183544miv_Superinteressante Created with Sketch.

Faça amor e faça a guerra

Os países ricos têm caças supersônicos e mísseis intercontinentais. Mas os pobres contam com uma arma mais eficiente: sexo

Maurício Horta

Somos 6,74 bilhões de habitantes na Terra. Daqui a 5 minutos, outras 1 000 pessoas vão entrar nesse bonde. Em 2050, chegaremos a 9 bilhões. Claro, você nasceu sabendo que a população mundial cresce sem parar. Mas nos países ricos o problema é outro: a falta de gente.

Metade do crescimento populacional do planeta está em 6 países: Índia, Paquistão, Nigéria, Indonésia, Bangladesh e China. Enquanto isso, nenhuma nação no Ocidente (fora as da América Latina) cresce acima da média mundial. Sem guerra alguma, séculos de hegemonia ocidental poderão acabar porque seus casais têm poucos filhos.

Nada menos que 75% dos europeus vivem em países onde se morre mais do que se nasce. Mas a população da União Europeia vai continuar crescendo. Não por causa das taxas de natalidade, mas pela imigração. O mundo pobre, cada vez mais apertado, deve invadir cada vez a praia do mundo rico. E mudar a cara do planeta.

Essa bomba demográfica já está explodindo há um bom tempo: a população árabe na Europa mais do que dobrou nas últimas décadas. Em 1982, eram 6,8 milhões. Hoje são 16 milhões. Na França, que recebeu levas de imigrantes muçulmanos de suas colônias no norte da África, eles já representam quase 10% da população.

Tudo isso pode mudar a identidade de um país e, em casos extremos, quebrá-lo em dois. Para alguns especialistas, um grupo étnico ou religioso com mais de 30% da população já traria esse risco. É mais ou menos o que acontece na Irlanda do Norte. A justificativa do governo central em Londres para manter o país como parte do Reino Unido é o fato de a maioria da população local ser protestante, como na Inglaterra. Só que o número de católicos aumenta devagar e sempre: passou de 37% no fim dos anos 70 para 44% no início do século 21. Quando eles forem majoritários, manter o Reino tão unido como hoje será bem mais difícil.

Hoje, quem mais teme esse tipo de bomba demográfica é Israel. Dos 7,3 milhões de pessoas que vivem lá, 76% são judeus e 20% árabes. Mas o crescimento populacional destes últimos é quase duas vezes maior. Em 2050, os árabes poderão atingir até 30% da população – o que lhes daria muito mais força política para que o país deixe de ser o que é: um Estado judeu, voltado aos interesses desse povo.

Se contarmos a população árabe de Is-rael mais a dos territórios palestinos (Gaza e Cisjordânia), vemos que ela está perto de alcançar a judia (veja aqui embaixo). Para os políticos de direita de Israel, o crescimento da população árabe na região e dentro de suas fronteiras é uma ameaça maior à existência do país que o terrorismo palestino ou a tensão com os países árabes vizinhos.

Faz sentido: o governo chinês, por exemplo, sempre usou a bomba demográfica com arma de guerra. Foi o que ele fez na província de Xinjiang (“nova fronteira”, em mandarim). Em 1953, 6%, dos habitantes de lá eram da etnia han, a majoritária na China. O resto era formado por muçulmanos uigures, a etnia local. A partir de então, multidões de hans foram deslocadas para povoar a região. E ganharam os melhores empregos no governo e na economia estatal, e, hoje, são 40% dos 18,46 milhões de habitantes de Xinjiang. Os uigures ainda são maioria, mas não têm liberdade sequer para jejuar no mês do ramadã.

O caminho do Tibete é semelhante. Os trens que seguem pela mais alta ferrovia do mundo, inaugurada para a Olimpíada, vão cheios de chineses hans, mas voltam mais vazios, deixando nas alturas o desenvolvimento e uma nova configuração étnica.

É a mesma estratégia que Hitler seguiu. Quando virou chanceler, ele passou uma lei dando a cada novo casal “ariano” um empréstimo equivalente a 9 meses de salário médio. A cada criança, um quarto da dívida era perdoada. Havia ainda brindes. No dia do aniversário da mãe de Hitler, 12 de agosto, alemãs com 8 filhos ou mais ganhavam uma medalha de ouro. Já solteironas selecionadas podiam ser fecundadas por um membro da SS, a tropa de elite nazista.

A saída mais clara para os países que vão enfrentar migrações em massa não é um contra-ataque demográfico nessa linha, mas o entendimento. Isso significa deixar de lado os laços de sangue e abraçar a assimilação cultural. Veja o caso dos EUA. A população hispânica representa hoje 15% do país e deve atingir 30% em 2050. Mas nada indica que isso ameace a unidade americana.

Outro ponto: quando grupos imigrantes absorvem cultura do país que os recebe, fortalecem-se também os laços econômicos e políticos entre o lar antigo e o novo. Quanto maiores forem esses laços, maior o custo de rompê-los – e menor é a probabilidade de conflitos entre os países. O fato de 5,3 milhões de judeus e 29 milhões de mexicanos viverem nos EUA fortalece, por exemplo, o elo americano com Israel e a América Latina. Por esse ponto de vista, bastam atitudes racionais para que a bomba demográfica exploda sem deixar ninguém ferido.