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Débora e Barac

A carismática juíza que livrou seu povo da opressão; e o general que cumpriu suas ordens para exterminar o inimigo

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h16 - Publicado em 16 fev 2013, 22h00

Maria Fernanda Vomero

Mais ou menos entre 1200 a.C. e 1000 a.C., as tribos israelitas já ocupavam territórios dos dois lados do rio Jordão e seguiam em campanha pela conquista definitiva de Canaã. Várias nações canaanitas, porém, não só ofereciam resistência como mantinham assentamentos judaicos sob constante opressão. Algumas obtinham apoio bélico de reinos mais distantes, que não viam com bons olhos o fortalecimento dos israelitas. Foi nesse contexto que os cananeus de Hazor, velhos adversários, lançaram um ataque. No comando de um exército com 900 carros de guerra, estava um general de nome Sísera.

Naquela época, uma israelita chamada Débora atuava como juíza – o termo “juiz” designava líderes carismáticos que acumulavam funções religiosas, políticas e militares. Segundo a Bíblia, foi ela quem organizou a resistência e planejou o contra-ataque. Ao lado de Barac, a quem confiou cerca de 10 mil soldados, Débora atraiu os inimigos para uma região pantanosa, onde o poder das carruagens canaanitas poderia ser neutralizado. Ao mesmo tempo, ordenou um ataque pela retaguarda adversária. Sísera fugiu. E seu exército foi trucidado (leia mais nas págs. 46 e 47).

Chama a atenção o destaque dado à participação feminina nessa passagem do livro bíblico Juízes. “As mulheres na sociedade tribal tinham muito mais força e projeção do que no mundo patriarcal da monarquia”, diz o teólogo José Ademar Kaefer, do Instituto São Paulo de Estudos Superiores. Pesquisas indicam que os dois capítulos dedicados à atuação de Débora – um deles em prosa e o outro sob a forma de um cântico que narra, com detalhes e emoção, a batalha contra os cananeus – são textos muito antigos, cuja redação final provavelmente ficou a cargo de sacerdotes israelitas entre 600 e 500 a.C.

Embora Barac seja apresentado como um comandante dos mais eficientes, a verdade é que ele não passa de um personagem secundário, já que a ação militar ficou praticamente toda nas mãos da juíza Débora. “Ela é a única mulher de que temos notícia nessa função. A tradição posterior – por certo patriarcal e androcêntrica – pretendeu reduzi-la ao papel de cantora”, afirma o teólogo Carlos Arthur Dreher, professor das Faculdades EST em São Leopoldo (RS). Mas o Velho Testamento não nega seu papel de heroína, como atesta uma passagem de Juízes (5:7): “Desertos se achavam os campos em Israel, desertos, senão quando eu, Débora, me levantei (…) como uma mãe em Israel”.

BENDITA TRAIÇÃO

Débora e Barac derrotaram Sísera, mas não tiveram a “honra” de matá-lo. Quem acabou executando essa tarefa foi outra mulher, que aparentemente não tinha nada a ver com o conflito entre israelitas e cananeus. Seu nome, segundo a Bíblia, era Jael. Ela e o marido pertenciam a um grupo seminômade que mantinham boas relações tanto com um povo quanto com o outro. Ao buscar refúgio no acampamento do casal, depois de fugir da investida de seus inimigos, Sísera pediu abrigo na tenda de Jael. A moça o acolheu, deu-lhe de beber e ofereceu-lhe esconderijo. Mas, enquanto o general cananeu dormia coberto por um tapete, ela não teve dúvida: levantou-se, pegou um martelo e cravou-lhe uma estaca na cabeça. “Bendita seja entre as mulheres Jael”, diz a juíza Débora em seu famoso cântico bíblico. “Com uma das mãos segurou o prego, e com a outra o martelo de operário, e malhou Sísera(1), espedaçando-lhe a cabeça (…).” Quando Barac chegou ao acampamento, o inimigo jazia morto, estirado no chão. Nas estrofes seguintes do cântico, Débora comenta que a mãe de Sísera permanece na janela, à espera do retorno do filho, confiante em sua vitória. Ela nem intui o desfecho infeliz. “Assim pereçam, Senhor, todos os vossos inimigos”, exalta a juíza.

Coadjuvante – Ben-hadade
O rei sírio que teria admitido a superioridade do deus hebreu.

A Bíblia está cheia de “vilões” como o general cananeu Sísera. Um eles é Ben-Hadade, rei da Síria que lutou algumas batalhas contra os israelitas na primeira metade no século 9 a.C. Quando sucedeu ao pai, Hadade herdou também a rivalidade com o povo de Israel – que avançava sobre a Terra Prometida sempre com o objetivo de conquistá-la, nunca com a intenção de compartilhá-la. Depois de amargar derrotas humilhantes em Samaria e nas colinas de Golã (leia mais nas págs. 50 e 51), foi afligido por uma doença que o deixou preso à cama – é bem provável que sua queda por bebidas etílicas, mencionada no Velho Testamento, tenha colaborado para esse fim. Já velho, ele teria teria admitido que o Deus hebreu era mais poderoso que as deidades sírias. JFB e RL.

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