Oferta Relâmpago: Super em Casa por 9,90

Pânico 7 esvazia Ghostface para entregar o que acha que o público quer ver

O monstro é o herói? Franquia traz de volta suas marcas registradas, mas cai nas armadilhas que Wes Craven tentou evitar

Por Victor Bianchin
26 fev 2026, 10h01 • Atualizado em 26 fev 2026, 14h27
  • De certa forma, a essência de Pânico sempre esteve em sua autorreferência: as piadas com longas de terror, as “regras” repetidas pelos personagens, a insistência de que a realidade (do filme) imita os filmes (da realidade). Ao renovar um gênero do terror que já chegou aos anos 1990 cansado, Wes Craven criou uma fórmula que injetaria vigor nos slashers por décadas a fio.

    Apenas dois anos antes do primeiro Pânico, o diretor lançou O Novo Pesadelo de Wes Craven (1994), uma grande subversão da franquia que ele mesmo havia criado, A Hora do Pesadelo. Cansado de ver seu monstro transformado em um bufão mascote hollywoodiano, Craven escreveu um roteiro em que Freddy Krueger vai atrás dos atores de seus filmes no mundo real e a única forma de parar a matança é fazendo um novo longa e destruí-lo lá. Sofisticado demais para a época, flopou nas bilheterias.

    Mas Craven sabia onde tinha errado. Com Pânico (1996) ele tirou o elemento sobrenatural da trama e colocou o assassino para matar adolescentes bonitos. A mistura de horror, humor e referências meta, envernizada com uma cinematografia de videoclipe, caiu no gosto do público jovem e cravou o maior sucesso comercial da carreira do diretor.

    Estava ali uma gema: terror que dialogava com sua geração e que tinha algo a dizer.

    Enquanto esteve vivo, Craven sempre cuidou para que a galhofa não se tornasse mais importante que os personagens ou o tema (o que seria repetir a ruína de A Hora do Pesadelo). O segundo longa introduz uma franquia de filmes fictícia na história e discute o consumo da tragédia como entretenimento, enquanto o quarto antecipa, muito antes de seu tempo, a cultura dos influencers e dos streamers. “Não preciso de amigos, preciso de fãs”, diz Ghostface ao se revelar.

    Continua após a publicidade

    Os filmes que Leonardo DiCaprio mais assistiu (segundo ele mesmo)

    Sem seu criador, porém, a série tem patinado. O quinto e sexto filmes, com uma nova dupla de protagonistas, fazem o que podem para manter a chama acesa — e o sexto até que se sai surpreendentemente bem, com o melhor ritmo desde o original. Após as lambanças contratuais envolvendo Jenna Ortega e Melissa Barrera, porém, Neve Campbell retorna como final girl solitária, provavelmente recebendo o cachê que pediu (e que merece), mas que lhe foi negado na última iteração. 

    Sidney Prescott agora vive em Dallas, no Texas, junto ao marido policial e à filha mais velha (as outras duas não participam da história). Ela não se esconde: vive as agruras de ser uma celebridade mórbida ao mesmo tempo em que transforma a casa num bunker vigiado. Mas seu maior desafio é ser mãe de adolescente: a primogênita Tatum quer saber mais sobre o passado de Sidney, mas a sobrevivente de Woodsboro tem receio de compartilhar.

    Continua após a publicidade

    É preciso que um novo Ghostface apareça para quebrar esse tabu. Junto dele ressurgem Gale Weathers (Courteney Cox), Mindy e Chad Meeks-Martin (Jasmin Savoy Brown e Mason Gooding), os sobreviventes dos filmes anteriores. É um desfile de faces agradável para quem tem carinho pela série, mas que resulta em pouca substância: esses personagens praticamente não têm o que fazer no filme. O novo rol de amigos/suspeitos segue arquétipos conhecidos: o namorado sombrio, o nerd estranho, a amiga fofa… há poucas surpresas.

    Mas o que realmente compromete o filme é que, para a história andar, é preciso que todo mundo seja burro. É perfeitamente compreensível que os novatos cometam erros ao serem perseguidos por Ghostface, mas não há justificativa para os veteranos (e até a polícia!) esquecerem os neurônios em casa. A estupidez apequena a história: Ghostface não precisa ser criativo para pegar suas vítimas e estas não conseguem ser engenhosas o suficiente quando precisam encará-lo.

    Fotografia da Neve Campbell em Pânico7 (2026).
    (Paramount Pictures/Divulgação)
    Continua após a publicidade

    Claro, é divertido ver o assassino brincando de gato e rato e há momentos de suspense genuíno no filme, apesar dos ângulos conservadores e dos jump scares que não conseguem fazer ninguém pular da cadeira. Mas o que se sobressai — e isso é extremamente irônico para uma franquia tão meta — é o medo: de comprometer os personagens que retornam, de exagerar no humor, de exagerar no horror, de entregar a identidade de Ghostface rápido demais. O roteiro se conforma com o mínimo denominador comum.

    Falta também algo que faça o filme ter identidade: diferentemente do sexto episódio, que se aproveitou da nova ambientação (Nova York) para trazer ideias frescas às perseguições, o máximo que Pânico 7 consegue fazer com seus novos ingredientes é tirar Ghostface das mansões e levá-lo para as ruas.

    Existe também uma tentativa de comentário sobre as dores modernas, como os simulacros da IA e o fascínio por true crime, mas são elementos que se autorresolvem para não atrapalhar a ação. Sidney quer saber se o vídeo que está assistindo é real ou é IA: a dúvida é interessante para o espectador, mas o roteiro entrega a informação mastigada quando convém e depois nunca mais toca no assunto. Respostas demais, suspense de menos.

    Continua após a publicidade
    Fotografia da Isabel May em Pânico7 (2026).
    (Paramount Pictures/Divulgação)

    Quando tudo no filme se situa no reino do conhecido, o peso do mistério recai todo sobre a identidade do assassino. E é aqui que a coisa realmente desanda. Nunca Ghostface, um personagem outrora tão rico, foi tão desinteressante em seu propósito. Seu desmascarar é burocrático, sem fascínio ou drama, até porque toda a plateia já consegue adivinhar quem ele é bem antes do terceiro ato. Você fica torcendo para o diálogo acabar pois a ação, pelo menos, entrega alguma emoção.

    Nesse sentido, Pânico vira o que Wes Craven temia: uma franquia pipoqueira onde o monstro é o herói, o espetáculo vazio é o ethos e a lógica é uma inconveniência. É verdade que, após seis filmes, Kevin Williamson (roteirista de três Pânicos, mas dirigindo pela primeira vez) não tinha muito para onde correr. Mas, se havia alguém que poderia tirar o leite dessa pedra, era ele. Somos deixados com sede.

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    Domine o fato. Confie na fonte.

    15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas

    OFERTA LIBERE O CONTEÚDO

    Digital Completo

    Enquanto você lê isso, o mundo muda — e quem tem Superinteressante Digital sai na frente.
    Tenha acesso imediato a ciência, tecnologia, comportamento e curiosidades que vão turbinar sua mente e te deixar sempre atualizado
    De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
    MELHOR OFERTA

    Revista em Casa + Digital Completo

    Superinteressante todo mês na sua casa, além de todos os benefícios do plano Digital Completo
    De: R$ 26,90/mês
    A partir de R$ 14,90/mês

    *Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
    *Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).