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10 idéias geniais do milênio

Flávio de Carvalho

Qual o feito científico mais espetacular dos últimos 1 000 anos? pergunta difícil. Foram tantas as descobertas que todos se confundem. Mas, depois de ver na edição passada e na SUPER ON-LINE a nossa lista de 100 grandes invenções, quase 4 000 leitores arriscaram um voto. Veja, aqui, os dez maiores hits. Apresentados em ordem cronológica, eles mostram um panorama do progresso no milênio. O grande vencedor foi a eletricidade, capturada por Benjamin Franklin em 1751.

Universidade

As primeiras escolas superiores eram cooperativas de alunos. Foram elas que prepararam o Renascimento. O “bicho” que ingressa na faculdade hoje se sentiria muito deslocado na primeira universidade de que se tem notícia, a de Bolonha, criada em 1150, na Itália. As aulas aconteciam em salões de convento cedidos pela Igreja e os calouros eram senhores maduros vindos de prósperos centros comerciais. Gente interessada em adquirir conhecimentos gerais, que na época se chamavam essências universais. Daí o nome universidade. Não havia faculdades, mas guildas, cooperativas de alunos que pagavam professores para aprender o que queriam. Só no final do século XI surgiu em Bolonha um curso de Direito com aulas de Gramática, Lógica e Retórica.

Ascensão social

O sonho dos estudantes era fazer carreira no governo das cidades ou na Igreja, os melhores empregadores da época. Queriam integrar-se à burocracia de médicos, juristas, administradores, contabilistas e tradutores. Como a Idade Média vivia em pleno raquitismo cultural e científico, os currículos dessas primeiras escolas superiores tiveram que resgatar pensadores gregos de dezesseis séculos antes, como Platão (428-348 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.), que já haviam imaginado métodos de ordenar o conhecimento.

A maioria dos alunos era de estrangeiros ou forasteiros e suas associações cosmopolitas logo tiveram que garantir direitos diante das reações provincianas dos cidadãos locais. Em 1158, os alunos de Bolonha ganharam proteção contra certos tipos de prisão e foram dispensados de impostos e do serviço militar. Em Paris, estudantes da universidade, criada em 1214, só eram submetidos a tribunais eclesiáticos, não à Justiça comum. Desde que, é claro, jamais incorressem em heresia ou ateísmo. Criar campus estudantil foi, no começo, também uma forma de isolar estrangeiros para proteger a paz dos habitantes da cidade.

Às vezes a hostilidade entre estudantes e moradores gerava mudanças, como em 1209, quando alunos de Oxford se rebelaram contra os currículos e migraram para Cambridge, fundando essa universidade inglesa. Aos poucos, gerações de acadêmicos foram consolidando centros e métodos novos de produção de conhecimento. Um exemplo foi o filósofo inglês Roger Bacon (1220-1292), o primeiro a defender a experimentação científica. “O surgimento das universidades formou uma massa crítica de pensamento”, diz o físico José Goldenberg, ex-reitor da Universidade de São Paulo. “Foi esse pensamento que deu origem, poucos séculos depois, ao surto renovador do Renascimento e do Iluminismo.”

Ano 1150

Sábio grego

Para superar o obscurantismo da Idade Média, as universidades recuperaram os ensinamentos de filósofos gregos, como Aristóteles (384-322 a.C.). Botânico, zoólogo, anatomista e mestre da Lógica e da Ética, o sábio dava aulas públicas no jardim da sua casa, o Lyceum. Elas difundiram o conceito de escola.Ano 1150

Polemista acadêmico

O filósofo inglês Roger Bacon (1220-1292), da Universidade de Oxford, foi um dos primeiros acadêmicos. Sua defesa da experimentação como fonte do conhecimento, opondo-se à especulação metafísica, gerou um dos primeiros debates universitários da História.Ano 1202

Algarismos arábicos no Ocidente

A Matemática desabrochou no Ocidente ao ganhar uma linguagem moderna e mandar o ábaco para o museu.

O Ocidente era um zero à esquerda na produção intelectual no início do milênio. Os europeus não conheciam nem a existência do zero e usavam, para fazer contas, bolas atravessadas por arames presos a uma tábua, o ábaco. O complicado sistema de numeração romano, com letras, era um entrave à evolução da Matemática.

Esse cenário mudou quando o matemático Leonardo Fibonacci (1170-1240), nascido em Pisa, conheceu, na atual Argélia, mestres árabes que cultivavam há séculos a álgebra aprendida dos hindus. Ao voltar, Fibonacci escreveu, em 1202, o Liber Abaci (“Livro do ábaco”), que anunciava, sem rodeios, uma novidade: “Os nove algarismos indianos são 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1. Com esses nove e o sinal zero, qualquer número pode ser escrito”.

Com os algarismos e os sinais de mais, menos, igual e outras notações simbólicas hindus, a Matemática popularizou-se, para tristeza dos operadores do ábaco. “A inovação disseminada por Fibonacci gerou muita controvérsia na época”, explica Luiz Barco, matemático da Universidade Estadual de Campinas (unicamp) e colunista da SUPER. “Ela foi combatida por uma elite de calculadores tradicionais que perdeu os lucros.” Mas era irresistível.

Descobrimentos

Após a morte de Fibonacci, a ciência dos cálculos caiu novamente num longo cochilo. Até o século XV, a obra do matemático foi plagiada sem nenhuma imaginação. Subitamente, entre 1472 e 1500, uma rajada de 214 livros novos sobre o assunto foi editada na Europa. Essa explosão pegou a onda de crescimento mercantil às vésperas das grandes descobertas marítimas. A demanda de matemáticos para casas bancárias, comerciantes e governos foi enorme e, a partir daí, não parou de crescer. Descobriu-se que atividades como mirar um canhão não dependiam só de intuição e experiências empíricas, mas de muito cálculo numérico.Ano 1202

Viajante descobridor

Depois de acompanhar uma viagem do pai, cônsul nomeado para representar comerciantes de Pisa na cidade de Bejaia, na atual Argélia, o italiano Leonardo Fibonacci (1170-1240) descobriu o que causaria a maior mudança da Matemática no Ocidente: os algarismos arábicos.Ano 1202

Pioneiro islâmico

O filósofo muçulmano Ibn Rush (1126-1189), conhecido pelo nome latino de Averröes, difundiu conhecimentos matemáticos na cidade árabe de Córdoba, na Espanha.Ano 1202

Um problema clássico

Este é um dos problemas feitos por Fibonacci no Liber Abaci (“Livro do ábaco”), que popularizou os algarismos arábicos no Ocidente. Tente resolver. A solução está no pé da página.

Um homem largou um par de coelhos cercado de muros por todos os lados. Considerando que o casal só se torna produtivo a partir do segundo mês e que cada um produz um casal por mês, quantos pares de coelhos podem ser gerados a partir do primeiro casal em um ano?

Solução

Serão 144 pares de coelhos. A resposta exemplifica a seqüência de Fibonacci, onde o próximo número é a soma dos dois anteriores. Mês a mês, a quantidade de pares de coelhos será: 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55, 89 e 144. O desenho mostra a ninhada até o quinto mês.Ano 1454

Imprensa

A popularização de informações acelerou o fim da Idade Média.

A primeira impressora mecânica, construída por Johannes Gutenberg (1397-1468), em Mainz, na Alemanha, era uma engenhoca que parecia grotesca, pois unia elementos totalmente diferentes. A idéia genial foi agregar a siderurgia à química, criando tipos móveis de metal durável, um para cada letra, untados com uma tinta oleosa que aderia aos tipos. Tudo encaixado em um prelo adaptado a uma prensa de espremer uvas.

Essa geringonça gerou uma maneira extraordinária de divulgar informações, antes reproduzidas principalmente por copistas manuais. A Europa, que na época vivia uma urbanização acelerada e o início do consumo de massa, respirou aliviada. Governantes, Igreja e comerciantes precisavam se comunicar com cada vez mais gente. “A imprensa democratizou a cultura. Ela popularizou o conhecimento técnico que estava confinado a entidades de ofício”, afirma o historiador Shozo Motoyama, do Centro de História da Ciência da Universidade de São Paulo.

Indulgências

A Igreja foi a primeira a perceber o valor da novidade. Antes mesmo de fabricar o primeiro livro impresso, uma Bíblia, em 1454, Gutenberg ganhou dinheiro imprimindo muitas indulgências, garantias de um lugar no céu, que os padres trocavam com cidadãos que contribuíssem para o clero. A Igreja precisava financiar uma longa guerra contra os turcos em Chipre.

Apesar do sucesso, o impressor só ganhou tranqüilidade financeira três anos antes de morrer, quando a mesma Igreja lhe concedeu uma aposentadoria e isenção de impostos. Antes, amargou dificuldades. A própria edição de 200 exemplares da primeira Bíblia impressa só foi feita após o empréstimo de um banqueiro, que mais tarde o processou e ficou com a metade do dinheiro arrecadado com a venda.

Para Gutenberg foi desagradável. Para a civilização foi ótimo. A necessidade o fez criar diversas oficinas, que difundiram a tecnologia que mantinha em segredo. Em três décadas, a imprensa espalhou-se pela Europa, tornando-se o principal meio de divulgação das idéias renascentistas. Ela deu um nocaute na Idade Média.Ano 1454

Comércio religioso

Johannes Gutenberg (1397-1468) tentou sobreviver com a fabricação de suvenires de metal para a cidade alemã de Aachen, que atraía grande número de romeiros a suas igrejas. Como a empreitada não deu certo, utilizou seus conhecimentos em metalurgia para criar os tipos móveis de metal durável. Imprimiu bíblias e indulgências, “perdões” da Igreja adquiridos por pecadores ricos.Ano 1454

Duas invenções dos chineses

No outro lado do mundo, no ano 868, os chineses já imprimiam livros, cada página com uma prensa esculpida em uma talha de madeira.

Em 1041, o chinês Pi Sheng criou tipos móveis de argila cozida para imprimir em outra fantástica invenção chinesa, o papel. Como a China não era uma potência expansionista na época, as criações de Pi Sheng não tiveram o mesmo impacto das de Gutenberg quatro séculos depois.Ano 1751

Eletricidade

A aventura dos homens que domesticaram uma das forças mais poderosas e produtivas da natureza.

O político e inventor americano Benjamin Franklin (1706-1790) é tido como o descobridor da eletricidade, mas na verdade os antigos egípcios já a conheciam e até desenhavam peixes elétricos nas tumbas. É provável que tenham levado grandes sustos ao tomar contato com esses animais, capazes de dar descargas de até 450 volts, quatro vezes mais do que sai das nossas tomadas. Os gregos também registraram a força produzida pelo atrito do âmbar (uma resina vegetal) com a pele. Chamaram esse efeito de elektron.

Franklin, entretanto, deu um passo decisivo para controlar essa força da natureza. Em 1751, demonstrou que a eletricidade tinha um irmão pavoroso, os raios das tempestades. Além disso, propôs a existência de dois tipos de cargas elétricas, a positiva e a negativa, que se repelem e se atraem. Depois, criou um método para atrair a eletricidade dos raios: adaptou, no alto de um edifício, uma vareta de metal conectada por um fio à terra, por onde a energia seria descarregada. Era o pára-raios.

Animais elétricos

Mais ou menos na mesma época, o italiano Alessandro Volta (1745-1827) produziu, pela primeira vez, uma fonte prática de eletricidade, a pilha, feita de metais e ácidos. Com ela, venceu uma grande controvérsia científica com o amigo Luigi Galvani (1737-1798), que acreditava que a energia só poderia ser produzida a partir de elementos biológicos. Galvani realizava experiências cutucando infelizes sapos com hastes de metal. Na época, o debate foi tão intenso que inspirou a escritora Mary Shelley (1797-1851) a dar vida ao personagem Frankenstein por meio de descargas cósmicas dos raios.

No século seguinte, em 1831, o inglês Michael Faraday (1791-1867) descobriu a relação entre correntes elétricas e campos magnéticos e inventou o primeiro motor elétrico. Suas teorias ajudaram o americano Thomas Edison (1847-1931) a usar a eletricidade para dar forma a várias de suas 1 093 patentes. A criação mais conhecida de Edison, a lâmpada feita com filamento de carbono incandescente, recebia a corrente elétrica e iluminava por 40 horas. Um luxo. “A descoberta e o uso da eletricidade demoraram séculos, mas nossa vida, hoje, é totalmente influenciada e beneficiada por ela”, diz o físico Ernesto Hamburger, diretor do Centro de Difusão Científica da Estação Ciência, em São Paulo.Ano 1751

Inventor e político

A eletricidade não era o único tema que empolgava Benjamin Franklin (1706-1790). Além do pára-raios, ele inventou centenas de coisas, como o fogão e os óculos bifocais. Também foi um dos primeiros americanos de sucesso no ramo editorial, publicando o Almanaque do Pobre Richard, onde fez cartuns, relatos de experiências científicas e artigos. Como político, foi um dos artífices da unificação dos estados americanos.Ano 1751

A energia domesticada

O croata Nikola Tesla (1856-1943) propôs a utilização de motores com corrente elétrica alternada, aquela que corre para a frente e para trás no fio, mudando constantemente de direção. Nesse tipo de transmissão perde-se pouca energia. Dez anos depois, a corrente alternada já era usada para alimentar grandes e pequenos aparelhos, como eletrodomésticos.Ano 1751

Pilha molhada e pilha seca

Cobre, zinco, ácidos e papelão molhado foram os materiais utilizados pelo físico italiano Alessandro Volta (1745-1827) para criar a primeira pilha, em 1800. Em sua homenagem foi dado o nome volt à unidade de potencial elétrico. A primeira pilha seca surgiu em 1867, quando o engenheiro francês Georges Leclanché acrescentou farinha e gesso à mistura.Ano 1751

A mágica do dínamo

Após descobrir a relação entre correntes elétricas e campos magnéticos, fundamental para construir o primeiro motor elétrico, foi fácil para Michael Faraday (1791-1867) inventar o inverso do motor, o dínamo, que converte a força bruta de uma queda-d’água em eletricidade e alimenta cidades.Ano 1751

Chuva elétrica

O desenho de 1778 ilustra as experiências de Benjamin Franklin. Ele imaginou uma vareta de metal capaz de transferir raios elétricos, por um fio terra, para o chão. Mas, sem botas isolantes de borracha, o cavalheiro da imagem viraria pipoca numa tempestade de raios.Ano 1751

O monstro do cinema

Além de patentear 1 093 inventos, entre os quais a lâmpada elétrica, Thomas Edison (1847-1931) foi um dos precursores do cinema. Inventou o fonógrafo e o kinetoscópio, uma caixa com manivela que permitia ver imagens em seqüência. Em 1910, produziu uma das primeiras versões cinematográficas do livro da escritora inglesa Mary Shelley (1797-1851), Frankenstein. A criação do monstro foi inspirada pelo debate científico do século anterior. Muitos cientistas especularam sobre a possibilidade de a vida depender da energia elétrica.Ano 1905

Teoria da Relatividade

Ao investigar a luz, Einstein mudou radicalmente a compreensão do mundo.

Agradeça ao alemão Albert Einstein (1879-1955) toda vez que você escapa de ser esmagado pela porta de aço quando entra atrasado em um elevador. Foi ele quem explicou a propriedade de certos minerais de transformar energia luminosa em corrente elétrica – o efeito fotoelétrico. Depois dessa demonstração, inventou-se a fotocélula, um dispositivo que emite um raio de luz que, interceptado, impede a porta de se fechar enquanto alguém entra. A explicação é tão simples e prática que lhe valeu o Prêmio Nobel de Física em 1921. Einstein, entretanto, ficou famoso como gênio por algo muito mais complicado: a Teoria da Relatividade, concebida em 1905.

Justamente por ser uma teoria e lidar com abstrações como o tempo e o espaço, ela não é fácil de ser entendida e muitos cometem enganos ao tentar interpretá-la. Um dos erros comuns é afirmar que, para Einstein, “tudo era relativo”. Ele inicia sua investigação postulando que existe uma coisa absoluta: a velocidade da luz, de 300 000 quilômetros por segundo, que seria insuperável. Espaço e tempo, eles, sim, não seriam absolutos e dependeriam da posição e da velocidade de quem está olhando. Dessa forma, se uma pessoa viajar à velocidade da luz, o tempo para ela passará mais devagar e seu próprio tamanho diminuirá. Isso alterou as leis da Física de Isaac Newton (1642-1727), que considerava espaço e tempo como referências fixas, válidas para qualquer observador. “A Teoria da Relatividade é o coroamento da Física clássica, mas ela a alterou. Mudou tudo”, explica o físico José Leite Lopes, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas.

Feixes de luz

Einstein estava preocupado em explicar uma experiência de 1887 do químico

Edward Morley (1838-1923) e do físico Albert Michelson (1852-1931), ambos americanos, que lhes rendeu o Prêmio Nobel de 1907. Utilizando um prisma, eles dividiram um feixe de luz em duas partes, uma viajando no mesmo sentido da órbita da Terra e outra na perpendicular. Pela mecânica newtoniana, a velocidade da luz deveria se somar à velocidade de deslocamento da Terra e, portanto, um feixe de luz correria mais rápido que o outro. Mas o resultado, surpreendente, foi que não se detectou diferença. A explicação para isso só veio com a teoria de Einstein, segundo a qual a velocidade da luz é imutável e não pode ser ultrapassada.

Assim, se um corpo qualquer é acelerado indefinidamente, ao se aproximar da velocidade da luz ele vira energia, pois não pode ultrapassar a barreira desse limite. Vem daí a famosa equação E=mc2, onde E, energia, é igual à massa, m, multiplicada pela velocidade da luz, c, ao quadrado. Ou seja, massa e energia podem se transformar uma na outra. “Antes não se atinava com isso”, diz Leite Lopes.

Esse também foi o princípio genial utilizado para a criação da bomba atômica, onde a quebra de um átomo de urânio gera dois átomos menores que, somados, dão, para espanto geral, uma massa menor que o átomo que os gerou. A bomba quebra zilhões de átomos. A diferença de massa entre átomos quebrados e os inteiros vira energia atômica. Com ela, 1 grama de urânio pode gerar a mesma energia que 100 milhões de toneladas de carvão queimado.Ano 1905

Newton questionado

O físico inglês Isaac Newton (1642-1727) descobriu as leis da mecânica e da gravitação que Einstein subverteu. Uma experiência de 1887, feita por Edward Morley e Albert Michelson, verificou que a luz tinha a mesma velocidade quando direcionada a lugares diferentes. Segundo Newton, ao se unir com a velocidade de rotação da Terra, um feixe de luz teria que ser mais rápido do que um direcionado a outro sentido. Einstein provou que Newton errara.Ano 1905

Apoio à bomba

Einstein escreveu ao presidente americano Franklin Roosevelt (1882-1945) para defender a construção da bomba atômica. Ele temia que Hitler a fizesse antes dos americanos e, com a sua força, expandisse o nazismo para o resto do mundo. A atividade política de Einstein fez com que fosse convidado, em 1952, a ocupar a presidência do recém-criado estado de Israel. Ele recusou.Ano 1928

Antibiótico

O remédio milagroso ficou esquecido por dez anos até ser redescoberto para salvar milhões de seres humanos.

Um produto que não consta de nenhum catálogo de armas ajudou a vencer a Segunda Guerra Mundial: a penicilina. Na reta final da guerra, os Estados Unidos arregimentaram 21 laboratórios para produzir a nova droga e estancar a epidemia de infecções decorrentes de ferimentos em batalha. Em 1943, esses laboratórios produziram 400 milhões de unidades de penicilina. “Milhões de vidas foram salvas. O medicamento também permitiu tratar doenças como meningite e pneumonia”, conta Vasco Pedroso de Lima, diretor clínico do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo.

O alemão Ernst Boris Chain (1906-1979) e o australiano Howard Florey (1889-1968) foram os autores da proeza. Depois de realizar autópsias detalhadas em ratos, perceberam que a penicilina, uma substância descoberta uma década antes, sabotava a síntese das substâncias necessárias à reprodução das bactérias (veja infográfico).

Para produzir penicilina em massa, criaram novas técnicas de fermentação do milho. Assim, conseguiram selecionar fungos produtores de penicilina 500 vezes mais forte do que se conhecia. Mas, no fim, o ambiente ideal para a criação do fungo na produção industrial foi fornecido pelo suco de uma melancia podre.

Acaso

O mais incrível, porém, é que o uso clínico da penicilina só se tornou possível porque Chain descobriu, em 1938, um esquecido artigo, publicado dez anos antes pelo bacteriologista escocês Alexander Fleming (1881-1955) no British Journal of Experimental Pathology. A comunidade médica não tinha dado muita atenção a ele, mas Fleming relatara uma importante descoberta feita por acaso.

Em 1928, ele viajou deixando placas de bactérias que utilizava no laboratório destampadas. Ao voltar, reparou que havia um mofo azulado sobre elas. Já ia jogando tudo fora quando notou que o bolor provocara a morte de todas as bactérias da placa. Intuiu, então, que algum fungo raro liberara uma substância letal. Diluiu o caldo do mofo 800 vezes e verificou que, mesmo assim, as bactérias continuavam sendo destruídas. Esse fungo foi batizado de Pnicilinum notatum – o terror das bactérias.Ano 1928

Feliz acaso

Ao retornar das férias, o bacteriologista escocês Alexander Fleming (1881-1955) notou bactérias mortas em uma placa mofada. O acaso permitiu-lhe descobrir a penicilina, o primeiro antibiótico.Ano 1928

Superprodução industrial

O alemão Ernst Chain (1906-1979) usou as experiências de Fleming para produzir a penicilina em escala industrial, cuja produção pulou de 400 milhões, em 1943, para 650 bilhões de unidades em três anos. Salvou a vida de milhares de feridos na Segunda guerra Mundial. Ganhou o Prêmio Nobel de Medicina em 1945, junto com Fleming.Ano 1928

Um breque na reprodução

Veja como a penicilina age impedindo a proliferação das bactérias.

Divisão fatal

As bactérias, que em geral vivem apenas alguns dias, se auto-reproduzem por divisão.

Estraga-prazeres

A penicilina se mistura com o açúcar e impede que ele aja na membrana da bactéria, bloqueando a divisão. Desse jeito provoca a morte da colônia e o fim da infecção.

Doce necessário

Para se dividir, precisam fortalecer as próprias membranas com um açúcar produzido por elas mesmas. A membrana se estica até que as duas metades da bactéria se separam.Ano 1946

Computador

Cada vez menor, a máquina bolada durante a Segunda Guerra ganha o mundo, Agora, plugada na Internet, ela quer se instalar em todos os objetos.

De 1946, quando o Eniac, o primeiro computador, acendeu suas 18 000 válvulas, até o ano 2000, a Informática terá existido por apenas 1,8% do tempo histórico do milênio. Mas as mudanças que provocou são enormes. A máquina, desenvolvida para servir um projeto militar de decifração de códigos de guerra, está virando unanimidade.

O que faz do computador uma máquina popular é uma sucessão de invenções acumuladas por gerações de cientistas. Para entendê-la, basta imaginar que ela é apenas uma sofisticada chave de liga e desliga que opera com uma linguagem – o código binário – capaz de entender apenas dois números, o zero e o um.

A raiz dessa linguagem surgiu quando o matemático inglês George Boole (1815-1864) reduziu, em 1854, todas as operações da lógica a proposições simples como e, ou, sim, não, verdadeiro, falso. A transposição dessas operações para a máquina começou com a invenção da válvula, em 1906, e do seu sucessor, o transistor, em 1948. Eles possibilitaram a coordenação dos sinais elétricos que conduzem as informações binárias.

Coube ao matemático húngaro John von Neumann (1903-1957) a tarefa de organizar essas peças em complexos eletrônicos chamados de processadores. Neumann especificou que o computador deveria ter uma unidade central de processamento, a memória de trabalho, dispositivos de entrada (o teclado) e de saída (o monitor). Dessa forma, criou as regras para a elaboração dos programas.

Por fim, surgiram aplicativos como processadores de texto, planilhas e bancos de dados. O americano Bill Gates, hoje o homem mais rico do planeta, foi o primeiro a adaptar o sistema operacional, o DOS, para microcomputadores pessoais. Converteu-os em eletrodomésticos.

Internet

Depois, veio a Internet. Em 1969 ela já existia em embrião no Arpanet, um projeto militar americano destinado a garantir as comunicações no caso de uma guerra nuclear. Três anos mais tarde, um pesquisador da Universidade de Stanford, Vinton Cerf, unificou a comunicação entre computadores criando um sistema operacional de rede e de endereçamento, o TCP/IP, que funciona como uma espécie de CEP de cada máquina. Afinal, em 1989, o engenheiro Tim Berners-Lee, da Universidade de Oxford, criou a linguagem html, popularizando o hipertexto, ou seja, o texto (ou imagem) que chama um outro, permitindo pular de arquivo automaticamente.

Surgiu, então, uma mania global. “A Internet criou novas formas de relacionamento entre as pessoas. Abriu uma via de comunicação e que você não busca informação apenas, mas fornece”, define o engenheiro Demi Getschko, do Comitê Gestor da Internet no Brasil. “Qualquer cidadão, hoje, pode colocar informações na rede ao alcance de todos.”Ano 1946

Perfurador de cartôes

Em 1890, o americano Herman Hollerith (1860-1929) criou a máquina tabuladora, a primeira a codificar dados em cartões perfurados. Seu sistema mecânico vigorou até 1946. Foi o precursor do computador.Ano 1946

Da guerra para a paz

A Internet começou como um projeto militar secreto para interligar centros de pesquisa e bases militares americanas. Mas foi quando o engenheiro americano Tim Berners-Lee criou para ela uma linguagem prática, a html, permitindo acessar um arquivo dentro de outro, que a rede se tornou um instrumento de pesquisa inestimável. Hoje, cada vez mais popular, ela liga mais de 200 milhões de internautas no mundo todo.Ano 1946

Como funciona um computador

A rota de informação digitalizada é organizada por um ímã.

Ao apertar uma tecla, fecha-se um circuito elétrico sob o teclado. Cada tecla emite um sinal, traduzido por um chip em um número binário. A tecla G, por exemplo, é o código 1000111.

Esse dado vai para o processador, que comanda operações como gravar ou enviar a um modem.

Para ser gravado, o dado vai para uma cabeça magnética que age em quatro etapas.

A) Primeiro, ela organiza as partículas de ferro que existem dispersas na superfície do disco rígido em faixas polarizadas. Age como ímã.

B) Cada duas faixas juntadas representam 1 bit. Se estão em direções opostas, indicam 1. Se ficam alinhadas na mesma direção indicam 0.

C) A ilustração mostra dois bits codificados, 0 e 1. Nesse ponto, a informação já está salva para uso posterior.

D) À medida que a cabeça de leitura avança pelo disco, os caracteres vão se formando e compondo um arquivo.Ano 1953

DNA

Uma disputa desleal marcou a descoberta da molécula mensageira do código da criação humana.

A melhor resposta oferecida pela Ciência à dúvida que assola a humanidade desde sempre – de onde e como surgiram os seres humanos – apareceu em meio a uma competição feroz entre cientistas. A estrutura do DNA (o ácido desoxirribonucléico), a molécula portadora de informações genéticas, foi revelada ilicitamente.

Em 1950, o biólogo americano James Watson e o físico inglês Francis Crick disputavam a decifração da estrutura do DNA com o químico americano Linus Pauling (1901-1994), Prêmio Nobel de Química em 1954. Eles desconfiavam que o DNA tinha uma forma espiral. Pauling acreditava que sua estrutura era uma espiral tripla. O formato da molécula revelaria como suas partes se encaixam e transmitem informações.

Raios X

A solução caiu do céu quando o pesquisador neozelandês Maurice Wilkins contou a Watson sobre as pesquisas com Raios x da inglesa Rosalind Franklin (1920-1958). Ela trabalhava no mesmo laboratório de Wilkins, em Londres, e descobrira, em 1952, que o DNA era uma fita dupla, não tripla. Em 1953, Watson e Crick anunciaram a estrutura dupla. Rosalind foi excluída. Sua morte prematura poupou o Comitê do Nobel da controvérsia quando os três, Watson, Crick e Wilkins, ganharam o Nobel de Química de 1962.

O DNA acabou com o delírio sobre a origem da vida. Até 1866, acreditava-se que ela resultava da mistura de fluidos, como o sangue. Foi o padre austríaco Johan Mendel (1822-1884) que sugeriu – depois de cruzar ervilhas – que ela se transmitia por partículas. Em 1944, o bacteriologista americano Oswald Avery (1877-1955) conseguiu isolar moléculas do DNA e proteínas nas células. Uma delas teria que ser a portadora das informações hereditárias. Em 1952, o químico americano Alfred Hershey (1908-1997) matou a charada etiquetando radioativamente moléculas de DNA e proteínas e observando sua reprodução. Aí, comprovou que o ácido era o mensageiro do código humano. “O DNA abriu a genética como uma chave mágica. Ele é uma unidade bioquímica passível de manejo”, afirma o geneticista Oswaldo Frota Pessoa. “O homem pode manipular sua molécula matriz.”Ano 1953

Mensageiro dos deuses

A espiral dupla do DNA armazena toda a informação genética dos seres vivos em duas fitas enroladas nos cromossomos, dentro dos núcleos das células. Cada fita, de 2 metros de comprimento, contém 4 bilhões de pares de bases, as letras do alfabeto genético. A combinação delas ativa todas as substâncias necessárias ao funcionamento do organismo.Ano 1953

Problemas políticos

O americano Linus Pauling (1901-1994) quase descobriu a estrutura do DNA. Ele foi impedido de trocar dados com a inglesa Rosalind Franklin, que já identificara a forma da molécula. Seu passaporte fora cassado pelo governo americano em represália à sua militância contra a bomba atômica.Ano 1953

Contribuição quase anônima

O trabalho da inglesa Rosalind Franklin (1920-1958) foi usado, sem crédito, por James Watson, Francis Crick e Maurice Wilkins para anunciar a descoberta da estrutura do DNA. Watson admitiu o fato em uma biografia.Ano 1969

Viagem à Lua

A Guerra Fria foi horrível, mas produziu a conquista do satélite da Terra.

Os americanos vibraram quando os astronautas Neil Armstrong e Edwin Aldrin desceram da nave Apollo XI para passear pela primeira vez na superfície da Lua, no dia 20 de julho de 1969. Desde que a corrida espacial começara, a então União Soviética estava na frente. Os soviéticos lançaram o primeiro satélite artificial, o Sputnik, em 1957; enviaram o primeiro astronauta, Yuri Gagarin, ao espaço, em 1961; e lançaram a primeira nave com mais de um tripulante, a Voskhod, em 1964. Depois de 1969, entretanto, uma vez derrotados na competição pela Lua, os soviéticos simplesmente desistiram dela. Por isso, em 1972, os americanos também suspenderam as missões e o silêncio eterno voltou a reinar no astro.

Entretanto, a saga tecnológica que ela estimulou virou um moto-perpétuo. A agência espacial americana, a Nasa, chegou a empregar 36 000 cientistas e funcionários. “Seu orçamento, hoje, é de 30 bilhões de dólares por ano”, diz o diretor da Agência Espacial Brasileira, Eduardo Barcelos. Esse investimento já gerou inúmeros subprodutos tecnológicos, como o fecho velcro, os aparelhos de monitoramento que salvam corações nas UTIs ou lentes de óculos antiarranhão.

A Lua escancarou o horizonte humano. A viagem revelou informações geológicas de primeira mão do satélite e dados inéditos sobre a dinâmica da formação dos planetas. A indústria aeroespacial que a Lua atraiu já construiu ônibus espaciais reutilizáveis, enviou sondas a todos os planetas do sistema solar (com exceção de Plutão) e agora está montando estações orbitais. O telescópio espacial Hubble mostrou segredos do universo que o homem nem sequer sonhava. “Viajar à Lua foi como retomar a era das grandes explorações”, diz Barcelos. Ela dilatou a nossa imaginação.Ano 1969

Agente duplo

O físico alemão Werner von Braun (1912-1977), criador dos V-2, os mísseis de longo alcance que aterrorizaram Londres na Segunda Guerra Mundial, também foi o responsável pelo sucesso americano na corrida espacial. Braun foi recrutado pelo governo americano em 1958 para dirigir o lançamento do satélite Explorer 1.

Corrida à Lua

Depois de perder durante doze anos para a União Soviética (URSS), os Estados Unidos (EUA) acabaram chegando primeiro.

Outubro de 1957

Os soviéticos lançam o satélite artificial Sputnik. No mesmo ano, a cadela Laika é posta em órbita.

Janeiro de 1958

Os americanos lançam o satélite Explorer 1.

Abril de 1961

Yuri Gagarin sobe ao espaço na nave Vostok 1.

Fevereiro de 1962

John Glenn pilota a primeira cápsula orbital tripulada dos EUA, a Mercury 6.

Outubro de 1964

A URSS lança a Voskhod 1, com mais de um tripulante.

Março de 1965

Os americanos lançam uma nave com dois astronautas, a Gemini 3.

1969

Os soviéticos lançam cinco modelos Soyouz, preparando-se para chegar à Lua.

Julho de 1969

Neil Armstrong, Edwin Aldrin e Michael Colins chegam à lua com a Apollo XI.

A pegada histórica de Neil Armstrong no satélite.Ano 1997

Clonagem

Há uma receita para transformar a natureza e planejar as próximas gerações?

No dia 7 de fevereiro de 1997 o mundo espantou-se com um artigo publicado na revista Nature que anunciava o nascimento de uma ovelha clonada. Dolly foi o primeiro animal gerado a partir de células adultas de um mamífero, no caso células mamárias de sua mãe, uma ovelha de 6 anos de idade. O escocês Ian Wilmut, de 49 anos, ganhou notoriedade e o feito abriu as portas para a maior controvérsia científica deste fim de milênio. Pode o ser humano clonar-se a si mesmo? Isso é ético? Estamos brincando de Deus? E se algum governo decidir clonar exércitos de soldados?

Wilmut já advertiu que a cópia de um ser humano nunca será idêntica, pois a personalidade está escrita apenas em parte nos genes. Ele considera imoral a clonagem humana e defende sua utilização apenas para obter rebanhos de alta qualidade, produzir células programadas para tratar de doenças ou gerar órgãos. Imagine um leite de vaca que imunize contra a gripe ou um porco capaz de doar sangue, insulina e órgãos a seres humanos. “O impacto da clonagem será materializar tecidos e órgãos para transplantes”, diz a geneticista Mayana Zatz, da Universidade de São Paulo.

Sapos e vacas

A primeira clonagem de animais complexos ocorreu com sapos, em 1952, mas não usou células de adultos, e sim de embriões, isolados pelo geneticista Robert McKinnel. Na década de 80, houve progresso: o dinamarquês Steen Willasden produziu cinco bezerros idênticos, transferindo o material genético diretamente para o núcleo de óvulos de vacas. Mas as células ainda eram embrionárias.

Já a técnica inovadora de Wilmut faz recuar o relógio biológico das células. Quando elas são maduras, especializam-se em produzir órgãos específicos (rins, pele, nariz). Para isso, a natureza tranca o mecanismo que lhes permitiria gerar um ser inteiro, capacidade que possuíam quando eram embrionárias. Wilmut reativou-a. Ele deixou as células da mãe de Dolly em estágio de inanição, alimentando-as durante uma semana só com o necessário para que não morressem. Nessa situação, a célula desliga todos os genes, exceto os vitais. Aí, inseriu esse material genético em um óvulo vazio e alimentou-o. Então, a nova célula voltou a se reproduzir.

A possibilidade de clonar gente ficou mais perto. Mas nada assegura que seja possível. “Acho que está fora de questão por motivos éticos e morais”, diz Mayana Zatz. Para animais e plantas, no entanto, as perspectivas parecem ser quase inesgotáveis.Ano 1997

Animais transgênicos

Em 1978, o biólogo americano John Clark inaugurou a era dos clones transgênicos. Ele desenvolveu animais com características não existentes na natureza. Tracy, a primeira ovelha dessa espécie, recebeu o gene humano produtor da proteína que estimula o processo de cicatrização. Cada litro do seu leite possuía 35 gramas da proteína cicatrizante.Ano 1997

A ciência vilã

A literatura e o cinema detestam a clonagem. Ela sempre aparece perpetrada por gente com péssimas intenções. No filme Gattaca (1998) e no livro Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (1932), ela é o cinzel de uma sociedade ditatorial. Em Jurassic Park (1993) é manipulada por um empresário para ressuscitar feras pré-históricas (foto). Em Os Meninos do Brasil, livro de Ira Levin transformado em filme em 1978, serve para ressuscitar o ditador Adolf Hitler. Maus sinais.