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Do Apartheid à Vuvuzela

Dentro e fora de campo, saiba como o futebol explica a África do Sul, sede da Copa do Mundo 2010

Por 24 fev 2010, 22h00 | Atualizado em 31 out 2016, 18h23

Paulo Passos

Quem assistir TV na manhã de 11 de junho deve esbarrar na abertura da copa. Conforme o protocolo, haverá tomadas aéreas do estádio lotado, coreografias folclóricas envolvendo bolas, torcida fantasiada e, após a festa, um jogo em que o anfitrião passa sufoco (para o bolão: África do Sul 2 x 2 México). Entre os clichês, uma novidade: a multidão vai aclamar um político. Se seus 91 anos permitirem, o ex-presidente Nelson Mandela estará lá, celebrado como craque do time.

Na África do Sul, futebol e política jogam juntos: os anos do apartheid, a segregação racial oficial, incluem os em que o país foi banido do esporte internacional; o primeiro campeonato nacional inter-raças veio só em 1992, com apoio de Mandela; eleito, ele usou todo o seu prestígio para trazer o mundial. Acompanhe a trajetória de separação e superação, que ajuda a entender a maior potência africana.

SÉC. 19 – ANOS 40 – CORES PRIMÁRIAS

O apartheid começou oficialmente em 1948, mas os times já jogavam em campos separados havia muito tempo na África do Sul. Em um país onde a cor da pele determinava o transporte, o atendimento em lojas e até o banheiro, desde o século 19 vinham sendo criadas ligas de futebol exclusivas para brancos, indianos, negros e mulatos. As ligas separadas se desenvolveram de forma desigual: a dos negros, mesmo com um público mais pobre, tinha estádios lotados e exportava jogadores. Já a dos brancos não empolgava a plateia – na verdade, os eurodescendentes curtem mesmo é o rúgbi, esporte que Mandela tratou de prestigiar – foi até “padrinho” do time campeão do mundo em 1995 – para mandar uma mensagem de união aos sul-africanos de todas as cores.

ANOS 50 – ÍDOLOS EXPORTADOS

Além de cidadãos segregados, os negros, mesmo melhores dentro do campo, também eram atletas de segunda classe. Quem representava a África do Sul na FIFA era a entidade dos times brancos. Só eles eram convocados para a seleção nacional. Em 1956, a pressão da entidade máxima do futebol fez com que fosse excluída a cláusula que impedia a contratação de negros – mesmo assim, eles não foram contratados. No mesmo ano, começou o êxodo de craques. Brilhariam longe de casa ídolos como Stephen Kalamazoo Mokone, David Julios, Albert “Hurry-Hurry” Johannesonse, primeiro negro a disputar (e perder) uma final da inglesa FA Cup, e, mais tarde, o Pelé africano, Jomo Sono, que chegou a jogar ao lado do Pelé brasileiro no Cosmos (EUA). Seu nome, aliás, veio do presidente queniano Jomo Kenyatta, um herói negro.

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ANOS 60 – RACISMO BANIDO

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Em 1984, o arcebismo Desmond Tutu ganhou o Nobel da Paz por combater o racismo na África do Sul; em 1990, Nelson Mandela foi libertado; e em 1992, acabou o apartheid. Mas faltava algo: no futebol, brancos e negros continuavam se enfrentando só em ocasiões especiais e cada um no seu time. Por influência de Mandela, todos se uniram na South Africa Football Association, e o país foi readmitido nos torneios internacionais.

ANOS 90 – PRESIDENTE PÉ-QUENTE

No dia em que tomou posse, 10 de maio de 1994, Mandela foi ao Soccer City e viu a África do Sul vencer a Zâmbia por 2 a 1. O pé-quente se estendeu: 1995 teve os campeões do rúgbi e o Orlando Pirates vencendo a Libertadores da África. Em 1996, a África do Sul sediou e venceu a Copa Africana de Nações e, em 1998, foi à sua primeira Copa do Mundo. Em 1999, Mandela deixou o poder e elegeu como missão seguinte trazer o mundial de futebol para o país. Faltou um votinho em 2000, mas…

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HOJE – A ÁFRICA É LOGO ALI

…Em 2004, o país escolhido para sediar a Copa de 2010 foi a África do Sul – hoje muito diferente daquela que fora banida do torneio. O esporte antes discriminado é o foco dos políticos, seja o presidente Jacob Zuma, seja o líder da oposição, Terror Lakota – respectivamente o artilheiro e o capitão do Rangers FC, time da cadeia onde eram presos políticos. Os grandes clubes hoje são empresas, comandados pela classe que surgiu após o apartheid: a dos negros ricos. E o maior ídolo da seleção é branco: Mathew Booth, zagueiro de 1,98 m, casado com uma negra e pai de dois mulatos. Em 11 de junho, quando ele entrar em campo, vai parecer que está sendo vaiado. Mas o longo “buuu” em meio às vuvuzelas é o jeito zulu de saudar seu sobrenome – e um reconhecimento de que, agora, todos podem ser do mesmo povo.

Para saber mais
– Long Walk to Freedom (Nelson Mandela, Little Brown, EUA, 1995)
– Conquistando o Inimigo (John Carlin, Sextante, 2009)

 

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