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Autobiografia: Tecno para B-boys

A autobiografia de Mau Mau

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h53 - Publicado em 30 nov 2003, 22h00

Leandro Fortino

Aos 35 anos, o paulistano maurício fernando bischain lança o seu primeiro álbum como produtor. “music is my life” conta, em 13 faixas, a história da vida de mau mau: dos dias de dançarino de break à consagração como o mais admirado dj do país. pronto para a aula?

Inglaterra, 1979. O grupo se chamava Bauhaus e lançava a música “Bela Lugosi·s Dead”, uma homenagem ao grande Drácula do cinema. São Paulo, 1987. Darks, descolados e protoclubbers encaravam um dos buracos mais sombrios da cidade, o clube Madame Satã, para dançar, olhando para o chão, o hino gótico da banda inglesa. Brasil, 2003. Ecos dessa faixa enganam os meus ouvidos. Ressurgem como uma alucinação, uma viagem nostálgica ao passado.

São oito e meia da noite, quinta-feira, o clima é fresco de primavera. Estou a poucos passos da Avenida Paulista. O prédio é antigo, o corredor do oitavo andar é escuro, o pé-direito é alto. A porta de madeira envelhecida se abre, mas eu não vejo quem me recebe. Sou obrigado a olhar para baixo. Ane, uma lhasa apso, e Jeff, um yorkshire, vêm ao meu encontro. Pulam como se comemorassem algo. Mas não era uma festa. Pelo menos ninguém tinha me avisado. Eu não estava lá para me divertir. Se bem que havia motivos para comemorar.

Olho finalmente para cima. Maurício Fernando Bischain me cumprimenta com um sorriso contido, mas muito amigável. Tem 35 anos, mas não aparenta. O desgastante trabalho noturno não parece ter consumido nada de seu rosto jovem ou de seu corpo, mantido em forma em academia e na preocupação de ter uma boa alimentação, de dormir bem e de não fumar nem beber. Não aparenta ser alguém que há 14 anos se apresenta quase toda a madrugada atrás de dois toca-discos usando o nome de Mau. Ou melhor, Mau Mau. Toda a experiência de sua bem-sucedida carreira como dançarino de break, depois como DJ e, posteriormente, como produtor de música eletrônica está resumida em “Music Is My Life”, seu primeiro álbum solo. E, claro, o assunto não pode ser outro. É sobre isso que ele quer falar.

A idéia surgiu há dois anos, diz Mau Mau. “Começou com o trabalho com o grupo M4J, que já lançou dois álbuns. Temos de entregar outro no ano que vem, então nessa pausa aproveitei para gravar. O M4J sempre teve aquela mistura com ritmos brasileiros, e eu queria apresentar uma outra coisa que não tivesse essa influência. Na primeira brecha que apareceu, eu comecei, mas sem pressa de terminar. Quis fazer uma coisa bem pensada, com as influências que eu tive durante toda a minha carreira: músicas, lugares, tudo…”

Botões ele já operava antes de descobrir seu lugar na cabine de som. Mau Mau, na época apenas Maurício, era funcionário de uma agência do Bradesco da Freguesia do Ó, bairro da zona oeste de São Paulo, onde nasceu e viveu com seus três irmãos mais velhos, seu pai, Francisco, e sua mãe, Vilma. “Até hoje eles acham que eu deveria estar fazendo outra coisa. Eles nunca me viram tocar, só por gravação em vídeo. Nunca se mostraram contentes ou empolgados com o que eu faço. Minha mãe sempre falava para eu fazer uma faculdade, que isso de ser DJ não ia dar em nada.” Mas Mau Mau encara na boa a visão dos pais. “Eles ainda não entendem direito o que eu faço.”

Maurício até tentou seguir os conselhos dos pais e cursou dois semestres de publicidade na PUC, enquanto trabalhava no banco. Mas a carreira artística falou mais alto, desde os tempos de escola, quando organizava peças de teatro, ou na sua investida na dança, que começou com a galera do bairro.

“A gente ficava a semana inteira treinando passos para chegar no fim de semana e dançar junto nas festinhas. Depois de um tempo comecei a levar mais a sério e fiz jazz, street dance, comecei a dançar break com a turma do hip hop. Ia na São Bento dançar, onde gangues disputavam batalhas no break.”

Estamos agora em meados dos anos 80. Ane e Jeff não param de pular. Querem atenção. Mas a conversa está boa, e os dois vão embora para a cozinha. Mau Mau, então, começa a contar como deixou de ser dançarino para colocar as pessoas para dançar. Com 16 anos, resolveu falsificar o RG para entrar num dos lugares mais sui generis que São Paulo já viu: o Madame Satã.

Maurício acabou virando sócio de carteirinha (falsificada, claro) do clube. Fez amizade com o DJ Marquinhos MS (MS vem de Madame Satã), que, ao lado de Magal, comandava a cabine do espaço. Sua vida caminhava para uma mudança. “O Marquinhos me abriu para um novo mundo. Não me ensinou a mixar, mas me deu vários toques. As primeiras dicas de mixagem foram dadas pelo Enéas Neto [do site “Fiber Online”] e depois fui prestando muita atenção nos DJs. Treinava em casa com dois toca-discos da Gradiente. Por influência também do Marquinhos, comecei a conhecer o que era a house music e logo depois a acid house. Me espelhei nele.” Marquinhos morreu em 94, aos 30 anos, em decorrência de aids, após passar pelos clubes Malícia, Columbia e Allure.

Maurício não lembra exatamente o que tocou em sua primeira noite no Satã, mas sabe que o repertório era batido, repleto de músicas que agradariam aos freqüentadores do lugar. Tinha Bauhaus, Siouxsie and the Banshees, The Cure, Echo and the Bunnymen…

A carreira de DJ progrediu bem. Pouco tempo depois, DJ Maurício já tocava em outros clubes da cidade, como US Beef Rock, Habeas Corpus e QG. Entre 89 e 90, o DJ começava a incluir em seus sets de música pop estilos novos no Brasil, como o tecno e a acid house. Também nessa época, montou um grupo de street dance, o Dance Division.

A virada da carreira veio em 1992, quando ele se tornou DJ residente do clube Sra. Krawitz, no centro da cidade. Foi também lá que Maurício virou o DJ Mau Mau. “O Nenê, promoter do clube, me deu total liberdade pra fazer o que eu quisesse. Misturava hip hop, house e acid. Naquela época estava começando a aparecer o tecno hardcore. Na parte técnica e de seleção de músicas, me inspirava no Marquinhos MS. E tinha o lado da brincadeira, que eu peguei do Zé Pedro e do Mauro Borges. Acendia as luzes e jogava chiclete para as pessoas. Havia uma magia muito especial. Foi o primeiro lugar aonde as pessoas iam especificamente por causa da música.”

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Logo depois do Krawitz, aconteceu no Brasil a primeira rave, com o patrocínio de uma marca de cigarro. O nome de Mau Mau estava no line-up, ao lado de Moby e Altern 8. A forte publicidade da festa, com comerciais na TV, difundiu o nome Mau Mau Brasil afora… daí em diante, o telefone do DJ não parou mais de tocar.

No ano seguinte – estamos em 94 – Mau fez sua primeira viagem para Londres, onde viu de perto os DJs que sempre admirou. Guiado pelo DJ e jornalista Camilo Rocha, conheceu a noite Final Frontier, no clube UK, onde viu Dave Angel, Hardfloor e CJ Bolland. “Foi a primeira vez que vi uma noite segmentada, com um único estilo de música. Fui para Londres já com a proposta de ser residente do Hell·s, o primeiro after hours do Brasil, convidado pelo Pil Marques, então freqüentador do Krawitz. Se eu não tivesse feito essa viagem, o Hell’s não teria sido o que foi”, sentencia o DJ.

Temos aqui o pioneiro das noites segmentadas de São Paulo. O Hell·s (94-98) acabou, vieram o Lov.e, atual residência de Mau Mau, apresentações em outros clubes, festivais nacionais e internacionais, como o Transmusicales, na França. Até em Istambul, Turquia, Mau Mau pisou (com o M4J). Até no trio elétrico de Daniela Mercury, em Salvador, Mau Mau sambou. Hoje, ele também é residente da noite Open House, que passa por Paris e outras cidades francesas. Já remixou músicas de Marina Lima e Rita Lee e de artistas internacionais. Até remix para o tema do “Fantástico” ele fez.

O DJ ainda tem a faceta “business”: tem dois selos; o Tropic, que lança o M4J no exterior, e o M Music, por onde pretende lançar, além de seus trabalhos, novos produtores de música eletrônica. Há ainda discos de mixagens de seus sets e algumas produções espalhadas cá e lá. Só faltava mesmo o disco de produções próprias.

“Tem downtempo, breakbeat, house, tecno e até alguma influência de trance. ·Music Is My Life· é um nome simples e óbvio, mas é o que eu estava a fim de representar – não encontrei outra frase.”

Hoje, Mau Mau vê mudanças na noite e nas relações de trabalho: a profissão DJ melhorou. Muito. “Acho que já houve uma fase pior. O DJ demorou para ter reconhecimento. A moçada que está aí começou junto, curtiu junto, cresceu junto. Algumas pessoas invejam o meu trabalho, mas não tenho inimigos. No que posso ajudar as pessoas, eu ajudo. Muita gente que faz sucesso hoje teve o meu apoio, assim como já fizeram comigo no passado. É uma troca, você tem que passar o que aprendeu.” Com o Hell’s, Mau Mau trouxe a segmentação para a noite paulistana e influenciou uma geração de top DJs nacionais, como Marcos Morcerf, Ana e David, André Juliani, Paula e Renato Cohen. “Nunca tive muita noção do que estava acontecendo. Sei que influenciei outros DJs porque eles me falam. Se o meu trabalho ajudou alguém de algum jeito, fico muito feliz.” De mau mesmo ele só tem o nome …

Se a segmentação inspirou novos DJs brasileiros, também abriu espaço para estilos em que a técnica de mixagem, requisito básico em qualquer pista, é deixada de lado. É o caso do electro, que ganhou noites por todo o país. “Acho bacana, é uma coisa debochada.”

Bacana mesmo, Mau? “Musicalmente é muito ruim, é mais uma ondinha passageira, não tem tanta qualidade. No caso do electro, pela coisa ser debochada, a mixagem fica sem importância. Mas em outros estilos a técnica é fundamental”, diz, e orienta: “Se você faz uma virada (mixagem) muito brusca, acaba cortando a viagem das pessoas. Já se falou no fim das mixagens, do culto ao DJ, mas… se você sabe a técnica, por que não usar? Se você sabe mixar, as pessoas vão se divertir muito mais”, diz. Mesmo no electro? Mas claro. “Dá para fazer supermixagens, ser supertécnico, mesmo tocando electro. É muito mais legal passar de uma música para a outra sem que as pessoas percebam. Assim se mantém o clima.” Anotou?

Faixa a faixa

Music is My Life

• “Introdução”

Gritos, vozes, sons invertidos, ecos dos anos 80, beats, enfim, um pouco da viagem no tempo que virá pela frente.

• “Music Is My Life”

A faixa-título é um breakbeat delicioso. O baixo eletrônico conduz uma levada suave. É quase um dub, com o nome do álbum repetido sem parar e repleto de ecos. O ritmo é cool e envolvente.

• “Teste”

Talvez uma homenagem ao grupo inglês de rock industrial Test Dept., que seguia a linha do alemão Eisntürzende Neubauten, hit no Madame Satã. Desaba em um som house fino, que Mau Mau conhece como ninguém.

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• “Kiss Me”

A cantora Laura Finocchiaro, parceira de longa data de Mau Mau, empresta sua voz neste exemplo de house sensual, cheia de elementos clássicos do gênero, como paradinhas, distorções e o vocal repetido que lembra um orgasmo.

• “MS 1985”

O Madame Satã e seu DJ mais querido ganham homenagem neste tecno com elementos góticos dos anos 80, como teclados tristes.

• “The Breakers of Space”

A dança break é homenageada neste breakbeat com um pé atolado no funk. Mal dá pra entender o que é cantado na música, mas quem liga para isso? O importante é deslizar.

• “JMRB”

Até o trance tem espaço no vasto repertório de Mau Mau. Nada de cafonice, excessos e firulas desnecessárias. O cara é fino. Alguém duvida?

• “The Time”

Mais uma série de colagens. É menos música e mais um tempo para respirar – mesmo que seja menos de um minuto.

• “Space Funk”

O nome , funk espacial, diz tudo, certo? Errado. A colisão frontal entre o planeta funk e o cometa tecno dita a ordem: não pare de dançar em nenhum momento.

• “Hell·s Club”

Dá para sentir o cheiro da fumaça que saía sem parar do inferninho. Tecno pesado, afinal, era para ouvir isso que o povo encarava a manhã de domingo. Não esqueça seus óculos escuros.

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• “D+”

O tecno continua. A batida 4×4 conduz ao clima ideal para levantar qualquer pista. A produção é rica em detalhes. Do teclado discreto ao vocal quase inaudível, tudo está no lugar certo.

• “Deep Funk”

É hora de baixar a bola mais uma vez, mas por poucos segundos – a house nation não pode parar. Mais uma prova do talento de Mau Mau, nessa faixa que segue um crescente e promete incendiar qualquer pista.

• “Up & Down”

Esqueça aquela versão de “Ave Maria”: aqui, Edson Cordeiro tem o tratamento que merece. Garage chique, a homenagem brasileira que faltava na salada de influências de “Music Is My Life”, com direito a violão que lembra a bossa nova.

Discografia

Complete sua coleção

1995

“Speed Racer – Mau2=e.acid” (coletânea “Speed Racer Remixes”, Natasha)

“The Space Science” (coletânea “O Discurso Corporation”, Paradoxx)

“Mau Mau Alive” (CD, Fieldz)

1997

“Hell’s Club by Mau Mau” (CD, Fieldz)

1998

“For Paula” (12”, Mundo Mix Music)

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“For Paula Remix” (12”, Mundo Mix Music)

“This Is Tropic” (12”, Tropic)

1999

“Three Lovers” (coletânea “OnSpeed – In and Out vol. 1”)

2002

“JMRB – Technova Mix” (12”, M Music)

“JMRB – Detroit Version Hell’s Club (12”, M Music)

“Hell’s Club” (12”, M Music)

“Space Funk” (CD, Manifeste Eletronique)

“This Is Test 1” e “This Is Test 2”, com Franco Junior (12”, This Is Real – SmartBiz Trax)

“So Funky”, com Renato Cohen (12”, Noisemuisc)

2003

“D+” (12”, Crayon)

“Cidade Funk Mix” (CD, Levine Film & Music)

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“Music Is My Life”, (CD, Segundo Mundo)

M4J – Discografia selecionada

1998

“The Track” (12”, Mundo Mix Music)

”Brazil Electronic Experience” (CD, Trama)

1999

“Folklore Nuts: Forró” (12”, Joss House)

2000

“Folklore Nuts” (CD, Trama)

“Macumba” (12”, Tropic)

“Café Preto”, Otto (faixa do CD) “Changez Tout”, (Trama)

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