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Delírio de voar

Na virada do século, as formas bizarras dos primeiros projetos de aeroplanos espantaram o mundo. Quase ao mesmo tempo, a tecnologia da fotografia consolidou-se. A coincidência permitiu que a ousadia e a criatividade dos pioneiros da aviação chegassem até nós em flagrantes.

Por 31 Maio 1999, 22h00 • Atualizado em 31 out 2016, 18h12
  • Ricardo Arnt e Gisela Heymann, de Paris

    Nos dez primeiros anos deste século havia uma mania pop em Paris – voar. As formas estranhas dos aeroplanos experimentais invadiam as páginas dos jornais. Cada proeza dos aviadores era narrada em detalhe. Os parisienses acompanhavam fascinados as audácias dos aviadores, uma elite extravagante de jovens brilhantes, cultos e elegantes, realçada por vários milionários e pelo interesse das moças. Multidões lotavam o campo de provas de Issy-les-Molineaux. Os pilotos e os inventores eram reconhecidos nas ruas e homenageados em restaurantes. Todo dia algum biruta apresentava uma nova máquina, anunciava um plano mirabolante e desafiava a gravidade e a prudência.

    Paris virara a capital mundial da aviação desde a fundação do Aéro-Club de France, em 1898. Depois da difusão dos grandes balões, em 1880, e dos dirigíveis inflados a gás, em 1890 – os chamados “mais leves que o ar” –, chegara a hora dos aparelhos voadores práticos, menores e controláveis – os “mais pesados que o ar”. Durante muito tempo eles foram descartados como impossíveis, mas agora as pré-condições haviam mudado. A tecnologia da aerodinâmica, da engenharia de estruturas, do desenho de motores e da química de combustíveis havia chegado a um estágio de evolução inédito. Combinadas, permitiam projetar máquinas inimaginadas.

    Simultaneamente, por caminhos paralelos, a fotografia dera um salto com a invenção dos filmes flexíveis, em 1889. Surgiram câmeras modernas, mais sensíveis à luz, mais velozes e fáceis de manejar. Em conseqüência, proliferaram os fotógrafos profissionais e amadores. Eles não só registraram cada passo da infância da aviação como também popularizaram-na. Transportados pelos jornais, os feitos dos pioneiros estimularam a vocação de muitos jovens candidatos a aviador. A mídia glamourizou a ousadia de voar. Toda a adrenalina dessa época está recolhida e estampada, agora, no livro Aviation: The Early Years (Aviação: Os Primeiros Anos), publicado em Londres pela The Hutton Getty Picture Collection. São 450 fotos. Se o valor histórico é óbvio, o estético é surpreendente.

    O livro mostra que havia heróis de vários tipos. Aqueles que efetivamente aceleraram a história da Aeronáutica eram cientistas geniais ou inventores metódicos – como Clement Ader, Robert Esnault-Pelterie, Alberto Santos-Dumont ou Horatio Phillips. Mas homens com pouca formação teórica e muita coragem também precipitaram os acontecimentos. Eram tipos que preferiam avançar fazendo – como Raoul Vendôme, Hubert Latham e Henri Farman. Além desses havia uma multidão de aspirantes anônimos a aviador. Gente que estudava um pouco, copiava os desenhos dos mestres e construía aparelhos precários ou inviáveis. Que nunca decolavam. Mas que ajudaram a criar uma cultura tecnológica.

    Inventar aviões era um ofício diletante e nada rendoso – ainda. Exigia recursos financeiros para construir aparelhos, contratar mecânicos, oficinas e hangares. Dinheiro nunca faltou ao brasileiro Alberto Santos-Dumont, filho de um rico fazendeiro mineiro, ou ao engenheiro e nobre francês marquês d’Ecquevilley-Montjustin. Voar era um ideal delirante e dândi. Uma glória para homens extraordinários. Como você vai ver nas próximas páginas.

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    Varal alado

    Em 1908, o marquês d’Ecquevilley-Montjustin construiu este estranho multiplano constituído de telas fixadas por uma armação de tubos de aço. Uma hélice de 2,5 metros de comprimento, movida por um motor de 7 cavalos, deveria produzir uma força ascendente e levantá-lo. Segundo o inventor, o aparelho era sólido, leve, barato e maleável. Mas falhou no primeiro teste. Nunca voou.

    Barco com asas

    Esta é a primeira fotografia de um aeroplano, em 1868. Trata-se de um planador sem motor, bem anterior aos aviões. Tinha casco como o de um barco, asas e rabo de pássaro. Numa praia da Bretanha, o ex-marinheiro Jean-Marie Le Bris (1817-1872) levantou o aparelho, puxado por cavalos a galope. A corda se soltou e ele subiu a 100 metros de altura. Apesar de apavorado, Le Bris conseguiu pousar na areia.

    Batmóvel

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    Em 9 de outubro de 1890, Clement Ader (1841-1926) alegou ter levantado, por alguns segundos, um mais pesado que o ar, o Èole. Mas sua experiência não teve testemunhas. Ader estudou aves e morcegos, construiu pipas, aviões e motores a vapor . Em 1897 bolou este avião-morcego, o Avion III, com hélice dupla, de bambu, e asas de seda (veja, no detalhe, a maquete simulando o vôo). Só que nunca conseguiu levantá-lo. Suas pesquisas geniais influenciaram todos os pioneiros da aviação. Contudo, após perder um financiamento do Ministério da Guerra francês, Ader desiludiu-se, incendiou o hangar, desenhos, cálculos e abandonou tudo.

    Lá vou eu

    A falta de rigor científico não inibia inventores espontâneos que disputavam a glória de voar com pioneiros mais preparados. Em 1904, o otimista cavalheiro engravatado da foto, do qual a História guardou só o sobrenome alemão, Schmutz, tentou, em vão, voar com este cicloplano movido a pedaladas. Seu aparelho era tão estranho quanto primário. Não levantou.

    Herói romeno

    Trajan Vuia (1872-1951) é o pioneiro aviador da Romênia. Engenheiro e aeronauta, começou a construir aviões em Paris em 1900. Em 1902, montou um veículo com rodas, movido por um motor de automóvel de 25 cavalos, que deveria decolar após forte aceleração. A máquina, entretanto, era muito pesada e não saiu do chão. Vuia não desistiu. Em 18 de março de 1906, com o modelo aperfeiçoado da foto – dirigido por um piloto desconhecido – voou por 12 metros a 1 metro de altura. Logo, todos os aviadores passaram a adotar rodas nos seus aparelhos.

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    Marca de sucesso

    Matemático, físico e milionário, Robert Esnault-Pelterie (1881-1957) desenhou, construiu e pilotou vários aeroplanos bem-sucedidos, todos batizados com a sigla R.E.P. A série foi iniciada pelo monoplano desta foto, o REP Nº 1, em 26 de outubro de 1907. Pelterie também fazia seus próprios motores, desenhava hélices de metal e fuselagens de aço. E tinha o prazer de pintar tudo de vermelho berrante. Introduziu os amortecedores nas rodas, inventou o manche (o volante dos aviões) e o cinto de segurança. A partir de 1914, dedicou-se aos foguetes. Em 1957, seus cálculos foram usados na concepção do foguete que pôs em órbita o satélite soviético Sputnik. É considerado o pai da Astronáutica.

    O primeiro helicóptero

    Ao contrário de muitos de seus colegas, Paul Cornu (1881-1944) vinha de uma família modesta. Fez bicicletas, motores, triciclos a vapor e automóveis. Em 1906, patenteou a primeira máquina com propulsão e decolagem verticais, movida por um motor de 2 cavalos. Era composta por duas rodas de bicicleta ligadas por uma correia, um chassi de aço e seis telas de seda dispostas como hélices. Em novembro de 1906, seu aparelho decolou, verticalmente, sem piloto. Ficou quase 2 minutos no ar!

    Ventilador aéreo

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    Em meio à confusa multidão de modelos experimentais, o frustrado marquês d´Ecquevilley concebeu, novamente, em 1908, este protótipo de multiplano, que um intrigado ciclista contempla. Esperava que o vento gerado por uma hélice acionada por um motor de 7 cavalos levantasse as 48 telas paralelas. Não deu certo. Não voou.

    O recorde de Farman

    Em 1908, Henry Farman (1874-1958) e Gabriel Voisin (1880- 1912) criaram o avião da foto, vencedor da prova do primeiro vôo de um quilômetro. Ganharam um prêmio de 50 000 francos, equivalente, hoje, a 14 000 reais. Foi uma consagração. Assistido por uma entusiástica multidão no campo de provas de Issy-les-Moulineaux, o biplano pilotado por Farman decolou, fez um vôo circular de 1 500 metros e aterrissou em segurança. Ficou 1 minuto e 28 segundos no ar. Uma eternidade.

    Piloto cool

    Em 1909, o jornal Daily Mail, de Londres, ofereceu o equivalente a 25 000 reais para quem atravessasse os 45 quilômetros do Canal da Mancha por ar. Três aviões se apresentaram. Um caiu durante exercícios. Com os hotéis da costa da França e da Inglaterra lotados de espectadores e muitos barcos no mar, o Antoinette de Hubert Lathan (1883-1912) decolou, na manhã de 19 de julho. Subiu bem. Mas a 11 quilômetros da costa francesa o motor falhou. Lathan planou, pousou no mar e esperou o resgate fumando um cigarro. Calmamente (veja no detalhe).

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    Herói por um triz

    Seis dias depois, Luis Blériot (1872-1936), um comerciante com péssima reputação de piloto, decolou – visivelmente preocupado (veja o detalhe). Dirigia o menor e o menos testado dos aparelhos. Em 10 minutos perdeu-se na neblina. Mas viu navios indo para a Inglaterra e seguiu-os. Depois de 38 minutos, chegou ao litoral de Dover, driblou penhascos e estatelou-se num pântano. Quebrou o chassi. Mas virou herói. Atraiu multidões em Londres e em Paris. Enriqueceu com encomendas do seu monoplano, o Blériot XI.

    Leveza brasileira

    Santos-Dumont (1873-1932) esteve três vezes na vanguarda. Em 1901, deu uma empolgante volta na Torre Eiffel com o Dirigível Número 5. Em 1906, voou no 14 Bis, a 2 metros de altura, por 60 metros, decolando e aterrissando sozinho. Quebrou as rodas ao pousar – um susto e tanto –, mas ultrapassou o feito dos irmãos Wilbur e Orville Wright, que, três anos antes, em 1903, numa praia da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, voaram 40 metros, a 1 metro de altura, no primeiro aeroplano com motor. Só que lançado ao ar por uma catapulta. Em 1907, o brasileiro deu outro show voando no jeitoso Demoiselle Número 19. A foto acima, de 1º de janeiro de 1909, mostra um modelo posterior, batizado só como Demoiselle. Tinha 6,7 metros de comprimento por 6,6 metros da ponta de uma asa à ponta da outra e motor de 20 cavalos. As asas eram de seda e a fuselagem, de bambu. Era leve, estável e seguro. Nele, o sonho de voar pela cidade e parar no campo para um piquenique virava realidade.

    O mosquito

    Em 1910, o chapeleiro Raul Vendôme criou o Le Plus Petit. Pesava 200 quilos (com ele dentro) e tinha 4 metros de comprimento. Um luxo. Vendôme também Inventou a bomba contra incêndio e a fechadura inviolável.

    Persiana voadora

    Em 1884, o inglês Horatio Phillips (1845-1926) mostrou, na teoria, que asas com as bordas superiores curvas receberiam maior pressão do ar por baixo, alçando o aparelho. Em 1907, criou um multiplano que voou 100 metros, sem piloto, em Londres. Em 1910, fez o protótipo da foto. A hélice deveria produzir uma força de ascensão nas lâminas. Não funcionou. Na teoria era bem mais fácil.

    Para saber mais

    Alberto Santos-Dumont, Henrique Lins de Barros. Editora Index. Rio de Janeiro, 1986.

    Para ver mais

    Aviation – The Early Years, Peter Almond. The Hulton Getty Picture Collection, London, 1997.

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