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Na terra de Dom Quixote ainda produzem espadas artesanais

Na milenar cidade de Toledo, em cujos arredores viveu o fictício herói de Cervantes, ainda se fazem espadas com a mesma técnica que os romanos teriam copiado no segundo século a.C.

Flávio Dieguez

Ninguém sabe exatamente quando começou. Há quem diga que já se faziam boas espadas na Espanha desde a Idade do Bronze, mais de 1 000 anos anos antes de Cristo. E que durante as guerras púnicas — quando os romanos começavam a erguer seu império, em terrível disputa com os cartagineses — foi aos espanhóis que acorreram para aprender melhor a técnica de fazer lâminas de ferro. Por essa época, o historiador romano Tito Lívio (59-64 a. C. –17 d. C.) admitiu que as espadas romanas não valiam grande coisa, e que as espanholas eram superiores até às dos árabes, mestres consagrados na arte.

O melhor testemunho dessa tradição milenar, porém, são os próprios moradores de Toledo. Ainda hoje, em simples oficinas de fundo de quintais grande número de artesãos fazem armas como as que seus tataravós usaram para defender a cidade . Uma tecnologia de ponta à sua época, essa técnica ficou tão bem preservada porque foi necessária à defesa da cidade. Toledo esteve cercada por inimigos diversas vezes em sua história e, embora tenha capitulado em algumas ocasiões, nunca foi invadida. Assim, durante o século V da era cristã, tornou-se a capital inexpugnável dos visigodos, povo do norte que subjugava os habitantes originais do país, os celtiberos.

Cerca de 200 anos mais tarde, Toledo estava no centro de uma poderosa linha fortificada, com a qual os árabes protegiam os territórios que haviam tomado ao resto do país. A partir de 1085, a situação inverteu-se, com a retomada da cidade pelo rei cristão Afonso VI, proclamado “rei de todos os impérios espanhóis”. Nessa época, viveu o lendário El Cid, apelido do nobre e aventureiro espanhol Rodrigo de Díaz Vivar. Amigo do rei, El Cid muitas vezes encontrou-se com ele em Toledo para tramar investidas contra os árabes, instalados mais ao sul, especialmente na cidade de Granada.

Por seus feitos nessa luta, seria posteriomente aclamado herói nacional e imortalizado pelos poemas épicos medievais sobre sua vida. Em todos esses episódios, é claro, as espadas toledanas tiveram participação crucial. Não é difícil imaginar como seria o longo assédio de um exército inimigo por volta do primeiro milênio da era cristã — quando os soldados nunca ficavam sem armas, produzidas em centenas de pequenas oficinas por milhares de habilidosos artesãos. Hoje, a única diferença é que as espadas já não servem para lutar. São vendidas aos milhares de turistas que todos os anos espantam-se com as ruas incrivelmente estreitas da cidade: sem calçadas e espremidas por paredes de pedra, dificilmente uma pessoa se arriscaria a passar por um mesmo ponto de uma rua junto com um carro.

Numa dessas ruelas, o visitante encontra a oficina de Mariano Zamorano, um espadero, herdeiro vivo da antiga técnica de fazer espadas. Atarracado, como muitos em sua terra, sem um dedo da mão direita, perdido na oficina, Zamorano não sabe dizer se é verdade que a água do Tejo dê poderes especiais às espadas toledanas, como rezam antigas lendas. Sabe, apenas, que banhar a lâmina na água do rio é parte de uma comprovada receita. “Talvez porque as substâncias dissolvidas nela se misturem ao ferro na proporção certa”, arrisca o artesão. Seja como for, a suposta magia do rio incorporou-se à técnica dos espaderos na forma de orações curtas.

Pronunciadas enquanto a lâmina era imersa na água, depois de aquecida e malhada ao rubro, as orações serviam de relógio, no passado: para dar a têmpera correta, a imersão devia durar o tempo de se recitar um verso. Um deles dizia: “Temperou-se no Tejo esta lâmina / Cujos golpes lhe fazem honra”. Ou então: “Em Toledo foi forjada / E no Tejo batizada”. Aos 40 anos, com dois filhos, um dos quais preparando-se para substituí-lo ao pé da forja, Zamorano aprendeu a arte desde os 12 anos, trabalhando com o pai. O avô, proveniente da Galícia, bem ao norte, era alfaiate, e o pai só passou a lidar com o ferro depois de mudar-se para Toledo. “Hoje em dia já nem se fazem mais espadas de ferro porque o trabalho é tremendo”, explica o espadero.

“Com o aço, comprado em barras, a lâmina fica pronta em horas. Com o ferro, pode-se demorar uma semana.” Só se entende a razão disso quando Zamorano mostra como se fazia antigamente. Apanha um retalho de ferro disforme, com menos de dois palmos, largado nas cinzas apagadas da fornalha, e explica que a partir desse retalho se constrói uma lâmina de quase 2 metros de comprimento. Ou seja, é preciso soldar muitos e muitos pedaços, o que se faz com a força do braço, somente. Primeiro, aquecendo, malhando e resfriando cada pedaço, para afiná-lo; depois malhando-se um pedaço sobre o outro, para soldá-los.

“No passado, era ainda pior, porque era preciso começar com o minério bruto.” São intermináveis horas de suor, dia após dia. A cada vez que se leva ao fogo, é preciso saber o ponto certo de aquecimento, pela cor do ferro incandescente. Alaranjado? “Não, vermelho. Tem de olhar. É mais para o vermelho.” Ou seja, o olho do homem é um analisador natural de luz — ou um espectrômetro, como diriam os físicos. Toda vez que é aquecido e malhado na bigorna, o metal ganha dureza e elasticidade por imersão na água. Depois disso, a lâmina está inteira, mas fosca e áspera: só se torna lisa e brilhante como espelho ao ser lixada com pedra.

As armas atuais não são apenas eficientes, são também bonitas, especialmente porque, no século XV, o metal passou a ser enfeitado com ouro e prata. Trata-se do damasquinado, atualmente um dos maiores atrativos das armas brancas e outros objetos artesanais de Toledo. Foi aprendido dos árabes, daí o nome — derivado de Damasco, a capital da Síria. Na realidade, esses desenhos são um dos ofícios mais antigos, dizem os estudiosos; já eram feitos no Antigo Egito. Os espanhóis Antonio Pareja e Carlos Villasante, pesquisadores da arte toledana, contam que o trabalho é feito com um buril, capaz de riscar o metal.

Pode-se, por exemplo, marcar a área de uma figura, cobrindo-a de riscos a buril. Em seguida, grudam-se finas folhas de ouro ou prata ao riscado, apertando-as sobre o desenho. O resultado é magnífico, e não é por outro motivo que as espadas toledanas tenham se tornado parte dos uniformes de gala de soldados de todo o mundo — inclusive do Brasil. O maior fornecedor de espadas de gala, atualmente, talvez seja a fábrica Bermejo, muito antiga. “Nossas maiores encomendas vêem das forças armadas americanas”, diz Juan Carlos Ojalvo, gerente da pequena empresa. Mas também somos fornecedores da Marinha brasileira.”

Hoje, os artesãos tornam-se cada vez menos numerosos. Sua técnica também enfrenta a crescente concorrência das máquinas, introduzidas para facilitar o antigo trabalho, todo manual. Mesmo assim, procura-se ao máximo preservar os artesanatos originais e a mão-de-obra tradicional. Não é pouca coisa. Em toda a província, há pelo menos 500 estabelecimentos onde trabalham quase 5 000 mestres e aprendizes. Apenas na cidade de Toledo, hoje com pouco menos de 100 000 habitantes, são setenta estabelecimentos. Não mexem só com metais. A maioria trabalha com madeira para móveis e uma infinidade de utensílios típicos.

De acordo com o último levantamento do governo espanhol, de 1988, essa categoria representa 35% dos estabelecimentos de artesãos e emprega mais de 2 000 pessoas, em toda a província. Em segundo lugar vêem os ceramistas e em seguida os especialistas em metal, que são meio milhar, no total. Além de armas, eles fabricam objetos de todo tipo, desde tesouras até portões, corrimãos, grades e outras peças. Seria uma pena se essas pessoas vierem a desaparecer, no futuro, ou que sua técnica ficasse esquecida. Elas são parte viva das muitas outras lembranças que a cidade guarda do passado.

Como as muralhas que cercam a cidade do único lado em que o Tejo não lhe dá cobertura, o norte. Iniciadas pelos romanos, no século II a.C., restam evidências apenas das paredes erguidas pelos visigodos, no século V, e dos acréscimos feitos por árabes e cristãos já na Idade Média. Outra obra monumental, que domina toda a vista da cidade, quando se chega de ônibus, é o Alcázar, misto de palácio e fortaleza ocupada desde o século VIII pelos governantes árabes. Sua grandeza só encontra rival em duas obras.

A primeira é o Palácio de San Servando, situado fora dos muros da cidade. Pode ter sido romano, mas também foi bastante reformado, ao longo dos séculos. A outra é a fantástica Catedral de Santa Maria, de origem duvidosa. Consagrada pelos visigodos, a partir de 1226 teria sido reerguida sobre as próprias paredes de uma grande mesquita muçulmana, transformando-se num dos maiores legados deixados pelos visigodos, em toda a Espanha. No entanto, assim como o tempo corrói as pedras das construções, também desfaz, aos poucos, a técnica dos artesãos. Zamorano, cuja oficina fica a menos de 100 metros da grande catedral, fornece um bom exemplo, quando abandona as espadas de ferro em favor das de aço, mais fáceis de fazer. “Não vale a pena”, diz ele.

E não é só pelo trabalho, que poderia, simplesmente, ser compensado pelo preço. Assim, uma arma de aço custa entre 10 e 20 dólares (ou de 10 a 20 URVs), conforme o tamanho e os adereços do cabo, feitos em latão e outros materiais, como o ouro. Uma de ferro custa, no mínimo, 40 dólares. Mas isso quando o fabricante não tem apego incontornável à obra e decide vender. “Eu não vendo”, teima Zamorano.

Para saber mais:

Os que vão morrer

(SUPER, número 10, ano 2)