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O mundo é uma grande Uniban

Nem vestido, nem moralismo, nem faculdade ruim. A explicação para o caso Geisy está dentro de você. Qualquer um está sujeito a se comportar de forma má. Ainda mais num mundo com adultos em extinção

Alexandre Versignassi e Maurício Horta

Calma. Este não é mais um texto para descer a lenha na “selvageria dos alunos da Uniban” nem outra defesa de que todo mundo pode usar a roupa que quiser. Aqui, o vestido é o de menos. E a selvageria não é exclusividade daqueles estudantes. Ela está em você também.

Para boa parte de quem estuda a psicologia das sociedades, a violência imposta a Geisy não só faz parte da natureza humana como nem precisa de grandes estímulos para dar as caras. Basta não haver uma pressão contra a violência que ela surge.

A ciência começou a levar isso a sério com os experimentos do psicólogo americano Philip Zimbardo. Em 1968 ele transformou os porões do Departamento de Psicologia da Universidade Stanford num presídio simulado. Chamou 18 estudantes e, em troca de um pagamento que daria US$ 75 em valores atuais, pediu para que eles ficassem duas semanas ali. Metade faria o papel de guardas e os outros o de prisioneiros. Estes tinham a obrigação de obedecer a todas as ordens dos policiais, sob pena de serem banidos do experimento e deixar de ganhar o dinheiro. De cara, os guardas se aproveitaram dessa posição superior. Passaram a se comportar como sádicos – gritando na orelha dos prisioneiros, borrifando extintores de incêndio na cara deles, obrigando-os a lavar privadas com as mãos… Os prisioneiros começaram a surtar. E Zimbardo teve que interromper o experimento uma semana antes do previsto.

Para o psicólogo, tivesse a moeda dado mais meia volta e os estudantes ficado em situações opostas, quem assumisse o papel de guarda se comportaria do mesmo jeito. O que explicava o sadismo dos sujeitos, então, era o ambiente. Um ambiente que trazia 3 condições básicas que levam ao mal. E que estavam presentes na Uniban também. As seguintes:

1) Desumanização da vítima.

Em Stanford, os prisioneiros não tinham nome. Eram só números. Os guardas não os viam como gente, mas como coisas. É o que acontece quando o terror se instaura na vida real. No genocídio de Ruanda, hútus matavam tútsis ao som de programas de rádio que chamavam o inimigo de baratas. No nazismo, a propaganda estatal retratava os judeus como ratos em pôsteres e filmes. Numa escala bem menor, calouros são chamados de “bichos” em universidades paulistas. E às vezes acabam mortos. No dia a dia, usamos o zoológico inteiro: vaca, piranha, galinha, pato, macaco, porco. O caso da Uniban começou com uma coisificação nessa linha. E numa escala menor ainda: um grupo de homens ficou atiçando outros homens para ir até uma das salas de aula ver uma “gostosa quase pelada”. Não era mais Geisy, mas uma figura desumanizada, quase um objeto de consumo. Para o socialmente aceito “gostosa” descer até “vaca” e “puta” foi um pulo, porque nos corredores da Uniban havia outra condição amigável ao mal: nosso segundo item.

2) Justificativa moral.

Quando agredir alguém parece a atitude correta, nem faz sentido ser bonzinho. George W. Bush usou o termo “guerra contra o terror” para que a invasão ao Iraque parecesse justa. Geisy não derrubou um World Trade Center, mas cutucou uma onça da psicologia social com vara curta. Outras meninas da faculdade estavam dispostas a punir a loira por um motivo concreto: seu comportamento exibicionista. Em um dos vídeos que foram para o YouTube, por exemplo, uma menina diz: “Olha, ela tá chorando.” E outra: “Ah, dane-se!” Em entrevistas depois do caso, várias alunas mantiveram a convicção de que quem errou foi Geisy. Faz sentido. Reações contra o narcisismo acontecem em qualquer ambiente, mesmo quando não há vestido curto nem atributos físicos na história. Quem suporta alguém que fica o tempo todo se vangloriando da própria inteligência, por exemplo? Ali era basicamente a mesma coisa, só que com o corpo. Para os homens, uma mulher que vai com “roupa de festa” para a faculdade não é um problema. Muito pelo contrário. Mas a raiva de algumas meninas contra a vulgaridade da colega era a grande justificativa moral para a baderna. Baderna que só cresceu e se multplicou porque outro ingrediente para a maldade estava lá. O…

3) Efeito manada.

Se todo mundo pular pela janela, você pula. Se todo mundo jogar pedra na Geni é a mesma coisa. Principalmente se você for homem e esse comportamento agradar a outras mulheres – no caso, as colegas incomodadas com o exibicionismo da moça. Se o ambiente for uma terra sem lei, isso acontece mais ainda. É o caso das escolas. Muitas crianças são hostilizadas durante anos por colegas sem que os professores movam uma palha. A pressão contra a violência moral é pífia – e inversamente proporcional o prazer que ela dá aos agressores.

E aí entramos no maior problema do caso Geisy: até outro dia as universidades eram lugares distantes desse mundo hostil que faz parte da infância e da adolescência. Agora é diferente. Com pessoas tendo filhos cada vez mais tarde e demorando mais para sair da casa dos pais, a vida adulta propriamente dita demora cada vez mais para começar. Para o bem e para o mal. E não só na Uniban.