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A verdade sobre Gladiador

Máximo, o herói da superprodução que levou o Oscar, jamais existiu. Cômodo lutava mesmo no Coliseu e Marco Aurélio foi um dos monarcas mais sábios da história

Max Gehringer

Em 1945, após oito longos anos de conflitos, a Segunda Guerra Mundial entrava na fase dos combates decisivos. E, como era de se esperar, os nervos do mundo inteiro andavam à flor da pele e qualquer descuido podia provocar um incidente diplomático, ou até mesmo deflagrar um novo qüiproquó de proporções alarmantes. Foi nesse cenário de extrema sensibilidade que um estúdio de cinema americano, a Warner Brothers, lançou um dos melhores filmes de guerra feitos até hoje: Objetivo Burma. Estrelado por Errol Flynn (o Russell Crowe dos anos 40, já que era um ator do outro lado do mundo, “importado” por Hollywood – Flynn era australiano, Crowe é neozelandês), o filme transportava para a tela um episódio real ocorrido na selva asiática dois anos antes: um sangrento combate entre pára-quedistas aliados e soldados japoneses.

No filme, um oficial do Exército dos Estados Unidos – interpretado por Flynn – consegue traçar um plano de combate perfeito para surpreender os japoneses, mesmo dispondo de informações imprecisas e insuficientes. Depois, ele mesmo treina os pára-quedistas para executarem o plano, e, por fim, ainda lidera heroicamente a tropa no ataque decisivo. O filme foi aplaudido em todos os países do mundo (menos, é claro, no Japão, e em seus parceiros de escaramuças, a Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini).

Mas Objetivo Burma foi também execrado na Inglaterra, a grande aliada dos americanos na guerra. Seria porque a atuação dos atores não estava à altura dos padrões shakespeareanos do teatro britânico? Pode até ser, mas o motivo foi outro: toda a operação militar de Burma tinha sido planejada e executada por oficiais e soldados britânicos. Os poucos americanos presentes no campo de batalha estavam lá apenas como observadores, sem direito a palpite. Depois de assistirem ao filme, os enfurecidos ingleses já estavam pensando em declarar guerra aos Estados Unidos, mas antes resolveram perguntar que piada de mau gosto tinha sido aquela. A resposta veio via Hollywood – e se tornaria tão clássica quanto o filme: “Cinema não é para ensinar história, é para divertir a platéia”.

That’s entertainment – isso é entretenimento – é a frase que, desde então, vem permitindo a Hollywood torcer e distorcer a história e adaptá-la ao gosto do freguês. Vale tudo, desde que o espectador se divirta enquanto esvazia seu saco de pipoca. Algumas vezes, como no caso do Titanic, um casal fictício é plantado no centro de um evento real. Outras, como em Gladiador, a história é simplesmente reinventada. Personagens que nunca se encontraram são colocados frente a frente; fatos que nunca ocorreram são adicionados ao roteiro; e tudo isso é embrulhado em cenários fielmente recriados e situações que realmente aconteceram. Mas onde acaba a realidade e onde começa a ficção? Bom, isso é exatamente o que Hollywood faz questão de não dizer. Se disser, o entretenimento acaba.

Essa foi a receita de Gladiador, filme que amealhou cinco Oscar este ano, entre os quais o de Melhor Filme e Melhor Ator, para Russell Crowe. Colocar no Coliseu romano um imperador maníaco e um ex-general transformado em escravo, prontos para resolver suas diferenças numa luta de vida ou morte, é entretenimento puro. É nesse momento crucial do filme que toda a platéia prende a respiração, menos aquele casal cochichando na décima fila:

– Que coisa, não, Andréia? O imperador Cômodo encarou, no mano a mano, um especialista em matanças. Eu sabia que os imperadores romanos eram meio loucos, mas nunca pensei que eles fossem tão idiotas.

– Cale a boca e assiste o filme, Fagundes. E passa a pipoca.

É só depois de o filme terminar que os freqüentadores acordam para a realidade, e aí os comentários ganham mais profundidade:

– Quer dizer que o cara tinha um caso com a irmã dele?

(leitor da Playboy)

– O Russel Crowe é lindo! (leitora da Capricho)

– Tirando o Coliseu, o resto é tudo inventado! (executivo cético, sem tempo para ler)

– Será? Vou procurar na internet… (leitor da Super)

Ao pesquisar, o leitor da Super, obviamente o mais atilado de todos, descobrirá que a maioria dos principais personagens do filme existiu de verdade, com exceção de um, e justo o mais importante de todos: Máximo, o gladiador. Mas a inspiração para rodar um filme sobre gladiadores e imperadores romanos não veio apenas da história. Veio do sucesso de bilheteria de dois outros filmes anteriores:

Spartacus (1960), do diretor Stanley Kubrick. É a história de um gladiador que ganha fama por sua habilidade, mas logo se rebela e lidera uma revolução de escravos contra Roma. Interpretado por Kirk Douglas, Spartacus realmente existiu, e foi executado pelos romanos em 71 a.C. Três personagens fictícios foram “emprestados” do filme de Kubrick: o negro africano que se torna amigo de Spartacus, Draba (que virou Juba em Gladiador); seu senhor, um déspota de bom coração, Batiato (agora rebatizado de Próximo); e o cínico senador Graco, que enxerga Roma como ela realmente é, bela e corrupta (neste caso, até o nome foi mantido, embora não haja registros da existência da figura).

Calígula (1980), dirigido por Tinto Brass. Calígula é um demente apaixonado por sua irmã, Drusila, e assassina o tio, Tibério, para se tornar imperador. Dele veio a idéia para a ascensão de Cômodo ao poder em Gladiador. Quanto ao filme Calígula, antes de começar a ser exibido foi totalmente reeditado e, infelizmente (ou não), se transformou em um clássico pornô, para desgosto de seu roteirista, Gore Vidal, e de seus principais atores, entre eles figurinhas carimbadas como Peter O’Toole e Sir John Gielgud.

Com esses ingredientes, que já lhe davam uma razoável massa para o bolo, faltava ao diretor Ridley Scott adicionar apenas o fermento histórico para fazê-lo crescer e encher a tela. Como o Gladiador custou 107 milhões de dólares para ser produzido (mais que o orçamento anual do Império Romano), não há dúvida de que uma verbazinha foi aplicada na pesquisa histórica. Os pesquisadores desenterraram que César Marco Aurélio Antonino Augusto (Marco Aurélio para os íntimos, que eram bem poucos), foi imperador romano durante 19 anos (veja quadro à página 88). Além de realmente estar presente nas batalhas, ele achava tempo para escrever sobre filosofia (no que foi bem-sucedido, tanto que uma obra sua, Meditações, resistiu ao tempo). E também para tentar dar uma boa educação às filhas (entre elas, Lucila) e ao único filho homem, Cômodo (aí já não teve tanto sucesso). Marco Aurélio morreu em 180 d.C., vitimado por uma dessas pestes que eram comuns há 2 000 anos.

A epidemia foi trazida pelos próprios soldados do imperador, no regresso de uma campanha militar, em que, como se sabe, “higiene” não era exatamente uma das prioridades. Cômodo, como se verá a seguir, também era uma peste. Mas pelo menos ele não assassinou o pai.

Cômodo recebeu o título de César já aos 5 anos de idade, o que equivalia a uma pré-nomeação para governar o mundo. Aos 17 anos, foi empossado co-imperador e reinou em conjunto com o pai Marco Aurélio durante três anos. Com a morte do pai, Cômodo assumiu o poder e pelos 12 anos seguintes (bem mais do que no filme) mandou e desmandou em Roma. No poder, ele se revelaria um megalomaníaco de marca maior. Tentou, entre outras coisas, mudar o nome de Roma para Comodônia, e substituir os nomes dos meses do ano pelos seus próprios – o que quase enchia um semestre, porque ele chamava César Marco Aurélio Cômodo Antonino Augusto – e pelos títulos honoríficos que recebia do Senado romano, como Invicto, Félix e Pio.

Além disso, Cômodo era um pervertido sexual – o que parece ter sido o hobby de muitos imperadores romanos – e morreu em 192 d.C., estrangulado por um de seus protegidos, um atleta chamado Narciso Mérida. Aliás, no primeiro rascunho do filme Gladiador, o personagem Máximo era chamado de Narciso. A preferência por Máximo Décimo Merídio foi bem hollywoodiana: quem iria torcer por um herói chamado Narciso Mérida? Porém, o que parece mais improvável no filme é mesmo verdade: Cômodo fazia suas estripulias na arena do Coliseu, matando feras e enfrentando gladiadores, embora haja sérias dúvidas quanto à qualidade e à motivação dos oponentes que eram escalados para medir forças com o imperador.

É verdade que Lucila, a irmã mais velha de Cômodo, o detestava até a raiz dos cabelos, e já no segundo ano de mandato do irmão armou uma conspiração para assassiná-lo. Mas a Lucila real teve bem menos sorte que a do filme: Cômodo a deportou para a ilha italiana de Capri, perto de Nápoles, e logo depois ordenou que ela fosse executada. Que família!

Lucila era, de fato, casada com Lúcio Vero, 30 anos mais velho que ela, pai do garotinho que aparece no filme. O interessante é que Lúcio não era um césar-ninguém: era co-imperador, junto com Marco Aurélio. Foi a primeira vez, na história do Império Romano, que isso aconteceu – a criação da dupla de governantes era uma tentativa do ilustrado Marco Aurélio de reduzir os poderes absolutistas do líder único. Mas quem mandava era ele mesmo, por isso a turma de Hollywood, ao perceber que Lúcio Vero não ia dar muito ibope, decidiu eliminá-lo da trama.

Mas de onde vieram os gladiadores que dão nome ao filme? Bom, a palavra em si veio de gladius, “espada” em latim. E os duelos para ver quem era o melhor, o mais forte, ou o mais capacitado a sobreviver, vêm desde os tempos em que ainda andávamos de quatro pela Terra. Foram os gregos, há mais de 3 000 anos, que oficializaram os combates armados como uma espécie de diversão pública e deram origem aos Jogos Olímpicos atuais.

Os romanos barbarizaram o que antes era só um esporte ao obrigar os contendores a lutar não só pela glória, mas pela vida .A teoria dos organizadores era maquiavélica: enquanto o povo estivesse ocupado vendo combates sangrentos não se preocuparia com outras coisas, como com uma revolução. No início, os gladiadores eram soldados condenados à morte, normalmente por traição ou deserção. Em vez de executá-los, os imperadores tiveram a idéia de deixar que eles se executassem, o que ainda tinha a vantagem de divertir o público. (Você lembra: that’s entertainment. A máxima já valia milênios antes de escreverem Hollywood num morro da Califórnia.) Depois, na medida em que o interesse das multidões foi crescendo, os senhores abastados começaram a sair pelas cidades à procura de escravos fortes e com bom potencial para comprar. Eles eram então treinados por profissionais do ramo e seu sucesso na arena rendia para o proprietário um razoável retorno sobre o investimento inicial.

O Coliseu de Roma (coliseum é “colossal” em latim) é um personagem à parte, no filme e na história. Construído entre 79 e 100 d.C, é uma elipse de 188 por 156 metros, com 49 metros de altura. Com uma arena de 86 por 54 metros, tem mais ou menos o tamanho de um campo de futebol oficial. O Coliseu foi feito com o propósito de alojar uma enorme quantidade de pessoas, algo como 50 000, e a carnificina – apelidada com o eufemismo de “jogos” – não somente era diária, mas durava de sol a sol. Quer dizer, a qualquer dia, e a qualquer hora, quem fosse ao Coliseu veria algum espetáculo. Com entrada grátis. A reconstituição arquitetônica do monumento no filme é exemplar, e sua importância é antecipada no diálogo em que Próximo, o personagem interpretado por Oliver Reed, anuncia a Máximo que, após cinco anos montando arenas mambembes para espetáculos de gladiadores em cidades infestadas de pulgas, eles finalmente poderão ir para onde sempre mereceram estar.

E aí, vai até a janela, encara o horizonte, toma um longo fôlego e diz, emocionado:

– O Coliseu!

É até perdoável que Oliver Reed tenha falado tudo isso em inglês, apesar de a língua ainda não existir naquela época. Afinal, com os cronogramas de filmagem apertados como são, não sobra tempo para os atores aprenderem latim. Mas, se Próximo chegasse a Roma e perguntasse onde ficava o Coliseu, nenhum romano conseguiria lhe dar a informação, apesar de ele estar à procura do maior edifício da cidade. É que o nome “Coliseu” só apareceria mais de 1 000 anos depois. Na época de Marco Aurélio e Cômodo, o estádio era chamado de Anfiteatro Flaviano.

Por fim, uma curiosidade: SPQR, a sigla tatuada que Máximo raspa do braço quando decide levar mais a sério a carreira de gladiador, significa “para o Senado e o Povo de Roma” – Senatus Popules Que Romanus, em latim. Hoje, em Roma, vêem-se as letrinhas impressas nas tampas de bueiro. Máximo tinha a tatuagem porque pertencia a uma classe inferior, a dos soldados. O que quer dizer que gente fina não se tatuava no tempo dos romanos, só a ralé. E é daí que surgiu uma expressão usada até hoje, “fulano carrega um estigma”. A palavra latina para tatuagem era stigma.

Pancadaria com regras

O combate dos gladiadores não era um vale-tudo. Havia regras rígidas

Dimachaeri

Um gladiador não podia escolher a arma que quisesse. Cada um deles pertencia a uma classe e era obrigado a usar armamentos e proteções específicos. Havia, por exemplo, a classe dos oplomachus, armados com uma espada curta chamada gládio; a dos thraces, que tinham um escudo redondo e uma espada curva; e a dos andabatae, que montavam um cavalo e tinham os olhos vendados. Este gladiador à esquerda é um dimachaeri, que quer dizer “homem de duas facas”

Secutor

Máximo pertencia à classe dos secutores, atletas armados de punhal. O filme erra ao colocá-lo em confronto com um dimachaeri. Um secutor enfrentava sempre um retiarius, gladiador que portava uma rede e imobilizava o adversário com ela, para depois matá-lo com um tridente. Outra falha foi retratar o herói com um escudo redondo. Os secutores usavam escudos retangulares. Essas regras rígidas visavam aumentar o equilíbrio da luta. Dessa forma, os duelos opunham sempre uma dupla de combatentes – não havia shows com dezenas de pessoas brigando, como os retratados no filme. Ou seja, os verdadeiros combates provavelmente eram bem menos interessantes que os que animaram as telas de cinema

O imperador-filósofo

Marco Aurélio, retratado no filme em seus últimos dias, era um amante das idéias e escreveu uma obra de reflexões que ficou para a posteridade

No final de Gladiador, o herói Máximo atravessa a garganta do imperador Cômodo com um punhal (ops, você ainda não tinha visto o filme? Desculpe, contei como acaba…). Nesse momento, ele sussurra para o vilão: “Sorria para a morte”. A frase não é de autoria de algum roteirista de Hollywood. Ela nasceu da pena do imperador Marco Aurélio, pai de Cômodo, filósofo e personagem da parte inicial do filme.

Líder do Império entre 161 e 180, Marco assumiu o trono numa época de prosperidade e estabilidade. Em 167, ele saiu de Roma e liderou pessoalmente uma expedição de cinco anos pelo norte, cujo objetivo era punir as tribos germânicas que estavam causando problemas na fronteira. A história oficial do império registrou seu nome como o de um grande imperador, enquanto seu filho e sucessor, Cômodo, teria sido um crápula incompetente. A verdade é que os altos gastos militares de Marco talvez tenham sido a causa da crise econômica na qual Roma mergulhou no governo seguinte – e da qual só se recuperaria meio século depois.

As más línguas dizem que Cômodo era um filho ilegítimo. “Existe o boato de que a rainha Faustina teve uma aventura com um gladiador e que o futuro imperador era fruto dessa relação”, diz a historiadora clássica Maria Luiza Corassin, da Universidade de São Paulo. Esse detalhe, surpreendentemente omitido no filme, talvez explicasse a fascinação que os jogos de gladiadores exerciam sobre Cômodo.

Marco Aurélio era seguidor da filosofia estóica, que pregava que os homens são absolutamente responsáveis por si próprios e que não há vida após a morte. Isso fez com que ele impusesse para si regras de conduta absolutamente rígidas – algo surpreendente num tempo em que os poderosos eram dados a orgias e uma vida desregrada. Durante a campanha militar na Germânia, Marco Aurélio anotou os seus pensamentos sobre a política e a vida. Não está claro se esses textos eram um diário escrito para si próprio ou se o imperador pretendia divulgá-los. O fato é que as Meditações foram reunidas, publicadas e inspiraram gerações com suas pérolas de sabedoria estóica. Veja abaixo alguns trechos:

“Ocupa-te de pouco para viveres satisfeito. Se eliminarmos a maior parte de nossas palavras e ações, não farão falta, e nos sobrarão mais lazeres e sossego. Deves, por isso, de cada vez, lembrar a ti mesmo: Não será isto uma das coisas dispensáveis?”

“Tudo é passageiro, logo se torna lendário, logo o esquecimento completo o sepulta.”

“Pensa constantemente em quantos médicos morreram, depois de tantas vezes carregarem os sobrolhos à cabeceira dos enfermos; quantos astrólogos, depois de predizerem a morte de outros como se obrassem maravilha; quantos filósofos, após manterem acirradas disputas sobre a morte ou a imortalidade; quantos tiranos, depois de abusarem com arrogância do poder de vida e de morte; quantas cidades inteiras: Hélice, Pompéia, Herculano e outras inúmeras. Este átimo de tempo, vive-o segundo a natureza e acaba sem revolta, como cairia a azeitona madura abençoando a terra que a produziu e agradecendo a árvore que a gerou.”