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Qual foi o primeiro filme brasileiro indicado ao Oscar?

Como um filme brasileiro venceu Cannes, dividiu críticos e chegou ao Oscar nos anos 1960

Por Ana Clara Caielli Barreiro
1 fev 2026, 12h00 • Atualizado em 3 fev 2026, 11h46
  • O ano era 1963 – o mesmo em que John F. Kennedy foi assassinado, a beatlemania ganhava força e o Brasil deixava o sistema parlamentarista para retornar ao presidencialismo e um ano antes do golpe militar – quando o primeiro filme brasileiro foi indicado ao Oscar. Era O Pagador de Promessas, dirigido por Anselmo Duarte.

    O longa concorreu à categoria de Melhor Filme Estrangeiro (hoje chamada de Melhor Filme Internacional) no Oscar de 1963, mas perdeu para o francês Sempre aos Domingos. A vitória brasileira na categoria só viria décadas depois, em 2025, com Ainda Estou Aqui, de Walter Salles. 

    Antes mesmo da indicação ao Oscar, O Pagador de Promessas, já havia feito história ao conquistar a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1962. O prêmio máximo do evento vem acompanhado de uma folha de palma feita de ouro e, até hoje, este foi o único filme brasileiro a receber a honraria.

    O filme não figurava entre os favoritos e acabou desbancando obras de diretores consagrados e queridinhos da crítica, como Sidney Lumet, dos Estados Unidos, e Michelangelo Antonioni, da Itália.

    Foto do diretor de filme Anselmo Duarte no Festival de Cannes de 1962.
    (Gilbert TOURTE/Getty Images)

    De volta ao Brasil, a equipe foi recebida como jogadores da seleção após vencer uma Copa do Mundo, com direito a festa e desfile público em carros abertos.

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    Uma curiosidade é que o prêmio permaneceu trancado por mais de dez anos em um cofre da prefeitura da cidade de Salto, no interior de São Paulo, a cidade natal de Duarte. O diretor faleceu em 2009 e, como ninguém sabia a senha, o cofre precisou ser arrombado em 2022, em um processo que levou uma hora e meia.

    Hoje, uma réplica da Palma de Ouro está exposta no Centro de Cultura de Salto, com um dos “dedos” da folha quebrado, assim como o original, que foi danificado após Anselmo Duarte o derrubar.

    Primeira produção verdadeiramente nacional no Oscar

    Antes de O Pagador de Promessas, brasileiros já haviam marcado presença no Oscar, mas nunca em um filme inteiramente nacional. Em 1945, a canção Rio de Janeiro, com coautoria do artista brasileiro Ary Barroso (autor de Aquarela do Brasil) e do americano Ned Washington, foi indicada ao prêmio de Melhor Canção Original. Feita para o musical estadunidense Brazil, a dupla acabou perdendo para Swinging on a Star, de James Van Heusen.

    Depois, no Oscar de 1960, o filme Orfeu Negro, uma coprodução entre Brasil, França e Itália, venceu a estatueta de Melhor Filme Estrangeiro mas o prêmio ficou oficialmente com a França. A obra é inspirada na peça Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes, e conta com atores brasileiros no elenco.

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    Já em 1961, o filme A Morte Comanda o Cangaço chegou perto. Ele foi inscrito para concorrer à premiação, mas não obteve indicações.

    Enredo

    O Pagador de Promessas conta a história de Zé do Burro, interpretado por Leonardo Villar, que faz uma promessa em um terreiro de candomblé para Santa Bárbara pedindo a recuperação de seu burro, Nicolau, atingido por um raio.

    Com a sobrevivência do animal, Zé do Burro precisa cumprir a promessa: caminhar do interior da Bahia até Salvador carregando uma cruz de madeira. Ele é acompanhado por sua esposa, Rosa, vivida por Glória Menezes. Ao chegar à capital, o padre proíbe o cumprimento do voto, justamente por ele ter sido feito em um terreiro, o que desencadeia uma grande confusão na cidade.

    A trama evidencia o choque entre a ingenuidade de um homem sertanejo e a vida urbana, além do conflito entre o catolicismo das classes abastadas e o candomblé, religião de matriz africana.

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    Gravado entre agosto e setembro de 1961, na Bahia, principalmente na escadaria da Igreja de Santa Bárbara, cujo formato lembra o de um anfiteatro, o filme é uma adaptação da peça teatral homônima de Dias Gomes, um dos maiores dramaturgos brasileiros. Membro da Academia Brasileira de Letras, ele assina obras como Roque Santeiro, O Bem-Amado e Saramandaia, muitas delas censuradas pela ditadura militar por seu tom satírico e suas críticas sociais e políticas.

    Anselmo Duarte se apaixonou por O Pagador de Promessas e decidiu adaptá-lo para o cinema, convidando Leonardo Villar, que interpretava Zé do Burro na montagem teatral de 1960, para protagonizar o filme. Os direitos de adaptação foram adquiridos por 400 mil cruzeiros, com uma cláusula imposta por Dias Gomes que exigia fidelidade ao enredo original.

    Esse foi apenas o segundo filme dirigido por Duarte, depois de Absolutamente Certo. Até então, ele era conhecido como um dos grandes galãs da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, estúdio muito popular na época, apesar de seu breve período de atividade.

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    Críticas, críticas e mais críticas

    Duarte e seu filme foram aclamados por muitos, mas duramente criticados pelo Cinema Novo, movimento então em ascensão – em um período em que até a bossa nova ainda era nova. Formado por jovens cineastas, o grupo defendia um cinema mais experimental, politizado e distante dos modelos tradicionais.

    Para esses críticos, O Pagador de Promessas lembrava um cinema clássico, antigo, comercial e com influências hollywoodianas. E o pior: feito por um ex-galã inexperiente no trabalho de direção. Glauber Rocha, diretor de Deus e o Diabo na Terra do Sol, ajudou na produção do filme por um período, mas se tornou um de seus principais críticos.

    Ainda assim, O Pagador de Promessas venceu a disputa interna com Os Cafajestes, de Ruy Guerra (ligado ao Cinema Novo), e foi escolhido para representar o Brasil em Cannes.

    Atualmente, O Pagador de Promessas está disponível no Globoplay e no Telecine.

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