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As longas asas do Condor

Em 1976, o assassinato do ativista chileno Orlando Letelier revelou ao mundo o enorme alcance da Operação Condor, a parceria entre polícias secretas da América do Sul para eliminar seus opositores políticos

Por Lucas Figueiredo Atualizado em 31 out 2016, 18h24 - Publicado em 12 mar 2011, 22h00

Num certo dia de meados de setembro de 1976, a chilena Isabel Morel Letelier atendeu ao telefone de sua casa em Washington. Do outro lado da linha, uma voz de homem perguntou-lhe: “A senhora é a mulher de Orlando Letelier?”. “Sim”, respondeu ela. Seu interlocutor então contestou: “Não, a senhora é a viúva”.

A ameaça efetivou-se uma semana depois, quando uma carga de explosivos colocada no carro do marido de Isabel explodiu no bairro de embaixadas da capital americana, em frente à representação diplomática da Romênia. A violência do estrondo foi tão grande, que cacos de vidro e pedaços do carro voaram a uma distância de 30 metros. Destroçados, mas ainda vivos, Orlando Letelier e sua secretária Ronnie Moffit, de 25 anos, que também estava no carro, foram levados ao hospital. Não resistiram.

Letelier morreu em função da causa que abraçara, primeiro no Chile e depois nos EUA. Ex-ministro do governo de Salvador Allende (encabeçava a pasta de Relações Exteriores, Interior e Defesa), o senhor de 44 anos, de cabelos ralos e bigode farto, vivia exilado em Washington, onde era professor da Universidade Americana, diretor do Instituto Transnacional de Estudos Políticos e, sobretudo, um ativo militante de oposição à ditadura do general chileno Augusto Pinochet. Não ousava voltar ao Chile, onde estivera preso por um ano, mas sentia-se a salvo na capital americana, onde acreditava que Pinochet não poderia alcançá-lo. Enganou-se. Os longos braços da Operação Condor não respeitavam fronteiras, nem mesmo as dos EUA.

A Operação Condor era uma parceria macabra, celebrada no início dos anos 70, entre as ditaduras militares do Chile, Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Bolívia. O objetivo era unir esforços (troca de informações, apoio logístico etc.) para caçar, prender e aniquilar seus inimigos comuns – leiam-se opositores políticos -, fosse lá onde estivessem.

A Casa Branca não só sabia da existência do acordo como o incentivava – nunca é demais lembrar que, no auge da Guerra Fria, o mundo dividia-se em dois blocos: comunistas de um lado e não comunistas de outro. Para os EUA, todos os governos anticomunistas deviam ser apoiados, mesmo aqueles que não respeitavam os direitos humanos.

O atentado que matou Letelier foi tramado pela Diretoria de Inteligência Nacional (Dina), a temida polícia política de Pinochet, e realizado sob o guarda-chuva da Operação Condor. Na época, o governo Pinochet ainda tentou se livrar da responsabilidade pela morte divulgando uma nota oficial com uma ponta de cinismo: “O governo chileno lamenta o ocorrido e reitera seu mais decisivo repúdio aos atos de terrorismo”.

Não adiantou. A ousadia de Pinochet de praticar um atentado à bomba na asséptica capital americana, com vítimas fatais – sendo uma delas, cidadã dos EUA, a secretária de Letelier -, fez que o governo americano retirasse o apoio operacional que, secretamente, prestava à Condor. O carro azul de Letelier fumegando na Sheraton Oval atraiu a curiosidade da imprensa dos EUA e do mundo. Logo, todos saberiam que condor não era apenas o nome de uma ave típica dos Andes. E também que a CIA, o serviço secreto americano, cooperava com ações ilegais de captura e morte de dissidentes políticos de ditaduras sul-americanas.

As investigações revelaram que o atentado havia sido dirigido pelo chefe da Dina, general Manuel Contreras, e realizado pelo americano Michael Townley, ligado à CIA, com a ajuda de cubanos anticastristas de Miami. Sobraram indícios de que Pinochet se envolvera diretamente na ação, mas nada foi provado.

A morte de Orlando Letelier revelou ao mundo a existência da Operação Condor e de suas conexões com a CIA. Mas, do ponto de vista dos generais chilenos, apesar de ter atraído os holofotes da imprensa, o alvo foi destruído, e era isso o que interessava. A “eficiência”, entretanto, nem sempre foi a marca da Condor.

Dois anos depois do atentado em Washington, o consórcio da morte latino-americano falhou numa ação praticada no Brasil. Em novembro de 1978, agentes da Compañia de Contrainformaciones, a polícia secreta do Exército uruguaio, atravessaram a fronteira com o Brasil, sob os auspícios do governo brasileiro do general Ernesto Geisel, para executar mais um sequestro no âmbito da Operação Condor.

Com o auxílio da repressão brasileira, os uruguaios prenderam ilegalmente, em Porto Alegre, dois dissidentes uruguaios que viviam no Brasil, os estudantes Lílian Celiberti e Universindo Díaz, além dos dois filhos do casal, de 3 e 8 anos. Se tudo tivesse corrido conforme o script da Condor, o casal teria sido levado para o Uruguai e provavelmente morto – e as crianças, adotadas de forma ilegal por simpatizantes da repressão. Essa era a prática comum nas ações do consórcio, mas, daquela vez, o fim da história foi outro.

Numa sexta-feira chuvosa de novembro de 1978, um repórter da sucursal da revista Veja em Porto Alegre, Luiz Cláudio Cunha, recebeu um telefonema anônimo com uma denúncia estranha. Dizia seu interlocutor que, se ele batesse na porta de um apartamento do bairro Menino de Deus e perguntasse por Lílian, teria uma surpresa. Cunha pagou para ver – e de fato se surpreendeu. Ao tocar a campainha do apartamento, o repórter foi recebido com um revólver apontado para sua cabeça por um agente do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) da Polícia Civil do Rio Grande do Sul. Cunha simplesmente interrompera um sequestro da Condor. Lílian era mantida em cárcere privado pelos agentes, servindo de isca para a prisão de companheiros dela, que eram esperados no local; Universindo e os filhos já tinham sido levados para o Uruguai.

A inesperada presença do repórter fez que os planos da ação fossem alterados. Lílian foi torturada no Brasil, levada para o Uruguai, mas, graças ao flagrante de Cunha, não se tornou mais uma das muitas desaparecidas políticas da Condor. Ela e Universindo foram presos, e as crianças, entregues aos avós.

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Como, em 1978, o Brasil experimentava os primeiros momentos da abertura política, Cunha teve carta branca para escrever sua história, que acabou tendo um grande impacto. Começou contando o que acontecera naquela sexta-feira. Depois, semana após semana, o repórter apresentava nas páginas da revista novas informações que descobrira sobre o caso, trabalho que lhe valeria um Prêmio Esso de Jornalismo. Por intermédio de Cunha, o mundo mais uma vez tomava conhecimento de como funcionava a Operação Condor – mas, dessa vez, o alvo sobrevivera.

A opinião pública nacional e internacional abraçou uma campanha pela libertação de Lílian e Universindo, campanha essa que desgastou a ditadura do Brasil e do Uruguai. Depois de 5 anos, o casal foi solto. Em seguida, com o início da redemocratização da América Latina, a Condor daria seus últimos suspiros. Foi tarde, deixando para trás uma pilha de cadáveres.

Sete momentos da Operação Condor

1. Em setembro de 1974, em Buenos Aires, um ano após o início informal das atividades da Operação Condor, um carro-bomba matou o general Carlos Pratz, ex-comandante do Exército do Chile. Desafeto do ditador Augusto Pinochet, Pratz vivia exilado na Argentina. O atentado foi comandado pelo terrorista americano Michael Townley.

2. Seis guerrilheiros brasileiros que viviam no Chile – entre eles, Onofre Pinto, da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) – tentaram retornar clandestinamente ao Brasil em julho de 1974. Quando entraram no território brasileiro, via Foz do Iguaçu, foram fuzilados. A emboscada foi mais uma ação da Condor.

3. Agentes chilenos foram treinados em Brasília, na sede da escola do Serviço Nacional de Informações (SNI). O serviço secreto dos EUA sabia do que a escola era capaz, pois ajudara ativamente em sua montagem. Um relatório da CIA, de setembro de 1974, informou à Casa Branca sobre as aulas.

4. Em novembro de 1975, Manuel Contreras, chefe da Dina, polícia secreta chilena, convocou colegas da área de inteligência da América do Sul para formalizar o pacto de ajuda mútua, que foi então batizado de Operação Condor. “Iremos até a Austrália, se necessário, para pegar os nossos inimigos”, disse o então coronel na reunião.

5. O terrorista Michael Townley voltou a atacar em 1975. Em outubro, ele se envolveu na tentativa de assassinato de Bernardo Leighton, ex-vice-presidente do Partido Democrata Cristão do Chile, que vivia exilado em Roma. Alvejado a tiros, Leighton sobreviveu. Sua mulher, Anita, ficou paraplégica.

6. A ação mais famosa da Condor – a explosão de um carro-bomba em Washington, que matou o ex-ministro chileno Orlando Letelier, em setembro de 1976 – também teve as digitais de Michael Townley.

7. No final dos anos 70, o cardeal-arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, articulou a Clamor, uma rede internacional de denúncia e solidariedade às vítimas da Operação Condor. Uma das campanhas mais visíveis da Clamor pedia a libertação dos dissidentes uruguaios Lílian Celiberti e Universindo Díaz.

O jornalista e escritor  é autor, entre outros, do livro-reportagem Olho por Olho: os Livros Secretos da Ditadura.

 

 

 

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