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Espiões de batina

Nos extensos e silenciosos corredores do Vaticano, eles transitam em perfeita discrição. Entre bispos e assistentes de João Paulo 2º, ouvem conversas e dão opiniões. Seus colegas mal desconfiam, mas, na verdade, eles não passam de... espiões de batina

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h36 - Publicado em 12 mar 2011, 22h00

Texto Vanessa Vieira

O padre polonês Konrad Hejmo era um modelo de dedicação no Vaticano. Colega de Karol Wojtyla desde os tempos da faculdade, começou a trabalhar na Cúria Romana um ano após a eleição do papa João Paulo 2º. Formado em Teologia e Ciências Sociais e com experiência de editar um jornal católico mensal, Hejmo foi escolhido pela Conferência dos Bispos da Polônia para representá-los em Roma. Já na Itália, em 1984, foi nomeado diretor do centro de peregrinação polonesa Corda Cordi. Além de ser aceito como confidente por João Paulo 2º, padre Hejmo também se aproximou do assistente do papa, arcebispo Stanislaw Dziwisz. Por causa desse vínculo, participava de conversas sobre as estratégias do pontífice para lidar com a repressão religiosa na Polônia. Durante os últimos dias de João Paulo 2º, em 2005, era Hejmo quem dava as notícias sobre a situação do papa na Rádio Vaticano.

Sua proximidade da cúpula do catolicismo mundial foi interrompida três dias após a posse de Bento 16º. Padre Hejmo teve de viajar de repente a Varsóvia. Acabara de saber que o grande secredo de sua vida, o de ter espionado o Vaticano para a polícia secreta comunista da Polônia, seria revelado. A informação surgiu depois que funcionários do Instituto da Memória Nacional, responsável por pesquisar os arquivos do serviço secreto, descobriram um dossiê de cerca de 700 páginas relacionado o padre ao Sluzba Bezpieczenstwa (SB), o serviço de segurança polonês. Os arquivos revelaram que o padre, da ordem dominicana, era o agente que tinha os codinomes Dominik e Hejnal. Também mostraram que, desde 1975, o padre levou regularmente ao seu contato no SB informações sobre conflitos internos do episcopado polonês. Ainda denunciava religiosos anticomunistas. E mais: contava como o Vaticano enviava comunicados confidenciais para os padres da Polônia. Num dos encontros, o padre chegou a copiar uma carta de um membro da oposição ao papa.

Quando o papel de Hejmo como informante veio à tona, a reação da Igreja foi de descrença. O padre Maciej Zieba, superior da ordem Dominicana na Polônia, desdenhou as acusações. Quando teve acesso ao dossiê, com manuscritos com a letra de Hejmo e até recibos mostrando que ele ganhava 500 marcos (cerca de 250 dólares) a cada encontro, o padre mudou de opinião e descreveu os arquivos como “chocantes”.

O Vaticano sabia que casos assim existiam. Durante a Guerra Fria, tinha até mesmo um caçador de espiões, o padre californiano Robert A. Graham. Esse padre-detetive acumulou um arquivo de 55 caixas de documentos sobre espionagem na Santa Sé, material guardado até hoje pela Secretaria de Estado do Vaticano. O padre Graham revelou em artigos ter descoberto telefones grampeados e desvio de documentos, além de ter interceptado e decodificado mensagens de informantes enviadas por rádio e por telégrafo. Uma das ações mais espetaculares desmanteladas pelo caçador de espiões foi a identificação de um grupo de universitários ucranianos matriculados em seminários religiosos em Roma, em meados da década de 1980. Na realidade, tratava-se de oficiais treinados pela KGB, com a missão de infiltrar a Cúria Romana. Depois de descobertos, foram mandados de volta para casa.

O interesse dos governos comunistas em xeretar a Igreja tem origem na repressão religiosa iniciada na Rússia, após a revolução socialista. Em 1917, os seguidores da Igreja Ortodoxa Russa totalizavam 118 milhões de pessoas, num país de 147 milhões. Os católicos representavam 5 milhões. A jornalista russa Olga Vasilieva calcula que, entre 1917 e 1920, 9 mil pessoas tenham sido mortas por perseguição religiosa. Em 1922, o comando revolucionário ordenou a criação de um campo de trabalhos forçados no arquipélago Solovki – o monastério que funcionava na ilha principal foi transformado em prisão. Cerca de 38 mil religiosos e intelectuais foram enviados para o local. Entre 1936 e 1938, já sob o governo stalinista, 100 mil clérigos e leigos foram fuzilados, segundo os próprios registros comunistas. Nos anos 40, haviam restado apenas duas igrejas católicas no país, das 1 200 de antes da revolução.

Durante toda a Guerra Fria, a repressão religiosa romperia as fronteiras da Rússia e se estenderia aos demais países membros do bloco socialista, mas com novos contornos. A religião não era ostensivamente banida pelo Estado, mas aqueles que insistiam em praticá-la sofriam consequências, como perder vagas em bons empregos ou na universidade. A igreja protestante, no caso da Alemanha Oriental, e católica, como na Polônia, transformaram-se em focos da resistência nacionalista e anticomunista. “No Leste Europeu, os líderes religiosos costumavam comandar movimentos de oposição ao regime, em prol da liberdade religiosa e da liberdade de expressão”, afirma Ania Cavalcante, professora de História Contemporânea da Alemanha na USP.

Na Polônia, a convivência entre o regime e religião era ainda mais tensa. O catolicismo estava associado à própria identidade polonesa e ao sentimento patriótico. O pontificado de João Paulo 2º, um polonês, coincidiu com o crescimento do movimento de trabalhadores anticomunistas do Solidarnosc (Solidariedade), liderado por Lech Walesa, que conquistou 10 milhões de adeptos. Em janeiro 1981, uma delegação de 18 membros do Solidariedade foi recebida por João Paulo 2º, com a mesma pompa reservada a chefes de Estado – o que foi considerado pelos socialistas como um claro tapa na cara e sinal claro do posicionamento político do papa.

O indício de que as coisas começavam a sair do controle dos comunistas veio com a ideia do papa de fazer uma viagem oficial à Polônia em junho de 1979. Semanas antes da visita, o primeiro-secretário do Partido Comunista Polonês, Edward Gierek, recebeu uma ligação do governo russo pedindo a ele que impedisse a visita de João Paulo 2º. “Como eu poderia fechar a fronteira ao papa?”, respondeu o chefe do PC. A visita acabou acontecendo, ao lado de um enorme esquema de segurança para conter prováveis revoltas e enfrentamentos de dissidentes, animados com a visita do papa. Num documento da Stasi, aberto na década de 1990, um agente conta que oficiais disfarçados de padres, vestidos com batinas, foram infiltrados no meio da multidão.

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No livro Spies in the Vatican (“Espiões no Vaticano”, ainda sem edição brasileira), Joseph Koehler, jornalista e ex-conselheiro de assuntos internacionais do presidente Ronald Reagan, cita uma ordem da KGB, emitida no dia 13 de novembro de 1979: “Usar tudo que estiver disponível para evitar a continuidade das políticas iniciadas pelo papa polonês; se necessário, medidas adicionais de desinformação e descrédito”. Segundo Koehler, no documento constam as assinaturas de 9 dos 10 membros do secretariado do Partido Comunista, entre eles, Mikhail Gorbachev. “Em termos leigos, era uma ordem de assassinato”, diz Koehler.

Para cumprir essa ordem, o governo soviético precisava de espiões o mais próximo possível do papa. Um deles, um religioso alemão, foi identificado em 2003, quando pesquisadores finalmente conseguiram decodificar fitas magnéticas pertencentes ao Hauptverwaltung Aufklärung (HVA), o braço da Stasi responsável pela espionagem em território estrangeiro. O informante era o monge beneditino Eugen Brammertz, tradutor e editor, no Vaticano, do jornal L’Osservatore Romano. O cargo lhe permitiu ter contato próximo com autoridades da Santa Sé, entre elas o cardeal Agostino Casaroli, secretário de Estado do Vaticano. Com o amigo, o espião conseguia, com uma larga antecedência, os planos de combate ao comunismo e a agenda de viagens do pontífice.

Em 13 de maio de 1981, João Paulo 2º seria alvo de uma tentativa de assassinato. O autor dos disparos foi o jovem Mehmet Ali Agca, um extremista turco que afirmou ter cometido o atentado por conta própria. Mas ninguém até hoje sabe como aquele jovem, que nunca teve um emprego estável, guardava milhares de dólares em diversos bancos turcos ou como tinha conseguido os passaportes falsos para viajar por vários países europeus antes de desembarcar na Itália. Conforme o que conta o historiador Paul Henze no livro The Plot to Kill the Pope, Agca chegou a admitir que o crime lhe fora encomendado por pouco mais de um milhão de dólares e que ele teria um esconderijo assegurado na Bulgária. Uma conversa telefônica de Agca teria sido interceptada — nela, o turco confirmaria o recebimento de dinheiro. De acordo com Henze, o próprio papa não tinha dúvidas de que seu atentado havia sido planejado pela KGB. João Paulo 2º chegou a comentar a seus assistentes que, ao visitar Agca na prisão, ficou claro que o jovem não tinha nenhuma grande hostilidade contra ele ou ao catolicismo: estava apenas obedecendo ordens. Apesar da certeza de que os soviéticos teriam encomendado o crime, o papa optou por não acusar abertamente a KGB – não tanto pela falta de provas, mas por acreditar que essa atitude só pioraria o contato entre a Igreja e os países comunistas. Preferiu oferecer a outra face ­- e esperar a queda da Cortina de Ferro e seus perigosos agentes secretos.

 

 

 

Batinas espiãs

Se o Vaticano foi alvo de espiões, o contrário também aconteceu. A prática da espionagem pela Igreja Católica tem mais de 5 séculos: foi criada com a Congregação do Santo Ofício da Inquisição. A pedido do papa Pio 5º (1504-1572), o padre Miguel Ghislieri criou o primeiro serviço de espionagem papal, com a missão de combater a expansão dos protestantes na Europa. O órgão teria sido batizado de Santa Aliança, por ter nascido de uma aliança entre Pio 5º e o rei Felipe 2º, da Espanha, para destronar a rainha protestante Elizabeth 1ª da Inglaterra.

Em seu livro A Santa Aliança – Cinco Séculos de Espionagem do Vaticano, o jornalista espanhol Eric Frattini afirma ter comprovado a existência dessa entidade com base em documentos obtidos junto à CIA, ao governo britânico e em arquivos históricos do governo italiano e da ordem dos jesuítas, os chamados soldados de Deus, dentro da qual teria sido recrutada a maior parte dos sacerdotes-espiões em séculos passados. Para o autor, o órgão secreto do Vaticano estaria por trás de vários atentados, como o que foi cometido contra o rei português Dom José 1º, em 1758.

O serviço de espionagem do Vaticano passou por uma modernização durante o mandato de João Paulo 2º, ao aproximar-se da CIA e do Mossad. Segundo Fratini, um exemplo dessa aproximação aconteceu em 1973. “Foi a Operação Diamante, em que a primeira-ministra israelense Golda Meir escapou de um atentado em Roma, durante uma visita ao papa Paulo 6º, graças à intervenção conjunta do Mossad e do serviço secreto do Vaticano”, disse ele à revista Visão, de Portugal, fazendo referência a um documento da CIA.

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