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Terapia: como escolher a sua

Existem centenas de abordagens, e cada uma tem princípios e objetivos diferentes. Entenda qual o melhor caminho em prol da saúde mental.

Por Maria Clara Rossini 21 ago 2026, 10h00
Terapia: como escolher a sua Priorizar nos meus resultados Google

Bertha Pappenheim foi uma das primeiras pessoas da História a fazer terapia. Ela passava dias em silêncio ou sem conseguir falar em alemão, sua língua materna. Tinha dormência em um dos braços e ficava dias sem comer ou beber água. Para piorar, sofria de fortes variações de humor e amnésia.

Entre 1880 e 1882, Pappenheim se sentou junto ao médico Josef Breuer esforçando-se para lembrar quando seus sintomas haviam evoluído e quais acontecimentos e emoções estavam relacionados a eles. As sessões de conversa entre os dois podiam durar minutos ou horas, um processo que a mulher apelidou de “cura pela fala” e de “limpeza de chaminé”. Para ela, era como se estivesse tirando o pó da mente, trazendo alívio para seus sintomas.

Breuer compartilhava suas experiências clínicas com um amigo interessado, Sigmund Freud. A dupla detalhou o caso de Pappenheim no livro Estudos sobre a Histeria, publicado em 1895. A mulher aparece sob o pseudônimo de Anna O. e é, até hoje, uma das pacientes mais lembradas do início da psicanálise.

Por muito tempo, a psicologia foi considerada um braço da filosofia. Esse campo de estudo iniciou o processo de independência em 1879, quando o alemão Wilhelm Wundt fundou o primeiro laboratório dedicado à psicologia experimental. No final do século 19, diversos pesquisadores contribuíram para experimentos sobre inteligência, memória, condicionamento comportamental, entre outros temas que formaram a base da psicologia moderna.

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Mas esses estudos tinham pouco a ver com a prática clínica que Freud e Breuer estavam desenvolvendo em paralelo. Eles foram os pioneiros no que chamamos de psicoterapia moderna, ou simplesmente de terapia: a ideia de que seria possível melhorar o estado mental do paciente por meio de sessões de conversas regulares com um profissional. No início do século 20, Freud desenvolveu suas teorias sobre a mente e criou a psicanálise.

Se hoje é comum escutar que devemos “tratar na terapia”, há 100 anos esse era um conceito alienígena para a maioria das pessoas. Muita coisa mudou nesse período: as psicoterapias se tornaram parte essencial dos cursos de psicologia, e a psicanálise deixou de ser a única lente teórica usada nos consultórios.

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Ao longo de sua formação, cada psicoterapeuta escolhe uma abordagem que irá guiar sua prática profissional. Trata-se de diferentes maneiras de interpretar o ser humano, o funcionamento da mente e o sofrimento psíquico. Uma abordagem pode focar mais os padrões de pensamento do paciente, por exemplo, enquanto outra pode levar mais em conta seu contexto social.

A partir dessa interpretação, o psicólogo aplica técnicas e provoca reflexões no paciente. É por isso que as terapias não são todas iguais, e a experiência pode variar bastante dependendo da abordagem praticada pelo profissional.

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Hoje, existem centenas de abordagens terapêuticas, de forma que seria impossível listar todas elas. Não há uma classificação oficial, mas as abordagens mais populares costumam ser alocadas em quatro grupos, para fins didáticos: psicodinâmicas; cognitivas e comportamentais; humanistas e existenciais; e sistêmicas [leia sobre cada uma delas nos boxes ao longo do texto].

Como escolher em meio a tantas opções? E mais do que isso: como saber se eu preciso de terapia? Não há uma resposta única. Mas entender a história e os objetivos por trás das abordagens pode ajudar a navegar por esse universo.

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Uma máquina de costura branca com carretel azul, tesoura verde, fita métrica rosa, alfineteiro de abóbora, carretéis de linha coloridos e botões espalhados sobre um tecido xadrez verde claro, com estrelas verdes ao redor.
(Laís Zanocco/Estúdio Drama/Superinteressante)

Os transtornos

As psicoterapias nasceram num contexto de tratamento de sintomas, como ocorreu com Pap- penheim. Mas, se antes os problemas de saúde mental eram tidos como casos excepcionais, o avanço das pesquisas no tema permitiu organizá-los em categorias e ampliar a compreensão sobre o sofrimento mental.

Segundo um estudo publicado no periódico The Lancet Psychiatry (1), metade da população mundial corre risco de desenvolver pelo menos um de 13 transtornos mentais até os 75 anos. A análise, que levou em conta mais de 150 mil pessoas de 29 países, aponta depressão e abuso de álcool como os principais problemas entre os homens, enquanto depressão e fobias específicas são os que mais afetam as mulheres.

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Esses são transtornos tirados do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o DSM, referência mundial no diagnóstico de condições mentais. Ele lista os critérios necessários para enquadrar uma pessoa com TDAH, depressão, ansiedade social, bipolaridade, borderline, TEPT… existem mais de 300 transtornos detalhados no livro.

O manual foi criado em 1952 pela Associação Psiquiátrica Americana e está em sua quinta edição (DSM-5-TR). Houve revisões importantes, como a exclusão da homossexualidade como transtorno, em 1973; e a inclusão do Transtorno do Espectro Autista (TEA), em 2013, que uniu diferentes diagnósticos num só.

Só que essas mudanças também evidenciam um problema fundamental da área: a subjetividade dos critérios diagnósticos. Não existe um único exame de sangue, de imagem ou genético capaz de diagnosticar qualquer transtorno mental. Todos dependem da avaliação conduzida pelo profissional de saúde. Os critérios listados no DSM são, em grande parte, elaborados por um painel de especialistas com base na observação clínica e fatores em comum entre pacientes.

“Como se define que tal quantidade de ansiedade e depressão não é boa? […] Até para um profissional de saúde mental experiente, traçar essa régua pode ser difícil, porque é muito subjetiva”, diz Flávia Albuquerque, psicóloga especializada na abordagem histórico-cultural.

Ou seja: não há uma chavinha no cérebro que liga ou desliga um transtorno. Eles são um conjunto de sintomas que causam prejuízo e sofrimento à vida da pessoa. Esses sintomas, por sua vez, são influenciados por fatores genéticos, psicológicos e ambientais. Qual seria o peso de cada um desses fatores? É a pergunta do milhão.

Ou do bilhão. Boa parte do orçamento anual de US$ 2,3 bilhões do Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA é destinada a pesquisas que buscam por marcadores biológicos de transtornos mentais – genes, moléculas, padrões de atividade cerebral etc. Por enquanto, só foram encontradas correlações, sem causas determinantes para os transtornos. Os críticos apontam que esse investimento não foi revertido em uma melhora real na vida dos pacientes, e que deveria ser dedicado a outras linhas de pesquisa.

Apesar da dificuldade nas pesquisas, é bem possível que os transtornos tenham algum componente biológico, o que explicaria por que pessoas de diferentes culturas apresentam sintomas semelhantes em alguns casos. “No Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), dois dos tipos de sintomas mais frequentes são o medo de contaminação e os rituais de limpeza. E eles são iguaizinhos no Brasil e na Índia, mesmo com as diferenças de hábitos alimentares e de higiene”, diz Roseli Shavitt, psiquiatra da USP e especialista em TOC que conduz pesquisas em parceria com o país asiático. Para ela, o DSM é um terreno comum para se comunicar com pesquisadores internacionalmente.

Infográfico sobre Abordagens Psicodinâmicas. À esquerda, texto descreve as abordagens e lista exemplos. À direita, ilustração de uma mão costurando um remendo em uma peça de roupa, com carretéis de linha, agulhas e alfinetes espalhados, simbolizando o trabalho de reparação e cuidado. O fundo é rosa claro com linhas finas quadriculadas.
(Laís Zanocco/Estúdio Drama/Superinteressante)

Apesar das limitações do manual, ele é referência em estudos de eficácia e na prática clínica. “Quando as pesquisas mostram que um remédio funciona bem em um quadro depressivo mas é péssimo para um quadro bipolar, são as descrições do DSM que se leva em consideração”, diz Felipe Corchs, psiquiatra e terapeuta da USP que utiliza abordagens comportamentais contextuais – e que também reconhece as limitações do manual. “Quando atuo como terapeuta, eu considero pouco o DSM. Para dar remédio, eu considero bastante, mas não exclusivamente”, diz ele.

Dependendo do quadro, às vezes recomenda-se uma combinação de medicamentos e psicoterapia. Às vezes, só a terapia é suficiente. O importante é que nem os remédios nem as psicoterapias podem esperar pela “cura” de um transtorno. Não há um vírus ou câncer a ser eliminado. Mesmo assim, eles podem amenizar bastante os sintomas e contribuir para o bem-estar do paciente. Esse é o principal foco das pesquisas que avaliam a eficácia das psicoterapias.

Sob o microscópio

Nas décadas seguintes ao início da psicanálise de Freud, surgiram questionamentos sobre a validade científica de suas teorias. No início do século 20, ainda não existia uma metodologia científica consolidada, então muitas conclusões partiam apenas da observação clínica. Aos poucos, as discordâncias com o pai da psicanálise levaram ao surgimento de outras abordagens – como a Psicologia Analítica de Carl Jung, que havia sido discípulo de Freud.

Outro nome importante nesse processo é Aaron Beck. Nos anos 1960, esse psiquiatra (e então psicanalista) sentiu a necessidade de trazer uma prática com base científica mais sólida para o consultório. Ele tentou provar experimentalmente uma tese psicanalítica: a de que a depressão do paciente seria uma “hostilidade voltada para si”. Mas Beck não encontrou a confirmação esperada. Ao mesmo tempo, ele observou que pacientes deprimidos relatavam pensamentos negativos sobre si mesmos e o mundo, algo que chamou de “pensamentos automáticos”. Essa se tornaria a base de sua Terapia Cognitiva.

Em paralelo, havia pesquisas de condicionamento de comportamento sendo realizadas principalmente em escolas e hospitais: técnicas para fazer o aluno prestar atenção na aula e fazer a tarefa, ou para um paciente psiquiátrico tomar banho e escovar os dentes. As correntes iniciais do behaviorismo (do inglês behavior, “comportamento”) focavam apenas a mudança de comportamento, deixando de lado a subjetividade humana.

“Ninguém estava discutindo as questões existenciais, sentimentos, pensamentos, qualidade de vida e autoconhecimento desses alunos e pacientes”, diz Jan Luiz Leonardi, diretor do Instituto de Psicologia Baseada em Evidências e psicólogo especializado em abordagens comportamentais contextuais. “Não tinha nada a ver com o que a gente chama de psicoterapia hoje.”

Foi a fusão da linhagem cognitiva com a comportamental que deu origem à Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), uma das abordagens mais influentes da psicologia hoje em dia. Nesse modelo, emoções, pensamentos e comportamentos se influenciam mutuamente. Por ter nascido com o intuito de ser uma abordagem científica, a TCC e suas derivações são as mais pesquisadas de todas, com maior volume de artigos publicados.

Infográfico sobre Abordagens Cognitivas e Comportamentais. À esquerda, texto descreve que focam a relação entre pensamentos, emoções e comportamento, buscando identificar e trabalhar pensamentos automáticos, crenças intermediárias e centrais. Exemplos incluem Terapia Cognitivo-Comportamental e Terapia do Esquema. À direita, ilustração de uma máquina de costura costurando calças cor-de-rosa com estrelas laranja, simbolizando a construção de novas perspectivas.
(Laís Zanocco/Estúdio Drama/Superinteressante)

A metodologia considerada “padrão-ouro” para avaliar se uma psicoterapia está funcionando são os ensaios clínicos randomizados e controlados. Esse é um modelo emprestado da farmacologia, geralmente usado para testar medicamentos e vacinas.

Para começar, você deve reunir voluntários que apresentem o mesmo problema – sintomas de uma depressão grave, por exemplo. Metade deles recebe o tratamento avaliado – como sessões de psicoterapia TCC – e a outra metade recebe outra intervenção – pílulas que fingem ser antidepressivos, ou conversas com um psicólogo “fake”, que irá apenas ouvir o paciente, sem aplicar técnicas. Também é possível comparar diferentes abordagens psicoterápicas entre os grupos.

Ao final do processo, avalia-se quantas pessoas de fato atingiram o objetivo proposto pelo tratamento. No caso da depressão, os pacientes podem passar por um teste de escala que avalia os sintomas; no caso de pessoas com borderline, essa métrica pode ser uma menor incidência de autolesão (uma característica comum desse transtorno). Tudo depende do objetivo e da maneira como o estudo foi desenhado.

Essa é uma explicação simples do que seria um ensaio clínico ideal. O problema é que existem muitos possíveis erros em todas as etapas do processo que comprometem a confiabilidade dos estudos. Como garantir a homogeneidade das sessões de terapia? Como saber se o resultado é fruto direto de uma técnica terapêutica específica? E como ter certeza de que as métricas realmente refletem o sofrimento psíquico do paciente?

Existe um problema inerente aos ensaios clínicos que se sobressai: a dificuldade de fazer um ensaio duplo-cego. Em testes de vacinas, por exemplo, nem o voluntário nem a pessoa que está aplicando o imunizante pode saber se aquela é a substância real ou o placebo. Essa informação só é dita aos pesquisadores após os testes. Caso saibam antes, a reação do profissional pode revelar o resultado, influenciando a maneira como o paciente se comporta.

Só que esse método é quase impossível nos ensaios clínicos de psicoterapias. O terapeuta sabe que está aplicando determinadas técnicas para o alívio de sintomas do paciente. Isso introduz um viés à pesquisa: o psicólogo pode aplicar bem ou mal as técnicas, o que influencia diretamente o resultado com o paciente.

Um estudo que comparou 3.782 ensaios clínicos randomizados de psicoterapias e farmacoterapias revelou que o risco de viés deles era geralmente alto, sobretudo nos psicoterápicos (2). “Os estudos trazem informações úteis e interessantes, mas a gente tem que ter um olhar crítico e saber que elas não são uma verdade absoluta”, diz Corchs, que já conduziu ensaios clínicos de psicoterapias.

Dito isso, as pesquisas desenvolvidas nos últimos 60 anos de fato contribuíram para o desenvolvimento e a validação de terapias para o tratamento de transtornos. Hoje existem evidências robustas de que a TCC reduz os sintomas de depressão (3); para o TOC, a TCC combinada à técnica de Exposição e Prevenção de Ritual é a mais recomendada; para esquizofrenia, intervenções familiares com psicoeducação são indicadas para dar apoio ao paciente e aos familiares.

As pesquisas também são importantes quanto à saúde pública, pois ajudam a estabelecer prioridades de investimento. “A gente tem que entender o que é mais seguro e tem o maior custo-benefício entre as intervenções”, diz Tamara Melnik, professora do departamento de Saúde Baseada em Evidências da Unifesp e colaboradora da Cochrane Brasil, uma organização que produz revisões sistemáticas com o objetivo de embasar diretrizes em saúde. 

Um caso emblemático de integração de pesquisas nas psicoterapias é o da Terapia Comportamental Dialética, desenvolvida na década de 1980 para o tratamento de Transtorno de Personalidade Borderline (caracterizado, entre outras coisas, pela impulsividade, intensidade de emoções e pelo medo do abandono). Essa terapia integra princípios da dialética (confronto de ideias) e da filosofia oriental para aceitação de sentimentos e redução de comportamentos de autolesão. Hoje ela é uma das mais indicadas para borderline, e também apresenta resultados para ansiedade generalizada, transtorno de estresse pós-traumático, entre outros.

Infográfico com título Para cada transtorno, uma terapia e texto sobre abordagens psicoterapêuticas. Seis caixas listam transtornos e suas terapias: Obsessivo-Compulsivo (TOC), Fobias Específicas, Ansiedade Generalizada (TAG), Depressivo Maior, Personalidade Borderline (TPB), Personalidade Bipolar e Estresse Pós-Traumático (TEPT)
(Caroline Aranha/Superinteressante)

As técnicas valem até para quem não tem um transtorno diagnosticado mas apresenta problemas que se relacionam com algum tipo. “Imagina que você me descreve um déficit de atenção importante. Do ponto de vista terapêutico, as técnicas que eu vou aplicar podem ser as mesmas para alguém que tenha TDAH – mesmo que você não tenha esse transtorno”, diz Jan Luiz Leonardi. “Eu vou te ajudar com planejamento, organização, controle de agenda, entre outros.”

As abordagens psicodinâmicas – aquelas que compartilham dos princípios da psicanálise, como a existência de um inconsciente – demoraram um pouco mais para produzir pesquisas nesses moldes. Mas hoje elas também são estudadas para avaliar sua eficácia no alívio de sintomas. As mais estudadas são as terapias psicodinâmicas breves e as estruturadas, como a Psicoterapia Focada na Transferência (PFT) e a Terapia Baseada em Mentalização (TBM). Ambas apresentaram eficácia para o tratamento de borderline, por exemplo (4).

Essas terapias partem de conceitos comuns à psicanálise (como a mentalização e a transferência), mas são conduzidas de forma mais estruturada e curta do que a psicanálise tradicional, focando aspectos específicos do paciente. Isso facilita tanto a condução de estudos clínicos quanto sua possível aplicação em serviços públicos.

“Os estudos fazem homogeneização da técnica […] Mas, na prática clínica, eu preciso levar em conta outras evidências, como a narrativa e a experiência do paciente”, diz Rogério Lerner, psicanalista e professor associado do Instituto de Psicologia da USP.

Numa sessão de terapia, o psicólogo não deve fazer um “copia e cola” das técnicas avaliadas nos estudos. Elas devem ser levadas em consideração, claro, mas são apenas um dos pés do chamado “tripé da Psicologia Baseada em Evidências”, preconizada pela Associação Psicológica Americana e outras instituições internacionais . Os demais pilares são a expertise do profissional, que deve saber fazer a avaliação e aplicar as técnicas; e as características do paciente, como sua cultura e preferências próprias.

Além do diagnóstico

As abordagens psicodinâmicas e as cognitivas e comportamentais tendem a ser as mais comuns dentro dos consultórios, seja pela tradição histórica ou pela robustez de evidências. Mas elas estão longe de ser as únicas. Nos anos 1940 e 1950, alguns psicoterapeutas passaram a questionar as estruturas tanto da psicanálise quanto do behaviorismo. Surgiu, então, uma nova leva de abordagens que se apresenta como “terceira força”, cujos enfoques hoje podem ser enquadrados como humanistas e existenciais.

“A psicanálise nasce no hospital psiquiátrico. As comportamentais nascem em laboratório com estudos de animais. As psicologias humanistas da terceira força vão rejeitar a ideia do animal sofisticado e do ser humano doente”, diz Paulo Evangelista, professor da UFMG e psicólogo que trabalha com abordagem existencial. “A gente precisa entender como é o melhor do ser humano. Nesse sentido, é uma abordagem mais positiva, que vai trabalhar em cima da liberdade humana.”

Infográfico sobre Abordagens Humanistas e Existenciais, com texto descrevendo-as como terceira força na psicologia, focando no indivíduo e sua visão de mundo. Exemplos incluem Gestalt-terapia e Logoterapia. À direita, ilustração de uma camiseta azul com manchas de tinta rosa e laranja, estrelas verdes, e tubos de tinta derramando cores, simbolizando criatividade e expressão.
(Laís Zanocco/Estúdio Drama/Superinteressante)

Esses enfoques não se propõem a tratar transtornos ou sintomas específicos. Eles vão se concentrar mais em aspectos como a visão de mundo do indivíduo e a influência de seu contexto. Exemplo: em vez de buscar a eliminação da ansiedade, um psicólogo humanista pode se preocupar mais em entender como o paciente encara a própria ansiedade e quais significados atribui a ela.

Esse é um dos motivos pelos quais não há tantos ensaios clínicos envolvendo abordagens humanistas e existenciais. Segundo Evangelista, os próprios profissionais da área têm um pé atrás com a metodologia dos ensaios, por não acreditarem que a psicoterapia seja comparável a um remédio.

Isso não significa que as abordagens humanistas e existenciais não tenham contribuído para a ciência. Carl Rogers, criador da Terapia Centrada na Pessoa e um dos grandes nomes da área, deu muita ênfase à relação terapêutica entre psicólogo e paciente, evidenciando a empatia e a aceitação incondicional.

As ideias de Rogers foram absorvidas por todas as abordagens psicológicas. Hoje, sabemos que uma boa relação terapêutica é o principal fator comum relacionado à melhora do paciente. O acolhimento, a escuta ativa (e sem julgamentos) e a colaboração entre os envolvidos devem fazer parte de toda terapia, independentemente da abordagem.

Há uma discussão grande sobre o peso que as técnicas específicas de cada abordagem e os fatores comuns a todas têm na melhora do paciente. Esse é o chamado “veredito do pássaro Dodô”, inspirado em uma passagem do livro Alice no País das Maravilhas: ao explicar as regras de uma corrida, o pássaro diz que não importa quem chega primeiro; todos ganham medalhas.

Essa é uma maneira de dizer que todas as abordagens terapêuticas promoveriam a melhora do paciente e seriam igualmente eficazes devido aos fatores comuns – independentemente da linha teórica ou filosófica usada. Embora esses fatores sejam essenciais, colocar todos os créditos neles desconsidera a história de cada abordagem, os desenvolvimentos teóricos e pesquisas feitas nas últimas décadas. Os estudos disponíveis sugerem que os fatores comuns e os específicos são complementares (6).

Por outro lado, as abordagens também não precisam ser excludentes entre si. Elas se influenciaram mutuamente ao longo da História – e, em alguns casos, podem usar técnicas emprestadas de outras.

“As abordagens sistêmicas, por exemplo, têm um próprio arcabouço teórico, mas também costumam dialogar muito bem com a psicanálise, as cognitivas e comportamentais, e as humanistas. Ela têm uma versatilidade por beber de diferentes fontes”, diz Gustavo Gomes, docente da PUC-RS e psicólogo de abordagem Familiar Sistêmica.

Ilustração de quatro mãos, duas verdes e duas rosadas, tricotando um meião verde com flores brancas. Ao lado, um texto sobre Abordagens Sistêmicas, explicando que são influenciadas pela Cibernética e Teoria Geral dos Sistemas, focando no indivíduo como parte de uma rede de relações, e exemplos como Terapia Familiar Sistêmica.
(Laís Zanocco/Estúdio Drama/Superinteressante)

Entre os grupos citados aqui, as abordagens sistêmicas são provavelmente as menos estudadas nas faculdades de psicologia. Elas nasceram na década de 1950, nos EUA, e foram influenciadas pela Cibernética e pela Teoria Geral dos Sistemas – que trata os objetos de estudo como parte de uma rede de conexões, e não de maneira individual.

Em vez de olhar para a psique de um único indivíduo, essas abordagens se concentram nele a partir de suas relações. É comum que essas terapias sejam feitas com mais de uma pessoa, como em casal ou em família. Muitas vezes as sistêmicas são feitas como uma “segunda” terapia, em paralelo ao processo psicoterápico individual.

A integração de conceitos entre as psicoterapias tem se tornado mais frequente nas últimas décadas, especialmente a partir de 1990. Exemplo disso são as Terapias Comportamentais Contextuais, integrantes da “terceira onda” das terapias comportamentais, após o behaviorismo clássico e a TCC. A Terapia Comportamental Dialética (DBT), mencionada anteriormente, é um exemplo de terapia de terceira onda. A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) também entra nesse rol.“A subjetividade humana é incorporada à ideia de que nossa cultura ocidental não aceita o sofrimento e desconhece os valores da vida. E que talvez o caminho seja aceitá-lo e entender seus valores”, diz Felipe Corchs.

Apesar de geralmente serem alocadas sob o “guarda-chuva” das terapias comportamentais, elas tratam de questões humanas profundas que tradicionalmente eram mais associadas às psicodinâmicas e humanistas. “Muitas dessas terapias abrem as portas para incorporar outras visões de mundo, sejam outras filosofias ou outras formas de terapia, como a psicanálise que acaba sendo incorporada na Psicoterapia Analítica Funcional (FAP), que é uma comportamental contextual”, diz Corchs.

É pra mim?

As abordagens descritas nesta reportagem são apenas algumas entre centenas. Muitas delas nem sequer se enquadram em um dos quatro grupos citados, pois recebem influência de diferentes correntes filosóficas, autores e teorias. São caminhos distintos para atingir um destino comum: promover saúde mental.

Mas como saber se é preciso pegar a estrada da terapia?

Um movimento que ganha força entre parte dos psicólogos é o da despatologização: a ideia de que não deveríamos tratar a saúde mental pela lente dos transtornos contidos no DSM. Com a quantidade de informação disseminada nas redes sociais e em ferramentas de IA, é fácil se identificar com algum deles e se colocar em uma caixinha, o que pode atrasar a procura por ajuda formal.

“Atualmente, parece que um sofrimento ou uma questão só vai ser legítimo se tiver um diagnóstico psiquiátrico”, diz Flávia Albuquerque, que divulga suas ideias no perfil @despatologiza, no Instagram. “Independentemente de ser patológico ou não, esse sofrimento merece ser cuidado.”

Nem todas as pessoas que sentem a necessidade de fazer terapia têm algum transtorno. E tudo bem. Angústias existenciais, dúvidas nos relacionamentos, inconformidade com o mundo, desejo de autodescoberta, dificuldade em estabelecer uma rotina… Todos esses são motivos válidos para procurar ajuda profissional.

Ilustração de uma jaqueta verde, blusa azul com estampa laranja, calça rosa e meias verdes com flores, sobre um fundo quadriculado azul. Ao redor, tesoura, agulhas de tricô e novelo de lã laranja, representando costura e moda.
Não existe uma única terapia que serve para todo mundo. A abordagem ideal é aquela que condiz com seus objetivos e com seu momento de vida. (Laís Zanocco/Estúdio Drama/Superinteressante)

Seja qual for a abordagem, é importante verificar se o psicoterapeuta tem registro no Conselho Federal de Psicologia (CFP). A palavra “terapia” não é de uso exclusivo dos psicólogos, então é fácil cair nas salas de terapeutas que não têm formação na área. Isso vai desde coaches despreparados para lidar com a complexidade das questões psíquicas até práticas perigosas e não reconhecidas pelo CFP, como constelação familiar.

Quem toma medicamentos para depressão ou ansiedade sabe que não existe um remédio que funcione para todos os pacientes. Da mesma forma, a psicologia também não tem tamanho único. A abordagem mais indicada para determinado quadro ou sintoma pode não ser a melhor para todos os pacientes. Tenha flexibilidade para trocar de profissional se for necessário.

A terapia ideal é aquela com a qual você se identifica. E mesmo essa identificação pode variar de acordo com seus objetivos e com a fase em que você se encontra. A vida não é estática, e sua mente também não precisa ser.

Fontes (1) artigo “Age of onset and cumulative risk of mental disorders”; (2) artigo “The efficacy of psychotherapies and pharmacotherapies for mental disorders in adults: an umbrella review and meta‐analytic evaluation of recent meta‐analyses”; (3) artigo “Cognitive behavior therapy vs. control conditions, other psychotherapies, pharmacotherapies and combined treatment for depression: a comprehensive meta-analysis including 409 trials with 52,702 patients”; (4) artigos “8-year follow-up of patients treated for borderline personality disorder: mentalization-based treatment versus treatment as usual” e “Transference-focused psychotherapy v. treatment by community psychotherapists for borderline personality disorder: randomised controlled trial”; (5) APA Guidelines on Evidence-Based Psychological Practice in Health Care; (6) artigo “The efficacy of non-directive supportive therapy for adult depression: A meta-analysis

Referência livro Despatologiza: a vida que não cabe no diagnóstico psiquiátrico. Agradecimentos Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria; Vinicios Moreno, psicólogo clínico.

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