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Van Gogh pode ter enfrentado episódios de delírio devido à abstinência alcoólica

Um novo estudo adicionou mais um capítulo na intrigante vida do pintor, e sugere quais transtornos mentais ele desenvolveu (ou não).

Por Carolina Fioratti 5 nov 2020, 17h36

Não são apenas as obras de Vincent Van Gogh que atraem o público. A história de sua vida, repleta de mistérios e incidentes, intriga não apenas admiradores, mas também cientistas que tentam desvendar a mente do pintor holandês.

Nesta semana, pesquisadores do Centro Médico Universitário Groninge, na Holanda, publicaram um estudo sugerindo que, após Van Gogh cortar a própria orelha, o pintor passou ainda por dois momentos de delírio causados por abstinência de álcool. 

O caso da orelha aconteceu em dezembro de 1888. Há muitas hipóteses sobre o que pode ter ocorrido neste fatídico dia, mas nenhum pesquisador se arrisca a contar a história com 100% de certeza. O que se sabe é que a orelha foi entregue para uma mulher em um bordel, e que Van Gogh foi encontrado pela polícia no dia seguinte em sua casa em Arles, na França. Depois disso, ele foi internado em um hospital. 

Contudo, essa não foi a única vez que o artista foi hospitalizado. Entre dezembro de 1888 e maio de 1889, Van Gogh foi internado três vezes. Após o último episódio, ele foi transferido para o asilo Saint-Rémy-de-Provence, local em que morou por um ano – e teve os dias mais produtivos de sua vida. 

O envolvimento com álcool, por sua vez, veio antes de toda essa história. Ele se tornou dependente em 1886, tendo como seus aliados o vinho e outras bebidas mais fortes, como absinto – que, inclusive, foi retratado em uma de suas obras, “Mesa de Café com Absinto (1887)”. Contudo, depois de perder a orelha, Van Gogh teve que passar por um período forçado sem álcool, o que parece ter lhe causado delírios. 

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Mesa de Café com Absinto (1887), de Vincent Van Gogh. Fine Art/Getty Images

Para chegar a essa conclusão, os psiquiatras consultaram três especialistas em arte e analisaram 902 cartas enviadas por Vincent aos seus familiares. Além disso, estudaram alguns registros médicos do artista. Seu irmão, Theo, era o principal destinatário: recebeu 820 de suas mensagens. Em duas de suas internações, Vincent escreveu a ele que estava sofrendo alucinações, ansiedade e pesadelos. Ele explicou que sentia algo como uma “febre ou loucura mental ou nervosa”, e que não sabia como nomear os sintomas. 

  • A abstinência de álcool não era o único de seus problemas. Van Gogh parece ter sofrido uma combinação de transtorno bipolar e transtorno de personalidade borderline. Ambos envolvem oscilações de humor, mas variam nas motivações e na velocidade da mudança. Os transtornos, porém, nunca foram diagnosticados, e seguem apenas como mais uma suspeita por parte de pesquisadores. 

    Por outro lado, Van Gogh foi diagnosticado com epilepsia por seus médicos. Os autores do estudo não contestam a informação, mas indicam que pode ter sido uma “epilepsia focal”, em que o paciente não tem aquelas crises que estamos acostumados a ver, mas sim convulsões “menores”, que afetam apenas uma parte do cérebro. Tais crises podem desencadear ansiedade, delírio e alucinações. De acordo com os pesquisadores, o problema pode ter surgido como consequência do abuso de álcool, desnutrição, sono irregular e exaustão mental. 

    Os cientistas holandeses também excluíram da lista algumas doenças que eram atribuídas ao pintor, como esquizofrenia, porfiria e sífilis. Eles também descartam a ideia de que o artista tenha sofrido envenenamento por monóxido de carbono, que teria sido emitido pelas lâmpadas a gás de sua casa em Arles.

    Apesar dos resultados, os pesquisadores reforçam que o estudo deve ser tratado com cautela. Na época, não havia exames de imagem para que os médicos pudessem avaliar os padrões do cérebro de Van Gogh. Deve-se considerar também que as cartas foram enviadas para seus familiares, o que pode ter feito com que Vincent minimizasse certas coisas, escondendo os sentimentos reais para não causar preocupações. 

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