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Diretor de a era do gelo 2:Carlos Saldanha

brasileiro Carlos Saldanha dirige uma equipe de 200 feras da computação e comanda orçamentos que ultrapassam facilmente 60 milhões de dólares.

Erika Sallum

Carlos Saldanha não curte a fama e o glamour de fernando meirelles e walter salles – talvez você nem saiba quem ele é. mas o diretor de a era do gelo 2 é um dos brasileiros que mais se deram bem em hollywood. conheça a história dele e descubra afinal o que faz um diretor de desenhos animados.

O brasileiro Carlos Saldanha dirige uma equipe de 200 feras da computação e comanda orçamentos que ultrapassam facilmente 60 milhões de dólares. No entanto, o escritório em que trabalha na cidadezinha de White Plains, vizinha a Nova York, tem esquilos de pelúcia com olhos esbugalhados disputando espaço com robôs e cacarecos infantis. Seus colegas são jovens com menos de 25 anos, cabeludos e cheios de piercings, cujas mesas ostentam abajures coloridos e enfeites bizarros – um deles, por exemplo, customizou o espaço, transformando o pequeno cubículo em que trabalha numa espécie de filial da Bahia, com rede, pôster de coqueiros e até luminária de palha. O lugar parece mais um parque de diversões que a sede de um dos maiores estúdios de animação do planeta.

Carioca, tranqüilão, 37 anos, Saldanha pode não ter no Brasil a mesma fama de Fernando Meirelles ou Walter Salles. Mas é um dos brasileiros que mais longe chegaram em Hollywood em todos os tempos – é um dos grandes nomes do cinema de animação mundial. Diretor do recém-lançado A Era do Gelo 2, Saldanha é braço direito de Chris Wedge, um dos criadores da Blue Sky Studios, um braço da Fox. Ex-analista de sistemas e fissurado por computadores desde pequeno, ele ajudou a criar personagens como o neurótico esquilo Scrat. A seguir, Saldanha fala sobre animação gráfica, desafios tecnológicos e a vida no mundo do cinema .

Um filme de animação não tem cenários, atores reais ou set de filmagem. O que faz um diretor como você enquanto o filme está sendo produzido?

Tudo é feito aqui no escritório, dos primeiros rascunhos à produção final. Eu sou, digamos assim, o chefe criativo, ou seja, a palavra final é minha. Durante o processo, chego a ter sob meu comando quase 300 pessoas. Passo o dia fazendo mini-reuniões de 15 minutos com cada equipe, aprovando idéias e desenhos. Nada entra no filme sem a minha aprovação. Meu papel, na verdade, é deixar a criatividade da galera rolar solta e depois cortar o que não for legal. Também faço a ponte entre o estúdio e os executivos da Fox em Los Angeles, levando para eles verem o que a gente está fazendo. Tenho ainda de acompanhar a dublagem inteirinha com os atores americanos e a trilha sonora, que é feita por uma empresa terceirizada. Passo a maior parte do tempo na sala de montagem, onde a gente pega cada frame e vai montando até o filme ficar pronto. É um trabalho duríssimo. Tem dias em que chego aqui às 9 h e só saio às 22 h. Algumas semanas atrás, por exemplo, eu estava com a agenda enlouquecida, com encontros ultra-rápidos com cada equipe.

Diferentemente de um diretor de filme “real”, você não tem que ficar administrando os humores das estrelas de Hollywood. Só que sob sua batuta está uma equipe gigante formada por gente supercriativa. As guerrinhas de egos acontecem aqui também?

Xi… tem, sim. Porque cada animador é diferente e todos são feras. Tem vezes que a idéia de um é ótima, só que não cabe no filme. E não quero que o cara fique mal com isso. Tenho de massagear a auto-estima deles, conversar, tipo um psicólogo. Meu estilo é mais light, tento levar tudo na boa, tratar todo mundo de um jeito decente e digno. Mas há momentos tensos, como em qualquer produção artística. Porque a animação pode não ser tão glamourosa quanto um filme normal, mas ainda é uma obra de arte, feita por artistas.

E as estrelas que dublam? Como é dirigir atores que fazem a voz de personagens que não existem?

É complicado… Porque cada ator dubla separadamente, não atua junto com os outros. Nem há cenários ou figurinos para ajudá-los a entrar no clima. Então minha primeira função é bater um bom papo com cada um, explicando o espírito do filme. O engraçado é que, para que a voz saia legal, você tem de ficar elogiando as estrelas toda hora. Falar coisas como: “Ah, ficou lindo, você está deslumbrante, sensacional” (risos). As pessoas não têm idéia de como as estrelas de Hollywood são inseguras! Não vou citar nomes, nem adianta perguntar (risos), mas um é pior que o outro nesse sentido. Geralmente os atores são gente fina, só que é preciso ficar adulando. E, se não sai como eu gostaria, peço para repetir. Um ator faz, em média, umas 5 ou 6 sessões de gravação para dublar o filme todo, repetindo um monte de cenas. É legal, mas eu ainda prefiro ser diretor de animação mesmo (risos).

Um filme de animação demora de 3 a 4 anos para ser feito. Por que tanto tempo?

Não tem como fazer em muito menos tempo do que isso. A Era do Gelo 2 foi uma exceção, porque terminamos em dois anos, o que, para nossos padrões, é corridíssimo. Tudo se inicia com o roteiro, que é a primeira e a última etapa a ficar pronta. Isso porque a gente começa a partir de uma idéia crua do roteiro e depois vai alterando durante todo o processo. O roteiro é a coisa mais importante de um filme de animação, mais do que as maluquices tecnológicas. Nos primeiros 10 minutos do filme, o público já saca quais são as qualidades técnicas e, se o roteiro for ruim, vai embora no meio. Depois do roteiro, a gente rascunha os personagens, no papel mesmo, à mão, para só depois escanear para o computador. Fazemos isso para que os traços fiquem o mais naturais possível. Aí dividimos as funções por equipe: tem a equipe que cuida só das roupas, há a responsável apenas pelo que chamamos de environment, que é o ambiente, tipo árvores, folhas, pedras, gelo. Cada equipe vai dando uma cara para o filme, a partir de milhares de referências que pegam em revistas, livros, museus de história natural etc. Como num filme “real”, fazemos o storyboard, que vai guiar a história. E montamos um monte de maquetes, para termos esse olhar 3D, para ver o projeto fora da tela do computador e ter uma noção melhor de onde colocar a “câmera”. É um trabalho danado, insano.

Durante todos esses anos de produção, devem aparecer novas tecnologias, não? Vocês vão se adaptando a elas ao longo do processo?

Hoje você compra um iPod e, em meses, ele já fica antiquado. Imagina então quando se trata de animação. Só que, ao mesmo tempo, é muito caro ficar trocando de computador toda hora. Há casos em que não tem jeito e a gente tem de fazer isso mesmo, mas é raro. O que mais acontece é a gente fazer um planejamento e, durante o processo, vamos adquirindo novos softwares. Muitos, aliás, são feitos a partir de nossas necessidades. Porque tem coisas dificílimas de se dar uma cara natural. Água, por exemplo, é um desafio. Pêlo, nem se fala. Poucas coisas são tão complexas quanto fazer um vento mexer o pêlo de um dos nossos personagens.

Você não é tão reconhecido no Brasil quanto um Fernando Meirelles, por exemplo, mas seus filmes renderam muito mais que a maioria dos nacionais. Você não fica meio chateado com isso?

Olha, a animação sempre ficou num segundo plano, se a gente comparar com os chamados filmes live action, com atores reais. Não acho que seja preconceito, não. Isso acontece porque nós ficamos mais no backstage, escondidos num escritório e não em um set de filmagem gigante. Na verdade, pelo menos entre as pessoas que curtem animação, meu nome já é conhecido. Não ligo para essas coisas, adoro o que faço e sinto-me realizadíssimo em vir todos os dias para cá brincar. Porque eu chego aqui e parece que vim para a escola. Tem brinquedos para todo lado, é uma diversão.

Como é que você começou e conseguiu vencer num mercado tão disputado, sendo brasileiro?

Foi sorte e garra. Sempre gostei de computador, mas tinha uma queda por arte. Cursei computação e trabalhava como analista de sistemas no Rio. Aí decidi fazer um curso rápido de computação gráfica em Nova York. Não tinha grana, juntei centavo por centavo para conseguir passar 6 meses aqui. No curso, eu estava com tanto gás que fiz um monte de filminhos, ficava na escola umas 12 horas por dia. Isso chamou a atenção de um professor meu, que me incentivou a fazer um mestrado. Só que não tinha um tostão… Por sorte do destino, uma amiga nossa conhecia uma brasileira que morava em Nova York e nos ajudou muito, primeiro emprestando a casa e depois bancando o curso para mim. O tal professor era o Chris Wedge, que tinha uma produtora modesta na época, a Blue Sky. Naquele tempo, a gente se sustentava fazendo comerciais de TV, mas sempre sonhamos em fazer filmes. Até que a Fox nos comprou e hoje fazemos somente o que gostamos.

Este ano, a Disney comprou a Pixar, que fez megasucessos como Toy Story e Os Incríveis. Como essa compra pode mudar os filmes de animação?

Há algum tempo a Disney terceirizava suas produções com a Pixar, porque, apesar de ter uma equipe muito talentosa, não conseguia emplacar seus filmes. Aí acabou rolando uma inversão de posições e a Pixar começou a ter mais moral que a Disney. Com a compra, a Pixar fica mais poderosa e a Disney, mais criativa. Isso vai dar uma carga de energia no mercado, que terá filmes melhores. Sinceramente, a gente não se preocupa com esse tipo de concorrência. Quer mesmo é que haja cada vez mais filmes de animação, desde que sejam bons. Porque senão banaliza e o público começa a achar que filme de animação é sinônimo de coisa ruim. Com filmes melhores, aumentamos nosso público fiel.

Você sonha em fazer um filme “real”?

Sim. Tenho até umas idéias na cabeça, mas não tive tempo até hoje para tocar isso. Ao mesmo tempo, esse não é meu métier, entende? Um filme live action é totalmente diferente, não sei se já estou pronto para dirigir um agora. Quem sabe daqui a pouco…

Carlos Saldanha

• É fã de filmes clássicos de animação, como Bambi e Pinóquio. Da nova geração, o favorito é Toy Story.

• Dos filmes “reais”, considera Blade Runner uma obra-prima.

• Atualmente está lendo O Estranho Caso do Cachorro Morto, sobre um garoto que tem o mal de Asperger.

• Torce para o Flamengo.

• Adora Tom Jobim, Elis e Marisa Monte.

• Seu hobby predileto é cozinhar para os amigos. É fanático por farofa e chocolate.

• Seu primeiro computador foi um Commodore 64, já que não tinha grana para ter um Amiga.

Como fazer um desenho animado

• Um desenho preliminar é feito a lapis ou caneta a partir de um roteiro. A imagem já deve ter alguns elementos de humor e personalidade.

• Com a ajuda de softwares de modelagem, animadores redesenham a cena como um esqueleto vetorizado, com algumas expressões corporais.

• Quando uma imagem chega a este estágio, já passou pela maioria dos departamentos de um estúdio de animação. Aqui cores e contornos são adicionados.

• A última etapa inclui a aplicação de texturas e reflexos nos pêlos, por exemplo. Esta é a imagem final, exibida nos cinemas.