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Múmias: Lições de 3 mil anos

Com modernos equipamentos, pesquisadores desvendam os mais bem guardados segredos das múmias egípcias. Isso pode levar até à criação de novos remédios

O paciente — um anônimo cidadão egípcio de 40 anos de idade—passou por uma batelada de exames ultramodernos, sob os cuidados de uma equipe de cientistas franceses de várias especialidades. Mas o resultado lhe será inacessível para sempre: afinal, ele morreu há mais de 3 mil anos. Na verdade, são os cientistas que esperam ser auxiliados por esse egípcio, nascido em Tebas, cuja múmia repousava no Museu Guimet, em Lyon, sul da França. Submetida a pesquisas com instrumentos como o tomógrafo computadorizado, ela pode fornecer respostas a velhas dúvidas de historiadores e antropólogos que se dedicam a esmiuçar a civilização do Antigo Egito. Ao mesmo tempo e na outra ponta da ciência, a autópsia de múmias revela novas substâncias para a fabricação de remédios, ajuda a entender o desenvolvimento de certas doenças e ainda pode dar uma contribuição aos estudos sobre a evolução da vida.

O fascínio exercido pelas múmias é antigo. A palavra vem do persa mumiyya, cadáver embalsamado. Mas só recentemente se começou a usar o que há de melhor em instrumentos técnicos nas autópsias—anteriormente feitas com microscópios comuns ou, no máximo, com raios X—a fim de obter informações do passado capazes de ser úteis no futuro.

Não se trata de retórica: os cientistas que examinaram a múmia de Tebas, impressionados com a ausência de fungos e bactérias nas bandagens que envolviam o corpo, desconfiam que os egípcios conheciam as propriedades antibióticos naturais das plantas que os químicos modernos ainda ignoram.

Uma análise da resina existente nas bandagens permitiu confirmar a presença de duas substâncias: betume e ládano. Há muito tempo se suspeitava da presença do betume, cor de piche, por causa do habitual tom bronzeado-escuro das múmias. Mas o ládano foi uma surpresa, além de fornecer uma indicação para os historiadores: planta típica do Oriente Médio e da Grécia—até citada na Bíblia — o fato de ser ingrediente dos ungüentos das múmias prova que os egípcios já comerciavam com essas regiões, alguns milhares de anos antes de Cristo.

Essas revelações não excluem que existam outros componentes ainda não identificados nas resinas. Afinal, nada se sabe com segurança sobre como era feita a mumificação—um segredo guardado a setenta chaves pelos sacerdotes embalsamadores, que acreditavam estar repetindo os cuidados ministrados ao deus egípcio dos mortos, Osiris, para garantir-lhe a ressurreição. Há séculos levantam-se hipóteses sobre os componentes dos bálsamos e suas proporções corretas. O estudo da múmia de Tebas com o auxilio do computador deve continuar até elucidar a fórmula. “Chegaremos a novos tratamentos com as plantas utilizadas pelos egípcios”, prevê Patrick Josset, chefe da equipe francesa. “O que é bom para as múmias poderá ser bom também para os seres vivos.”

Os próprios egípcios talvez ignorassem que os bálsamos empregados na conservação dos mortos pudessem ter alguma utilidade em suas vidas. A prova disso, segundo as pesquisas mais recentes, é que a maioria dos egípcios mumificados deve ter morrido de doenças infecciosas agudas, para as quais não havia tratamento na época—o homem de Tebas, por exemplo, apresenta lesões nos pulmões, sinal de que provavelmente morreu de broncopneumonia.

O que mais chamou a atenção dos franceses que examinaram a múmia, porém, foi um vaso em seu interior contendo pele humana e pelos fingidos em tom avermelhado. Sabe-se que, no processo de embalsamamento, os egípcios costumavam retirar todas as vísceras do cadáver, para tratá-las separadamente e guardá-las em vasos, dentro das múmias. Mas guardar pele humana num desses vasos não era costume, ao que se saiba. Isso faz os estudiosos do Antigo Egito pensarem na hipótese de algum ritual especial.

Os egípcios também costumavam rechear as múmias com panos, a fim de manter as formas naturais do corpo. Também nesse ponto a múmia do Museu de Lyon reservava uma surpresa: um dos panos nela guardados era simplesmente uma vela de barco. Segundo os restauradores que participaram da autópsia, a vela data de 3700 anos atrás. O cidadão de Tebas, por sinal, devia ter boa saúde: não há na múmia vestígios de doenças crônicas ou tumores. Os cientistas acreditam que os egípcios, em geral, eram saudáveis, e o motivo, uma alimentação equilibrada, com pouco açúcar: é raro encontrar uma múmia com marcas de cárie nos dentes.

Ter noção da saúde de pessoas que viveram há milhares de anos a partir de um único exame só é possível com a tomografia computadorizada. Graças a ela, pode-se avaliar tamanhos e distancias dentro de um organismo, por exemplo. O estudo de múmias com raios X tinha uma grande limitação: por apenas distinguir com nitidez estruturas mais compactas, como ossos, requeria que todas as bandagens fossem retiradas. Isso motivava toda sorte de protestos dos egiptólogos, para quem se deve manter as múmias o mais possível intactas, em obediência ao mandamento “olhar, sim; mexer, não”.

Além disso, perto da tomografia, outros exames são incompletos: cientistas americanos notaram na chapa de raio X de um sacerdote egípcio, cuja múmia data de 700 a.C., que ele tinha uma deformação na bacia. A gravidade do problema só foi avaliada quando o computador mediu as distancias entre os ossos e chegou ao diagnóstico de que, na adolescência, o sacerdote era tão obeso a ponto de forçar os ossos da bacia, que antes dos 20 anos ainda não estão unidos. Com isso, a perna esquerda ficou mais curta e com certeza ele só conseguia andar com auxílio de bengala.

Problemas ortopédicos, aliás, devem ter sido comuns no Antigo Egito. Durante muito tempo, antropólogos se perguntavam por que as mulheres egípcias morriam bem mais jovens do que os homens. Só recentemente cientistas italianos descobriram que muitas delas morriam ao dar à luz, por terem os ossos da bacia incrivelmente estreitos. A razão dessa anomalia anatômica é desconhecida. Há três anos, cientistas suecos conseguiram fazer, pela primeira vez, a clonagem (cópia feita de organismos vivos) do DNA de uma criança de 1 ano, embalsamada há mais de 24 séculos. Isso foi possível porque, no caso dessa múmia, embora as células tivessem perdido suas membranas protetores, o DNA estava quase intacto.

Desde então, cientistas do mundo inteiro tentam experiências semelhantes. Mas o que será que se pode descobrir a partir de uma simples molécula de alguém que morreu há séculos? Os cientistas buscam três objetivos. Um deles é aprimorar a técnica para encontrar fragmentos de DNA em corpos mumificador de criaturas que morreram muito antes dos antigos egípcios: cientistas americanos descobriram fragmentos de DNA em um mamute que viveu há mais de 40 mil anos. Se fizerem clones desse DNA, poderão aprender lições valiosos sobre a evolução da vida comparando as cópias das moléculas do mamute com moléculas de animais dos tempos atuais.

Outro objetivo é encontrar nas múmias egípcias fragmentos de DNA de vírus e assim estudar o seu desenvolvimento e o das doenças que provocam. Mais especificamente, os cientistas buscam fragmentos do papilomavírus nos sinais de verrugas das múmias; caso consigam clonar tais vírus, talvez possam esclarecer se na sua evolução o papiloma poderia mesmo ter vindo a causar câncer de pele, como se desconfia. Finalmente, o estudo das moléculas de múmias poderá ajudar também os antropólogos que pesquisam o Antigo Egito, esclarecendo graus de parentesco entre faraós e sacerdotes, descobrindo pelas informações genéticas quem foi quem de fato nas elites dirigentes egípcias.

Descobrir a identidade de uma múmia é sempre fascinante—e às vezes um serviço muito demorado. Até o ano passado, não se tinha conseguido definir o sexo de uma múmia, encontrada no chamado Vale dos Reis, em Luxor, no longínquo ano de 1907. Então, odontologistas americanos resolveram aplicar na múmia uma técnica que vem sendo utilizada experimentalmente em crianças pequenas, para prevenir problemas de prognatismo (dentes salientes). Trata-se de examinar as chapas de raios X por um computador que mede cada osso da face, fazendo comparações e prevendo seu crescimento. O computador apontou tantas semelhanças entre o crânio da múmia de sexo incerto e não sabido e o crânio do faraó Tutankhamon, morto aproximadamente em 1346 a.C., que os cientistas puderam finalmente resolver o enigma: era Smenkhare, meio-irmão de Tutankhamon.

Exames semelhantes foram feitos também nos Estados Unidos, com a múmia de uma jovem egípcia, que morreu em 950 a.C., chamada Tabes. Quem visita seu esquife, no Egito, fica impressionado com a beleza do seu retrato. Segundo os cientistas, Tabes queria, mas nunca teve, o rosto de traços harmônicos mostrado na pintura que, certamente, como era hábito, foi feita por encomenda quando a jovem ainda era viva. As análises revelaram que Tabes, além de ter um nariz imenso, era tão prognata, tanto na dentição inferior como na superior, que não conseguia nem fechar a boca. Esse era o segredo da múmia, disfarçado pelo retrato mentiroso.

 

 

 

A maldição era um fungo

Guiado por um xeque, o viajante inglês Richard Pococke, em 1743, foi o primeiro a chamar a atenção da Europa para uma região conhecida como Vale dos Reis, a oeste de Tebas, no Egito. Ele tinha avistado catorze dos sessenta túmulos existentes no Vale, mas não sabia que todos os faraós e nobres mortos entre 1567 e 1085 a.C. estavam ali enterrados. Na época de Pococke, era impossível explorar o local: todos os que se aproximavam eram expulsos por quadrilhas de ladrões que habitavam as colinas. Talvez a primeira grande descoberta tenha ocorrido em 1881, quando o subdiretor do Museu do Cairo, Emile Brugsch, seguindo a pista de um ladrão, encontrou num poço nada menos de 31 caixões e 24 múmias —entre elas, a do faraó Ramsés II (reinou de 1304 a 1237 a.C.).

A maioria dos túmulos havia sido saqueada por ladrões. No inicio deste século, aparentemente tudo o que restava de valor já estava exposto em museus. talvez por isso a descoberta mais empolgante tenha sido a múmia do faraó Tutankhamon (reinou de 1361 a 1352 a.C.), no dia 4 de abril de 1923. Foi a consagracão do arqueólogo inglês Howard Carter, que levou 23 anos procurando o túmulo. Mas, como Lord Carnavon, o milionário que financiara essa busca, morreu repentinamente um mês depois da descoberta, surgiu a lenda de sua maldição, mesmo porque no túmulo havia a inscrição: “A morte tocará com suas asas aquele que desrespeitar o faraó”.

Para reforçar essa crença, nos meses seguintes outros 25 membros da expedição inglesa morreram em condições misteriosas. Só há três anos, médicos franceses conseguiram explicar essas mortes: os pesquisadores que entraram na tumba do faraó respiraram um ar impregnado de fungos. Isso causou uma reação alérgica de insuficiência respiratória, que acabou matando-os por asfixia.

 

 

 

Para saber mais:

Um código ao alcance de todos

(SUPER número 1, ano 2)

 

Barca para a eternidade

(SUPER número 9, ano 2)

 

A rainha dos reis

(SUPER número 3, ano 4)