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Gengis Khan tivesse conquistado a Europa?

No caminho entre cada região conquistada, as hordas de mongóis despertavam o pavor nas populações locais.

Voltaire Schilling

Nascido em 1162 numa barraca próxima à nascente do rio Oron, que banha o norte da atual Mongólia, o líder mongol Gengis Khan não era apenas um guerreiro destemido. Filho de um clã poderoso, Gengis Khan – que significa o “Khan dos Khans” – tinha espírito de empreendedor e legislador. Compilou e ordenou toda uma série de leis tribais num único código a ser respeitado pelos demais clãs, a Yassa. Era essa lei que ele iria alastrar pelo mundo através da sua espada.

Em 1218, já consagrado como líder guerreiro em lugares tão distantes como China, península coreana, Turquestão, Pérsia, Iraque e Hungria, Gengis Khan traçou um novo e audacioso plano. A sua linha de ataque foi dividida em três direções: a nuvem do norte, um enxame de cavaleiros mongóis, dirigiu-se para a Polônia, Prússia e Dinamarca; a nuvem do centro ocupou a França, sem ousar dali assaltar a Inglaterra, pois os mongóis eram avessos ao mar; a nuvem do sul chegou a Portugal depois de devassar a Ibéria e a Itália.

No caminho entre cada região conquistada, as hordas de mongóis despertavam o pavor nas populações locais. Eram rudes. Nem perdiam tempo em alimentar-se com carne cozida. Esmagavam carne crua num pote e a misturavam com pedaços de cebola, alho e sal, extraído do suor dos seus cavalos – inventaram o bife à tartar. Comiam-no a trote mesmo. Num nada, as ger (as tradicionais tendas mongóis) eram erguidas para que repousassem. Em seguida, de volta às selas, empreendiam a viagem sem -fim a que estavam acostumados. Usavam lanças fáceis de serem manejadas e uma cortante espada curta que traziam à cinta, nada que os atrapalhasse na investida.

Se, por acaso, as cidades resolviam resistir-lhes, colocavam os seus engenheiros chineses e árabes, peritos que traziam consigo de longe, para cavar enormes buracos. Gente capaz de, com um par de minas bem colocadas e com o trabalho extenuante de milhares de pás e picaretas, fazer ruir qualquer muralha. Era a maior máquina militar que o mundo já vira. O sucesso deles devia-se a dois fatores: o destemor e o movimento contínuo.

Gengis Khan determinou que as igrejas cristãs fossem fechadas e o papa, aposentado. Khan estimulou que o xamanismo (as crenças religiosas dos povos da Sibéria) substituísse a liturgia tradicional, enquanto ordenava a demolição dos mosteiros. No lugar deles determinou que fosse celebrado o obbo, um antigo ritual nômade que se fazia em frente a uma pilha de rochas ou pedras, enquanto os padres e outros sacerdotes foram substituídos pelos böge, os xamãs.

Em todos os lugares a paisagem logo denunciava a presença dos descendentes do dominador da Europa. As chomchong, as grandes tendas, dominavam o cenário. Cidades como Veneza e Paris, que estavam engatinhando na época das invasões, assemelhavam-se a campings primitivos – pois a arquitetura não parecia ser uma das grandes preocupações dos mongóis.

A língua comum dessa Europa domada tornou-se o tártaro, escrita rebuscada feita por escribas chineses especialmente trazidos para organizar o Canato da Europa, que, assim, somado aos demais – aos Canatos de Kipchak, o de Il, o de Chagatai, obedientes todos a um só Khaqan, a um só governante mongol –, integrava-se num mercado comum universal, ao Império Yuan, que estendia-se das margens do Atlântico até o Mar do Japão, sendo percorrido de leste a oeste pela Rota da Sede e pela velha Estrada Imperial do Chá, tudo isso protegido pelo escudo da Pax Mongolica. Assim, no século XIII – sem poder conhecer o Humanismo, o Renascimento, e muito menos o Iluminismo –, teve início a globalização, garantida pelo fio da adaga dos descendentes de Temudjin, o nome de berço de Gengis Khan, aos acordes do moriin huur, o lendário violino mongol, que fazia todo mundo dançar no embalo de suas cordas.

Poucos anos depois da morte de Khan, em 1227, a Europa quase inteira estava ocupada pela gente de pequena estatura, olhos oblíquos e tez amarelo-oliva. Em todos os lugares a paisagem logo denunciava a presença deles. Brincos e longos cabelos poderiam ser observados mesmo em membros da nobreza européia, que compactuou com os desmandos do líder mongol e selou alianças políticas para permanecer no poder. Afinal, ser um possível aliado de Gengis Khan era como ser sócio majoritário de boa parte do chamado mundo civilizado.

Para muitos desses nobres, a Pax Mongolica era uma espécie de renascimento dos ideais globalizantes do Império Romano. Desde Oto III (morto em 1002), rei da Germânia que, a partir de Roma, dominou a Europa em conluio com os papas Gregório VI e Silvestre II, o ideal de um Império Universal estava adormecido nas aspirações dos chefes europeus. A perspectiva de reeditá-lo através da linhagem de Gengis Khan fez com que a Europa se unisse em torno do legado do líder mongol.

Batu, o neto de Gengis Khan e sucessor político do avô, determinou que uma série de príncipes europeus – nomeados por ele como Ejen, senhor – , comprometidos a pagar o tributo ao conquistador, poderiam agir em nome da Horda de Ouro, governando cada um deles um ulus, o feudo mongol. Como o feudo de Portugal, que descobriu o futuro canato das Américas em 1500…