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Afinal, qual é a da gíria?

Cássio Schubsky

Quase todo dia você esbarra em gírias novas. Elas se propagam com uma velocidade incrível. Eletrizam tudo o que é conversa. E todos ficam ligados nesse novo jeito de falar. Palavras cansadas, jogadas para escanteio, ressurgem como um furacão. Os Mamonas Assassinas estão aí para comprovar. Mesmo destruindo as mais elementares regras da língua portuguesa, com letras que beiram o mau gosto, eles arrebentam a boca do balão com o seu festival de “mina”, “galera” e “chuchuzinho”. Não satisfeitos, dão uma rasteira no inglês, traduzindo trabalhar por “workár”; e “arrombam” o coração da moçada. Como se fosse a maior festa da Jovem Guarda, mora?

Verbos antigos aparecem disfarçados no cardápio das gírias “da hora”: viajar é “viajar na maionese”; delirar vira “delirar na goiabada” e pirar se torna “pirar na batatinha”. Até “chutar o pau da barraca” não é mais o mesmo. Sim, o bispo Sérgio von Helde, da Igreja do Reino de Deus, meteu o pé na estátua de Nossa Senhora Aparecida e criou outra expressão. O pontapé aconteceu em 12 de outubro do ano passado e foi transmitido pela televisão para todo o país. Bastou para acertar em cheio a vontade popular de reciclar, sempre, aquele vocabulário que tudo diz sem gastar muita saliva – a gíria. E agora, em vez de dizer “chutar o pau da barraca”, diz-se apenas “chutar a santa”. Significado: “mandar tudo às favas”.

Talvez você já tenha escutado alguém usar, no papo, o termo “almôndega”. Talvez não tenha ouvido palavra mais gorda na vida. Saiba então que “almôndega” emplacou há cerca de dois anos, nas danceterias de São Paulo, para descrever a moçada que se apertava nas pistas para dançar. Pois hoje a gíria sumiu, ninguém mais sabe, nem mais viu. Mas como é que essas expressões surgem, se espalham, viram linguagem comum, somem e ressurgem das cinzas? Para saber qual é o babado, vire a página.

Linguagem cifrada de grupos restritos

Explicar a palavra gíria já é a maior “mão-de-obra”. Ela é sinônimo de geringonça, que se origina do espanhol jerigonza, ou ainda, jerga. Etimologistas acreditam que, por onomatopéia, jerga tenha nascido do verbo latino garrire, ou seja, tagarelar. Mas Deonísio da Silva, professor de Literatura Brasileira da Universidade de São Carlos, lembra outra hipótese: a origem remota estaria no vocábulo grego hierós, que define o que é sagrado, oculto. E destaca a sua característica de linguagem cifrada, compreendida apenas pelos que pertencem à mesma tribo.

Pois toda gíria que se preze vem direto de grupos restritos – dos presos, malandros, surfistas, estudantes e assim por diante. Repara só no que rola dentro de uma prisão. Atrás das grades, os presos não estão assim tão isolados. Eles cruzam muita gente, do carcereiro ao advogado, do médico ao jornalista. A bandidagem bola expressões que ficam de molho, servem de código exclusivo. Até que vem alguém de fora, capta o espírito da coisa e sai dedurando a nova gíria (veja o infográfico ao lado). A prosa alcança os meios de comunicação, que botam a boca no trombone. Depois, a novidade vira conversa de comadre. Então, das três uma: ou a gíria é assimilada pela língua oficial e acaba no dicionário; ou vira lero-lero de poucos, ou todo mundo desencana e esquece. Conclusão: o pessoal que está em cana tem de criar outra conversa para disfarçar. E a ladainha começa de novo.

Se quem inventa o palavrório é estudante, dá na mesma: o mano percebe, o professor entende e os velhos se ligam. Pode até demorar para “cair a ficha”, mas não tem erro, alguém acaba assimilando. E vira mensageiro da boa nova, vagando e divulgando. E até a televisão, em novela ou publicidade, ataca de inventora, criando as suas expressões. Ou alguém por aí já se esqueceu do “não é nenhuma Brastemp?”

O idioma renovado com malícia

No país do “seu” doutor, do bacharel, a gíria, tadinha, carrega a pecha de ser a própria encarnação da baixaria. Filha bastarda da língua, irmã gêmea do palavrão, a desgraçada já foi tachada de tudo o que é nome feio. Não é para menos. “A linguagem é um organismo social tradicional. E boa parte da gíria promove a modificação do significado das palavras”, esclarece Dino Preti, professor titular aposentado de Lingüística da Universidade de São Paulo e especialista em gíria.

Pena que muito bam-bam-bam não veja que a danada da gíria tem o seu quê de poesia. Aí do lado, na página, você vai encontrar um papo apinhado de malícia, de cadência, enfim, de manha. Bata um olho no original extraído do jornal carioca Correio da Manhã, de 5 de abril de 1959, e outro na tradução assinada pelo professor Preti. É o depoimento de um malandro, na sessão do Tribunal do Júri. E diga a verdade: qual tem mais tchã? Embaixo, um bocado de casos mostra que, na origem da linguagem, existe sempre uma boa dose de criatividade. A gíria tem ginga. É saber com sabor.

O importante é não dar uma de gostoso e acreditar no preconceito de que gíria seja falta de instrução. “Nós não devemos passar a idéia de que a gíria é uma linguagem pobre, empobrecedora. Ela tem um papel de renovação da língua”, diz à SUPER Carlos Eduardo Uchôa, professor titular de Lingüística da Universidade Federal Fluminense. Palavra de papa da palavra.

Para saber mais

A Gíria e Outros Temas, Dino Preti, Edusp, São Paulo, 1984.

Em Torno dos Conceitos de Gíria e Calão, Celso Cunha, na coletânea Miscelânea de Estudos em Honra de Antenor Nascentes, Rio de Janeiro, 1941.

Geringonça Carioca, Raul Pederneiras, Oficinas Gráficas do Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1922.

O mito do animal

Todo mundo sabe que o Edmundo, do Corinthians, atende por “animal”. Foi o locutor Osmar Santos o pimeiro a chamá-lo desse modo, um apelido que contagiou a imprensa e a galera de tal maneira que, agora, de nada adianta o craque do Parque São Jorge fingir que não é com ele. Roupa de anjo não serve para o Edmundo. Mas esse emprego da palavra animal não é invenção brasileira. Na Alemanha, animal, ou seja, tier, e uma expressão há muito empregada para retratar a vitalidade de um atleta em qualquer esporte”, informa Flávio Di Giorgi, professor de Teoria da Comuncação da Pontifída Universidade Católica de São Paulo. Ele lembra ainda que “animal” deriva do latim anima, que se refere à alma, à garra, e também de animales, o ser de instinto muito forte. Talvez agora o Edmundo fique satisfeito com a sua alcunha.

Como surgem os ‘hits’ na parada de sucessos da gíria

A palavra nasce em grupos fechados, cresce com o auxílio dos mensageiros e dos meios de comunicação e morre (ou renasce) na voz do povo.

Presos

Da cadeia, a linguagem é transmitida por carcereiros, pela polícia e outros.

Estudantes

Da escola, a gíria circula entre amigos, professores, família.

Malandros

Das ruas e dos morros, as expressões são divulgadas pelos usuários de droga, favelados etc.

Surfistas

Das praias, o vocabulário se espalha pelos jovens, esportistas e outros.

Mensageiros

Mantêm contato com os inventores e divulgam o palavreado para outros grupos, até alcançar a mídia.

Mídia

Os meios de comunicação de massa, em especial a televisão e o rádio, são também inventores. Mas o seu principal papel é o de propagar os novos vocábulos por toda a sociedade.

Voz do povo

A gíria que circula pode acabar incorporada pela língua oficial, permancer no vocabulário de pequenos grupos ou cair em desuso.

Interpretando o passado

Entra novela, sai novela e os ciganos continuam dando o ar da sua graça. Ao mergulhar nessa história de gíria, a SUPER deu de encontro com o passado brasileiro. Pasme! A gíria começou a chegar ao país ainda no século XVI, período da colonização. E veio de um jeito muito doido. Banidos de Portugal, só por terem costumes próprios, os ciganos eram condenados a vagar pelos mares, sem destino, anos a fio. Presos nas galés, ou galeras, ali conviviam com vagabundos, bandidos e toda espécie de ralé que os portugueses mandaram então embora do seu território.

O contato forçado entre bandidos e ciganos – ou calós, como estavam habituados a se chamar na própria língua –, provocou muita confusão, como é de se imaginar. E muita malandragem: unidos na condenação, errantes e malfeitores viviam de trocar idéia oceano afora. Desse congraçamento, nasceu um vocabulário especial, secreto, o calão. Tem gente que entende ser o calão o mesmo que gíria. Outros destacam o sentido atual, aquele da linguagem que se caracteriza pelo uso do palavrão – por isso, a expressão “de baixo calão”. Certo mesmo é que, depois de muito enjôo, sardinha e tubarão, essa tripulação apocalíptica desembarcou, muitas vezes, em solo tupiniquim. Trazia na bagagem magra apenas um vocabulário rico. As embarcações-prisões lusitanas abandonaram em nossas praias os ciganos e os bandidos – e a gíria.

Papo de malandro

Diante dos jurados cariocas, o réu deixa claro (graças à tradução de Dino Preti, professor da USP), que nada fez.

O que o malandro diz:

“Seu doutor, o patuá é o seguinte: depois de um gelo da coitadinha, resolvi esquiar e caçar outra cabrocha. Plantado como um poste na quebrada da rua, veio uma pára-queda se abrindo. Eu dei a dica, ela bolou…chutei. Ela bronquiou, mas foi na despista, porque, vivaldina, tinha se adernado e visto que o cargueiro estava lhe comboiando. Morando na jogada, o Zezinho aqui ficou ao largo. Procurei engrupir o pagante, mas recebi um cataplum. Aí, dei-lhe um bico com o pisante na altura da dobradiça. Ele se coçou, sacou a máquina e queimou duas espoletas. Papai, rápido, virou pulga e fez Dunquerque.”

(Extraído do jornal Correio da Manhã, de 5/04/1959)

O que ele quer dizer:

“Seu doutor, a conversa é a seguinte: depois que fui abandonado por minha companheira, resolvi procurar uma outra. Parado na esquina, aproximou-se uma morena faceira. Eu a olhei, ela correspondeu…eu insisti. Ela achou ruim, mas foi para disfarçar, porque, muito esperta, havia olhado de lado e vira que o seu companheiro a estava seguindo. Percebendo tudo, fiquei de longe. Procurei enganar o malandro, mas, inesperadamente, fui agredido. Aí, dei-lhe um chute na altura do joelho. Ele procurou a arma, sacou-a e deu dois tiros. Eu, rápido, pulei e fugi.”

(Trechos do livro A Gíria e Outros Temas, de Dino Preti)

Origens curiosas

Gírias comuns escondem procedências supreendentes. Este glossário reúne algumas interpretações feitas com exclusividade para a SUPER por Flávio Di Giorgi, professor da PUC de São Paulo.

Bafafá: confusão. Tem origem na palavra árabe bafaf, que quer dizer bolo.

Pindaíba: sem dinheiro. De origem tupi, “pinda” significa anzol e “aiba”, ruim.

Xilindró: prisão. Em língua banto, era como os escravos brasileiros chamavam seu esconderijo no mato.

Patavina: nada. Na Idade Média, o aluno ridicularizava o ensino de latim, citando o autor Titus Livius Patavinus.

Arco da velha: muito antigo. Expressão do Evangelho, simbolizando a paz, a aliança entre Deus e o homem.

Araque: sem valor. Bebida árabe; por isso, a conversa vira de “araque” quando se bebe muito e não se sabe o que se diz.