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A criação do mundo

Todos os livros sagrados têm uma resposta sobre a natureza e a origem do Universo. Por que isso é tão importante para as religiões?

Por 30 jun 2008, 22h00 | Atualizado em 31 out 2016, 18h34
  • Texto Tarso Araújo

    No começo, era o nada. Então alguém resolveu contar a origem de tudo. E assim nasceu a tentativa do homem de explicar a origem do Universo. As civilizações mais antigas já tinham essa questão existencial. E as religiões, preocupadas em dar respostas a seus fiéis, não poderiam deixar de formular suas respostas. “Como surgiu tudo? Como é a origem do planeta, das coisas, do homem? Essas são as primeiras perguntas que o homem faz a si mesmo. Sejam indígenas, africanas, orientais, grandes ou pequenas, novas ou antigas, todas as religiões terão respostas para isso”, diz o teólogo da PUC-SP, Rafael Rodrigues, especialista no Antigo Testamento, que começa com a narrativa do livro do Gênese.

    Na falta de referências, os homens costumam usar como matéria-prima dos mitos o mundo real para responder essas perguntas transcendentais. Por isso, a cosmologia de cada grupo social é um reflexo da cultura e do momento histórico de quem a inventa. “Os mitos colocam o que é mais importante na cultura local com uma importância proporcional nos mitos de criação”, diz Rodrigues. Logo o sol e a água, essenciais para a produção agrícola e a sobrevivência, sempre ocuparam lugar de destaque na mitologia das civilizações antigas. Muitas histórias sobre a origem do mundo começam contando como esses recursos foram criados ou controlados pelo homem.

    Segundo a mitologia iorubá, no início dos tempos havia dois mundos: Orum, espaço sagrado dos orixás, e Aiyê, que seria dos homens, feito apenas de caos e água. Por ordem de Olorum, o deus supremo, o orixá Oduduá veio à Terra trazendo uma cabaça com ingredientes especiais, entre eles a terra escura que jogaria sobre o oceano para garantir morada e sustento aos homens. Para a tradição religiosa chinesa, o caos inicial era como um ovo no qual entraram em equilíbrio os princípios opostos, yin e yang. Desse equilíbrio nasceu Pangu, gigante de cujo corpo se formou a água, a terra e o Sol.

    Às vezes os mitos de criação são verdadeiros tratados políticos de sua época. “Só compreendemos o 1º capítulo do Gênese se entendemos a catástrofe dos povos que o escreveram”, diz Rodrigues. A cosmologia judaico-cristã foi escrita por povos dos antigos territórios de Israel e Judá, levados à força para a Babilônia, onde pagavam tributos. “Quando dizem que ‘antes a terra estava vazia e sem forma’, eles não se referem ao planeta, mas ao território deles, que ficou devastado e abandonado após a invasão dos povos assírios.” A ordem de criação das coisas no mito é uma provocação ao poder local. A primeira frase dop Gênese diz que Deus fez a luz. Só no 4º dia Ele criaria o Sol, contrariando a cosmologia dos opressores babilônios, para quem Marduk, o Sol, era o deus supremo e criador de todas as coisas, inclusive da luz.

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    Ainda contando a tragédia dos povos de Israel e Judá, os capítulos 2 e 3 do Gênese mostram o que acontece quando um camponês perde aquilo que é mais primordial para sua sobrevivência: a horta. “O sentido da palavra que traduzimos para jardim, em hebraico, é horta”, diz Rodrigues. Ao ser expulso do Éden e perdê-la, Adão comerá “o pão com o suor do rosto” e Eva sentirá aumentar “as dores do parto” porquê, em vez de ter filhos de 7 em 7 anos, como era o hábito, terá de engravidar mais vezes para o casal ter mais filhos e mão-de-obra. Trabalhando para os babilônios, eles precisavam produzir mais para pagar impostos. “O mito nasce como uma crítica ao sistema produtivo da época. É um texto antitributarista”, afirma Rodrigues.

    A versão de quem lê

    A cosmologia das religiões geralmente é elaborada a partir de mitos mais antigos. Ao se apropriar deles, elas se alimentam do mito e ao mesmo tempo o fortalecem. Afinal, elas transformam as lendas em algo mais que a realidade: a verdade de Deus. E é nesse processo de assimilação que geralmente os mitos são organizados em livros sagrados, quando também entram em jogo as interpretações e tradições orais e escritas que vão orientar sua leitura pelos fiéis.

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    Os mitos do Gênese, por exemplo, foram escritos entre os séculos 8 e 5 a.C., mas a organização deles numa Torá só começaria no século 2 a.C. Nessa época, é provável que o texto tenha sofrido mudanças e adaptações, segundo os ideais do judaísmo nascente. A própria escolha dos textos também obedece os critérios da religião que o organiza, como aconteceria com o Novo Testamento, no início do cristianismo.

    Mesmo fora dos livros sagrados, as tradições e interpretações dos mitos de criação fundamentam valores, regras morais e de comportamento para seus seguidores. “Há textos rabínicos que interpretam cada linha do Gênese para mostrar que a mulher não pode dar testemunho em público. Porque, quando ela tomou alguma decisão, levou o homem ao erro e ao pecado. A partir daí aparece toda a questão da sujeição da mulher”, diz Rodrigues. As tradições construídas a partir do texto às vezes se tornam mais fortes no imaginário do que os originais. Quando lembramos de Adão e Eva no paraíso, é comum pensarmos na maçã, como retratado na imagem da página anterior. Apesar de a palavra maçã não aparecer no texto do Gênese.

    A cosmologia do hinduísmo também explica, além da origem do mundo, sua organização social. Segundo os Vedas, 3 divindades são responsáveis pelos ciclos de criação e destruição do Universo: Brahma cria, Vishnu preserva e Shiva o destrói para que o ciclo recomece. Para criar o mundo e os humanos, Brahma fez dois deuses de si: Gayatri e Purusha, o homem cósmico de onde foram feitas todas as coisas. Mas, enquanto alguns homens nasceram da boca de Purusha, e se tornaram sacerdotes, outros nasceram dos pés, e se tornaram os escravos da sociedade indiana.

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    O exemplo da sociedade hindu é apenas mais um exemplo de como os mitos sobre a criação do Universo fazem bem mais que resolver questões existenciais ao estabelecer relações de poder e detalhar códigos de conduta. O que faz deles ferramentas importantes para a coesão social, como parte indispensável da cultura e da identidade de um povo.

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