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Romanos usavam fóssil de animal extinto há 250 milhões de anos como joia

O trilobita fossilizado foi descoberto em um antigo assentamento no noroeste da Espanha e exibe marcas de manipulação intencional.

Por Luiza Lopes
25 jul 2025, 18h00 •
  • Um fóssil de trilobita, animal marinho extinto há cerca de 250 milhões de anos, foi encontrado durante escavações em um antigo assentamento romano no noroeste da Espanha. A peça, com cerca de quatro centímetros, chamou a atenção dos arqueólogos por um motivo inusitado: além de bem preservada, apresenta marcas claras de desgaste artificial, indicando que teria sido transformada em joia ou amuleto entre os séculos 1 d.C. e 3 d.C.

    A descoberta foi feita na Galícia e acaba de ser descrita por pesquisadores da Universidade de Vigo e do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) em um artigo publicado na revista Archaeological and Anthropological Sciences

    Trata-se do primeiro registro conhecido de uma trilobita modificada em um contexto arqueológico romano. No mundo todo, só há outros dez casos de trilobitas associadas a culturas antigas, e apenas três com indícios claros de uso humano intencional. 

    Durante o Alto Império Romano (de 27 a.C. a 284 d.C.), a região fazia parte da província da Gallaecia e abrigava um núcleo urbano estruturado, com casas de alto padrão, ruas pavimentadas e atividades metalúrgicas. A trilobita foi localizada em um depósito de lixo doméstico junto a cerâmicas, moedas, vidros e ossos de animais.

    O fóssil pertence ao gênero Colpocoryphe, típico do período Ordoviciano (485 milhões e 443 milhões de anos atrás), quando a maior parte da vida ainda se concentrava nos oceanos. Preserva parte do tórax e da extremidade posterior do animal.

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    O mais relevante, no entanto, é a presença de sete áreas distintas de desgaste abrasivo em sua face inferior, provavelmente feitas com ferramenta de ferro. 

    De acordo com o artigo, os vestígios “indicam um esforço humano para suavizar suas bordas e tornar o fóssil funcional como elemento de adorno”, sem afetar a superfície superior, que permanece bem conservada. Para os pesquisadores, trata-se de uma adaptação pensada para criar um encaixe em metal ou couro, como pingente ou pulseira, deixando à mostra o formato segmentado da carapaça.

    Outro dado relevante é que essa trilobita não é nativa da Galícia. A coloração avermelhada e o tipo de mineralização sugerem que ela se originou em depósitos do centro-sul da Península Ibérica, especialmente nas regiões espanholas de Toledo, Ciudad Real ou Badajoz – mais de 430 quilômetros ao sul. 

    Os autores sugerem que a peça pode ter sido transportada pelas rotas comerciais romanas, em especial pela Via da Prata, que conectava Mérida (antiga capital da Lusitânia) a Astorga (centro romano no noroeste da Península Ibérica).

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    “O fóssil pode ter viajado com metais e outros bens como um objeto único e exclusivo, valorizado na Gallaecia por suas propriedades protetoras e curativas”, escrevem os autores. Outra hipótese considerada é a de que alguém da Lusitânia o tenha trazido, atraído pela riqueza mineral da região.

    Na Antiguidade, fósseis eram frequentemente interpretados como objetos mágicos. Entre os romanos, ossos de grandes animais, como mamutes, podiam ser associados a gigantes ou heróis mitológicos. Já fósseis menores, como os de trilobitas, eram vistos como talismãs contra forças sobrenaturais. O imperador Augusto, por exemplo, mantinha uma coleção de fósseis em sua vila na ilha de Capri.

    O artigo propõe duas possibilidades principais de uso para o fóssil de Armea: como adorno pessoal ou como objeto cerimonial em um lararium, altar doméstico comum em casas romanas. O local da descoberta fica a apenas 1,5 metro de uma inscrição epigráfica com o nome “MAXSIMVS”, possivelmente associada a um espaço sagrado em uma residência de elite.

    A descoberta também se insere em uma tradição muito mais ampla. Fósseis de trilobitas já foram utilizados como pingentes no Paleolítico Superior, como o caso de um exemplar perfurado encontrado na França com cerca de 14 mil anos. 

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    Também há registros de seu uso como amuleto em cemitérios medievais da Estônia, na medicina tradicional chinesa (onde eram chamados de “vermes de pedra”) e entre povos indígenas da América do Norte e da Austrália. Nenhum outro, porém, havia sido até agora associado diretamente ao mundo romano com evidências concretas de modificação.

    O estudo ainda levanta a hipótese de que a aparência segmentada das trilobitas tenha influenciado o design de uma joia romana conhecida como Trilobitenperlen, que consiste em contas de vidro preto usadas principalmente por mulheres e crianças. 

    Embora nenhuma dessas contas tenha sido encontrada em Armea, sua semelhança visual com a carapaça da trilobita sugere uma inspiração possível. Os autores acreditam que os artesãos procuravam reproduzir as partes do tórax do animal original, transferindo à peça produzida o mesmo caráter protetor.

    Em algum momento, o objeto perdeu seu valor simbólico ou sua estrutura de fixação se quebrou. O metal ou couro que o envolvia pode ter sido reaproveitado, e o fóssil acabou sendo descartado junto com o lixo doméstico. Foi nesse contexto que ele permaneceu preservado por quase dois mil anos até ser redescoberto pelos arqueólogos.

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