GABRILA65162183544miv_Superinteressante Created with Sketch.

Israel e Alemanha: de mocinhos a vilões (e vice-versa)

Enquanto o país fundado pelas vítimas do Holocausto transformou-se em vilão, a pátria de Hitler virou exemplo de fofura. Afinal, eles são bons ou maus?

Se um viajante do tempo saísse de 1950 e viesse bater em 2015, e calhasse de lhe cair em mãos a pesquisa da BBC que mede a popularidade dos países, talvez achasse que os dados estavam de cabeça para baixo. Segundo a pesquisa, realizada com 25 mil pessoas de 24 países, a nação mais popular que existe, vista por 60% das pessoas como “uma influência positiva” para o planeta, é a Alemanha. Já os países mais malvistos, considerados por mais da metade dos terráqueos como uma “influência negativa”, são Irã, Paquistão, Coreia do Norte e… Israel.

O viajante do tempo não entenderia nada. Os alemães, portadores da mesma carga genética da nação que elegeu e apoiou Hitler no mais horripilante projeto de genocídio industrial da história, transformaram-se nos fofos do mundo (e olha que a pesquisa foi realizada antes da Copa de 2014). E Israel, fundado em 1948 em nome da liberdade, da justiça e da paz, pelas próprias vítimas do nazismo, com amplo apoio dos progressistas, disputa hoje a lanterna da vilania global apenas com ditaduras fundamentalistas (e olha que a pesquisa foi realizada antes que bombardeios israelenses matassem crianças palestinas brincando em Gaza).

Se as pessoas que vivem em Israel e na Alemanha possuem os mesmos genes e as mesmas tradições de seus avós, que passaram pela guerra encarnando respectivamente “o bem” e “o mal”, o que mudou em meros 70 anos? Nosso viajante, se quisesse descobrir a resposta, poderia ajustar sua máquina do tempo para as 10 horas do dia 14 de agosto de 1971.

Naquela manhã de sol, a tranquilidade da rica cidadezinha californiana de Palo Alto foi subitamente quebrada por uma visão rara: policiais algemando um estudante branco e firmemente conduzindo-o ao banco de trás da viatura, sob o olhar assustado dos vizinhos. Aquele seria o primeiro de nove jovens levados presos.

Nenhum dos nove tinha cometido crime algum – eram estudantes saudáveis e comuns que tinham se voluntariado para uma pena de duas semanas numa prisão simulada, montada num porão da Universidade Stanford, em troca de US$ 15 por dia. Os guardas dessa prisão seriam 15 rapazes tão saudáveis e comuns quanto os prisioneiros, contratados pelo mesmo salário. O autor da pesquisa, o psicólogo Philip Zimbardo, definiu por sorteio quem seria guarda e quem seria prisioneiro. A partir daí, os prisioneiros seriam tratados apenas por números, e foram obrigados a referir-se aos guardas como “senhor oficial correcional”. Nada de nomes.

Apenas seis dias depois, o Stanford Prison Experiment teve que ser encerrado prematuramente, após vários prisioneiros sofrerem colapsos nervosos. A convivência entre os dois grupos de rapazes comuns tinha degringolado para a hostilidade aberta. Os guardas abusaram de torturas, humilhações e atos de crueldade gratuita. Já os prisioneiros sentiam-se impotentes, deprimidos e se tornaram dissimulados e amargos.

Ao fim do experimento, havia desaparecido qualquer sinal de empatia entre um lado e outro. Um guarda resumiu como uns viam os outros: “esqueci que os prisioneiros eram gente”. Esse fenômeno é conhecido pelos psicólogos como “desumanização”.

Segundo Zimbardo, a desumanização desliga nosso senso moral. Em seu livro O Efeito Lúcifer, ele explica que, quando isso acontece, pessoas comuns tornam-se capazes de cometer atrocidades.

Para que a desumanização ocorra, é importante apagar a individualidade de quem está do outro lado. É o que revelou um outro experimento clássico, realizado em 1963 por Stanley Milgram, na Universidade Yale. Nesse estudo, os sujeitos de pesquisa tinham a tarefa de administrar choques elétricos em voluntários vistos através de um vidro (os voluntários na verdade eram atores fingindo estrebuchar). Em alguns dos testes, uma pessoa na sala comentava de passagem que os sujeitos tomando choques eram “legais”. Em outros, o comentário era: “eles parecem animais”. Embora os atores fingindo levar choque fossem sempre os mesmos, os sujeitos da pesquisa estavam muito mais dispostos a eletrocutar o outro quando ele era descrito como “animal”.

É que o primeiro passo para a desumanização é rotular o sujeito do outro lado. A partir do momento em que acreditamos que o outro não é um ser humano, mas um animal, tornamo-nos capazes de basicamente tudo. Um ambiente onde há uma grande desigualdade de poder – como uma prisão – é o lugar perfeito para que ocorra rotulagem e, portanto, desumanização. É exatamente o que existe hoje no Oriente Médio, onde, na prática, todo um povo (os palestinos) virou prisioneiro de um país (Israel).

O que as pesquisas mostram é que, nessas situações, não adianta procurar culpados. Não interessa saber quem começou a briga ou quem tem mais razão – o que interessa é o ambiente. Enquanto os dois povos se relacionarem como se estivessem numa prisão, é inevitável que um não enxergue a humanidade do outro. Os mais poderosos tendem a perder a compaixão pelo outro lado, e acabam achando normal ser brutal. Os menos poderosos tendem a acreditar que seus rivais são todos maus e precisam ser destruídos. A única solução para uma situação assim é mudar o ambiente. Foi o que a Alemanha fez nas últimas três décadas, quando uma sociedade tolerante, igualitária e largamente desmilitarizada foi instituída.

Nós humanos fomos geneticamente programados para acreditar que há pessoas boas e más, e que um abismo separa umas das outras. A realidade é que o mal mora em cada um de nós. O primeiro passo para liberá-lo é acreditar que os inimigos são animais – ou algum outro rótulo, como “reacionários”, “comunistas”, “petralhas”, “tucanalhas”, “macacos”, “argentinos”, “feminazis”, “falocratas”, “talibikers”, “burgueses”, “judeus”, “terroristas”.

Isso dito, nosso viajante do tempo, depois de ter presenciado a carnificina da Segunda Guerra Mundial, talvez se assustasse ao ver o tom desumanizador dos comentários no Facebook de 2016.