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Heróica biblioteca

A autora mostra que a biblioteca se formou como uma ¿coleção de coleções¿, transformando a bibliofilia (privativa) dos magnatas em material de consulta para o público.

Sérgio Alcides

Talvez Mallarmé estivesse certo ao dizer que “tudo, no mundo, existe para terminar num livro”. Mas isso não será tão ruim enquanto houver uma biblioteca pública e um mínimo de silêncio. Por sorte, as grandes bibliotecas têm o poder de despertar o cuidado de uns poucos funcionários, através dos quais resistem ao tempo e à estupidez.

É o que aprendemos lendo A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis (Companhia das Letras), de Lilia Moritz Schwarcz. Com a colaboração dos pesquisadores Paulo Cesar de Azevedo e Angela Marques da Costa, Lilia nos conta a história da Real Biblioteca portuguesa, que formou o núcleo fundador da nossa Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. O acervo de 80 mil volumes teve uma trajetória heróica: surgiu dos escombros do terremoto de Lisboa, em 1755, enfrentou a carolice dos monarcas, escapou dos exércitos de Napoleão e das garras dos britânicos, atravessou o oceano para enfim aportar num país escravocrata.

A autora mostra que a biblioteca se formou como uma “coleção de coleções”, transformando a bibliofilia (privativa) dos magnatas em material de consulta para o público. Sua verdadeira vocação é nada menos do que o ideal humanista dos primeiros pensadores da biblioteca pública, como Justus Lipsius e Gabriel Naudé, do século XVII.