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A solução do mistério da “múmia que grita”

Análise de DNA revela a identidade de corpo que foi encontrado no Egito - e sempre intrigou os arqueólogos por sua expressão facial

Em junho de 1886, o arqueólogo francês Gaston Maspero – quase um Indiana Jones da vida real – explorava Deir el-Bahari, um enorme complexo de sepulturas e templos para rituais fúnebres localizado em Luxor, no Egito. Em meio as múmias típicas, embalsamadas com cuidado e repletas de adornos, encontrou um caixão incomum: liso e tosco.

Não parecia o tipo de lugar em que um nobre egípcio gostaria de passar a eternidade. A religião dos faraós só garantia a vida após a morte se o corpo fosse preservado com carinho. Mais decoração e mais objetos no túmulo aumentavam as chances de conseguir uma passagem só de ida para o além (e de ter um padrão de vida elevado por lá).   

Quando Maspero abriu a tampa, a situação só piorou: o corpo era de um homem jovem, com uns 18 anos. Ele estava embrulhado em pele de carneiro, considerada um material impuro, proibido em rituais religiosos. Seus pés e mãos estavam amarrados, e sua boca, aberta em um eterno grito fantasmagórico.

Múmias comuns têm cortes no abdômen, por onde foram retiradas as vísceras – um dos passos obrigatórios da  mumificação. O “homem desconhecido E”, como foi batizado friamente pelo egiptólogo francês, não tinha. Ele foi embalsamado no improviso, com estômago e tudo. A autópsia realizada no século 19 chutou algumas explicações para sua boca eternamente aberta: ele pode ter sido enforcado, envenenado ou enterrado vivo. Difícil de saber.

O maior mistério, porém, era outro: por que um plebeu impuro, morto violentamente, ganhou o direito de descansar em um lugar dedicado aos reis? A resposta só chegou mais de um século depois, com uma análise genética publicada em 2012. O dito cujo tinha o cromossomo Y igualzinho ao do faraó Ramsés III, que reinou por 31 anos, entre 1194 a.C. e 1163 a.C. De plebeu a múmia renegada não tinha nada: ela era de um príncipe.

Foi aí que a arqueologia e os registros escritos se casaram perfeitamente. Ramsés III foi uma espécie de Júlio César do Nilo, vítima de um golpe armado por seu filho, Pentawere, e sua segunda esposa, Tiye. Problema típico de família real: o filho que tinha direito a herdar o trono era o da primeira esposa, e nem Tiye nem Pentawere curtiram essa história. Um papiro, hoje armazenado em Turim, na Itália, conta o julgamento dos traidores, mas não o desfecho do caso.

Sabe-se que Ramsés III foi mesmo assassinado: sua múmia tem um corte no pescoço, que alcança o esôfago e foi a provável causa da morte do faraó. Também se sabe que Amonhirkhopshef, o filho da primeira esposa, foi mais malandro: tomou o trono antes que Pentawere completasse o golpe, e mandou capturá-lo. Pentawere, por uma questão de honra, pode ter se suicidado antes da execução – e é aí que entra o veneno ou o enforcamento. 

É claro que isso não responde tudo: ainda é preciso explicar como os serviçais do rei permitiram que o traidor, depois de morto, fosse deixado em companhia de seu pai. É por isso que arqueólogos ainda consideram teorias alternativas. Talvez o “homem desconhecido E” fosse um militar célebre, morto em campanha em um país distante e embalsamado com os materiais disponíveis por lá. Afinal, pele de carneiro pode até ser ruim, mas se o serviço for feito com a melhor das intenções, dá para negociar uma exceção com os deuses.

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