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De volta ao pó

Os dinossauros deixaram ossadas que nos contam a sua história. Que sinais da humanidade restarão daqui a 65 milhões de anos?

Thereza Venturoli

Não vai sobrar nada em cima da terra

Olhe à sua volta. Tudo o que você vê, a cidade com seus edifícios de esquadrias metálicas, as ruas, os carros, os fios de eletricidade, sua roupa, seu computador, sua mobília, suas fotos, enfim, tudo o que chamamos de civilização, é produto do desenvolvimento tecnológico que começou com as ferramentas de pedra lascada fabricadas pelo Homo erectus, há 2 milhões de anos. Ao longo do tempo, o erectus deu lugar ao Homo sapiens, que aperfeiçoou técnicas até a humanidade chegar ao mundo moderno. Um mundo povoado por artifícios – engenhocas elétricas e eletrônicas, fibras naturais e sintéticas, ligas metálicas –, materiais jamais existentes em outra etapa da História.

Vamos supor que, um dia desses, o homem desapareça, dizimado por um vírus assassino. Que não sobre uma alma. Não é absurdo. Extinções globais já aconteceram várias vezes antes. A mais conhecida é a dos dinossauros, 65 milhões de anos atrás. Esses terráqueos pré-históricos reinaram soberanos em todo o planeta durante 200 milhões de anos. Mas, como não eram sapiens, ou seja, não tinham inteligência, não constituíram civilização. Deixaram apenas uns 1 000 conjuntos de ossos. Desenterrados depois de muita busca pelos arqueólogos, são esses vestígios que nos contam um pouco daquela época.

E dos humanos, o que sobrará daqui a 65 milhões de anos? Bem, “ossos e dentes que sejam rapidamente soterrados pela lama da beira de rios e lagos, com certeza durarão até mais”, diz à SUPER o paleontólogo Reinaldo Bertini, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Rio Claro, interior de São Paulo. E quanto aos nossos badulaques – objetos pessoais, máquinas, bens, cidades? É difícil fazer uma previsão exata. “Afinal, não existe nada construído pelo homem que tenha sequer uma fração desse tempo”, explica o engenheiro Antonio Domingues de Figueiredo, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).

A SUPER entrevistou especialistas que conhecem a durabilidade dos materiais naturais e dos objetos manufaturados. E descobriu que, em 65 milhões de anos, tudo o que for deixado ao ar livre está fadado a se desintegrar. Seja devido a fenômenos físicos, como a ação da luz e do calor, ou erosão provocada pelas chuvas e pelos ventos, seja por reações químicas, com a combinação das moléculas dos materiais com as do solo ou do ar. “Além disso, há os microrganismos, as bactérias, que literalmente devoram tudo o que é de origem natural”, completa Atílio Vanin, do Instituto de Química da USP.

Ao ar livre, os primeiros a sumir seriam livros, cadernos, listas telefônicas e peças de roupa de algodão e de linho – materiais constituídos de celulose. Carros e eletrodomésticos, feitos de ligas metálicas, enferrujariam rapidamente e se desintegrariam. A pavimentação das ruas, mesmo sem uso, se desmancharia em buracos em apenas quatro ou cinco anos. Em 100 anos, o asfalto, derivado do petróleo, seria reabsorvido pela terra. Nem as estruturas aparentemente mais sólidas e resistentes, como as construções de concreto armado, deixariam sinal acima da superfície depois de um milênio.

Mas há coisas que podem resistir bastante tempo no subsolo. Desde que soterradas no lugar certo, no menor tempo possível, que permaneçam estáticas e que não sejam remexidas por grandes movimentos de terra. Nas páginas seguintes, você tem uma idéia da herança que a nossa espécie pode deixar para o futuro imprevisível.

Exposto às intempéries

Veja quanto tempo cada objeto se conserva quando abandonado ao ar livre.

Prédios

As estruturas de concreto armado duram mais de 100 anos, se bem conservadas. Sem manutenção, começam a desmoronar em 60 anos. Nesse período, as barras de aço dentro de pilares, vigas e lajes são carcomidas pela água que atravessa o revestimento de concreto. Junto com a ação dos ventos e da chuva, o prédio rui. Em 1 000 anos, os blocos se dissolvem. Não sobra nada.

Gente

Expostos ao ar, depois de mortos, os animais começam a se decompor em poucas horas. As partes mais rígidas, como ossos e dentes, se desmontam e se desgastam em 3 anos, se não forem protegidas contra o ataque de bactérias, chuvas e ventos.

Pára-brisa

O vidro – que é feito de areia – é um dos materiais mais duradouros que existem. Só é atacado por substâncias alcalinas, ou seja, não-ácidas, como a soda cáustica. Mas, exposto às intempéries, mesmo um vidro de pára-brisa, que contém uma lâmina de plástico no meio, duraria só 4 000 anos.

Represa

O concreto das barragens sofre o ataque de compostos de enxofre emanados de material orgânico em decomposição. Esses gases se combinam com a umidade do ar e viram ácido sulfúrico, que cai como chuva ácida, corroendo-o. Além disso, o cimento e as pedras da massa de concreto entram em reação e abrem fissuras no bloco. A barragem se enfraquece e começa a desmoronar. Em 4 000 anos não se vê mais nada.

Computadores

O plástico – como o das garrafas de refrigerante e o dos laptops – resiste uns 150 anos.

Carros

O aço e o alumínio da carroceria dos carros e eletrodomésticos são ligas metálicas pouco duradouras. As moléculas de água e o oxigênio reagem com o metal e acabam enferrujando-o. Uma carroceria largada ao relento resiste uns 30 anos.

Móveis

Ao ar livre, a madeira, constituída de celulose, é devorada por microrganismos. Em 100 anos não sobra nada de qualquer banco.

Roupas

Peças feitas de fibras naturais são superbiodegradáveis. Mesmo enterradas, se desmancham em 20 anos, devoradas por microrganismos. Fibras sintéticas, como nylon e poliéster, não passam de 150 anos.

Ruas

O asfalto que recobre as avenidas começa a esburacar em 4 anos, afetado pelas variações de temperatura e pela chuva. A camada de pedras usada como base da pavimentação pode manter a forma por 4 000 anos.

Sessenta e cinco milhões de anos de solidão

Nem tudo se conserva debaixo da terra. A resistência do material e o tipo de terreno em que o objeto está soterrado determinam a longevidade.

Ossadas

O esqueleto e os dentes do homem podem sobreviver tanto quanto os dos dinossauros, até 250 milhões de anos, desde que recobertos rapidamente por lama, que, depois, se solidifica como rocha sedimentar (veja o quadro ao lado).

Computador

Do seu computador só restaria o chip, feito de silício, e o ouro das conexões elétricas. É que o silício não se oxida e o ouro já está em seu estado natural, semelhante a uma pepita.

Veículos

Um carro se dissolveria antes de ter tempo de fossilizar. Só sobrariam os vidros, como o do pára-brisa. Desde que não estivesse enterrado em solo alcalino, como o calcário, que o corrói.

Edifícios

Atacadas pelos poluentes, as fundações dos prédios enterradas persistiriam por uns 3 000 anos. Além desse tempo, as barras de aço voltariam ao seu estado natural de óxido de ferro. O concreto, atacado pelos compostos de enxofre, se dissolveria. Restariam montes de pedras originalmente misturadas ao cimento, com a forma das estacas.

Jóias

Pedras e metais preciosos não se desgastam jamais. Anéis de diamante permaneceriam como pepitas esculpidas pelo homem. Uma boa lembrança.

Barragem

Restos da parede que represa a água de um rio permaneceriam no subsolo, como uma mistura de areia e pedras entre camadas de rocha sedimentar (veja o quadro ao lado).

De lama a rocha

O lodo das margens de rios e lagos recobre os materiais, vira pedra e cria fósseis.

A água carrega sedimentos – areia, argila, minerais, folhas, sementes – que vão se depositando no fundo do rio.

Com o tempo, essas partículas formam camadas compactas, esmagadas sob o próprio peso.

O que fica preso mistura-se quimicamente à rocha e se fossiiliza, tornando-se praticamente eterno. Só será destruído se houver um grande movimento do solo, um vulcão ou um terremoto.

Um pedaço de rocha diferente

Sob o chão, o concreto de uma represa criaria marcas diferentes no solo.

Os sedimentos carregados pela água vão se acumulando no fundo da represa e do lado de fora da barragem. O fundo vai subindo e o lago, ficando cada vez mais raso.

Com o tempo, o fundo do rio fica tão alto que a corrente se espalha e se desvia para outro lado. Os sedimentos se transformam em rocha e todo o conjunto é soterrado por camadas de terra.

Depois de milhões de anos, restaria um estranho bloco de rocha interrompida por um aglomerado de pedras. Pelo formato da peça, ficaria claro que essa interrupção foi feita pelo homem.

Deltas de rios guardarão vestígios de cidades

A água, o agente fundamental do processo de sedimentação dos corpos, também pode estragar tudo, pois é um poderoso solvente. Se continuar encharcando um objeto indefinidamente, acaba por contaminá-lo com bactérias e substâncias químicas, erodindo-o até a dissolução. “O processo de fossilização é um delicado equilíbrio entre a resistência do material, as reações químicas, as condições físicas e o tempo”, resume Reinaldo Bertini.

Mesmo que o acaso ajude, o objeto soterrado precisa ainda de sorte para não ser destruído pelas forças geológicas. As placas tectônicas – imensas bandejas de pedra que flutuam sobre o recheio de magma no interior da Terra – empurram planícies para cima, puxam montanhas para baixo e abrem abismos no meio dos oceanos. Essa dança incessante pode elevar o terreno e expor os vestígios às intempéries, ou rebaixar a superfície, dando mais chances para o depósito de sedimentos. “O movimento das placas pode se reverter”, ressalta o geólogo Jan Zalasiewicz para a SUPER. “Mas, a julgar pelo que restou do Período Jurássico – aquele do apogeu dos dinossauros, entre 205 a 135 milhões de anos atrás –, podemos supor que muitos deltas de rio, hoje ocupados por grandes cidades, seriam preservados” (veja acima).

“Calculamos que menos de 5% dos organismos que viveram no passado geológico se fossilizaram”, afirma Bertini. Portanto, “não se deve esperar muito mais dos restos humanos.” Caso ocorra uma catástrofe virótica global no futuro, alguma coisa também pode ser desenterrada por acaso. Por algum roedor. Só esses pequenos animais, capazes de sobreviver com muito pouco, sobrarão.

Candidatos a sítio arqueológico

As maiores chances de preservação estão nas regiões baixas do globo, favoráveis ao acúmulo de sedimentos.

A Baía de Hudson, no Canadá, está em movimento ascendente. Sítioarqueológico ali vai ser difícil.

A pressão exercida pela Falha de San Andreas, no Pacífico, sobre o continente está arrancando o oeste do Estado da Califórnia da América do Norte. Nessa região instável, nada sobrará de Los Angeles.

O delta do Rio Mississipi está numa região pantanosa, com constante depósito de sedimentos. Sorte de Nova Orleans.

O delta do Rio Amazonas é uma região baixa, com boas condições de preservação. Ponto para Belém do Pará.

Dos povos que moram na Cordilheira dos Andes, que se ergue empurrada pela crosta do Oceano Pacífico, nada deve restar.

Desde o fim da última era glacial, o recuo das geleiras aliviou o peso sobre a Escandinávia. A área está se erguendo. Dificilmente restará alguma coisa.

Na costa do Mar Egeu há antigas cidades gregas soterradas pela areia trazida pelos ventos. Se o processo se mantiver, a Grécia continuará sendo a mãe da História.

Os sedimentos carregados pelo Rio Nilo e pelo mar podem soterrar o seu delta, guardando objetos por milhões de anos. Vantagem para os egípcios.

A placa sob a Holanda está afundando. A região é propícia para o acúmulo de sedimentos e para a conservação de fósseis. Talvez sobre algum moinho.

A maior parte da Austrália, formada por regiões estáveis, não deverá ser preservada.

Uma pilha de entulho a meio caminho da Lua

Ao longo de toda a sua existência, você consome cerca de 500 toneladas de areia, argila, calcário e cascalho, calcula o geólogo Jan Zalasiewicz, da Universidade de Leicester, na Inglaterra. Essa é a parte que lhe cabe dos recursos naturais incorporados nos tijolos e no concreto das construções que você utiliza – desde a maternidade em que nasceu, até ruas, aeroportos, estações de metrô em que trafega e sua casa.

Multiplique-se esse número pela população do planeta, 6 bilhões de cidadãos, e você tem a massa total de entulho que o homem deixaria para trás se fosse extinto: 3 trilhões de toneladas. Se isso fosse empilhado sobre um quarteirão de 100 metros de lado formaria uma torre de 130 000 quilômetros de altura, avalia Antonio Figueiredo – um terço da distância da Terra à Lua. Um volume de restos muito superior ao deixado por qualquer animal, é claro. É difícil acreditar que não restará nada disso, daqui a 65 milhões de anos. Na superfície, não. Mas no subsolo, alguma coisa deverá ficar.

Já existe muita coisa lá em baixo: túneis, canos de água, canos de gás e estacas de fundações dos prédios. Algumas dezenas de metros de terra não são proteção total contra a deterioração química e biológica. Sem manutenção, mesmo subterrâneos, o concreto e as barras de aço das fundações se desmancham, afetados por poluentes, bactérias ou pela água da chuva e dos lençóis freáticos. Com o passar dos séculos, aos poucos, tudo voltaria ao estado natural. O aço, combinado com o oxigênio do solo, seria reabsorvido pela terra como óxido de ferro. “Em 65 milhões de anos, as fundações dos prédios da Avenida Paulista, no centro financeiro de São Paulo, constituirão um subsolo com uma mistura de metais impossível de ser reaproveitada”, afirma o engenheiro metalurgista Ivan Gilberto Sandoval Falleiros, da USP. A areia e o cimento do concreto também se dissolveriam, retornando ao estado original, quartzo e carbonato, isto é, sais de carbono.

Uma jóia é para sempre

Mas os componentes que não foram alterados pelo homem não mudariam. As pedras da mistura do concreto formariam uma rocha que manteria a forma da estaca da fundação – uma coluna de solo diferente do terreno ao redor. “Um arqueólogo ET reconheceria a regularidade na disposição e no formato dessas colunas”, raciocina Figueiredo. “Daí, concluiria que foram construídas por algum ser inteligente.” No meio dessa parafernália de ferro e massa arenosa, o paciente escavador extraterrestre poderia até topar com indícios intactos da nossa civilização carcomida – oba! Um anel de ouro e diamantes, por exemplo, ainda seria uma bela jóia esculpida e polida por mãos humanas, mesmo depois de eras e mais eras geológicas. Pedras e metais preciosos não são alterados ao longo do tempo.

Para o estudioso de outro mundo, as regiões da Terra mais favoráveis à fossilização continuariam sendo as margens de antigos rios e de lagos ressecados. Ali, a lama solidificada como rocha protege organismos e objetos do mesmo jeito como a cinza vulcânica guardou a cidade de Pompéia, vítima de uma erupção do Vesúvio no ano 79 d.C. A maioria das ossadas de dinossauro são achadas ao longo do leito seco de antigos rios. Os nossos também serão. Quem quiser conhecer a história do Homo sapiens daqui a 65 milhões de anos terá de encontrá-la nas cicatrizes das atuais estradas de água.