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Guerra Química, as máscaras do terror

Pela primeira vez na história, substâncias tóxicas foram usadas como armas num conflito militar. Resultado: mais de 1 milhão de baixas, entre mortos e feridos

Texto Ricardo Bonalume Neto

Considerada o primeiro conflito tecnológico da história, a 1a Guerra Mundial foi pródiga em armamentos que, até então, jamais tinham sido vistos numa frente de batalha. Tanques, aviões e submarinos, entre outras novidades letais, aterrorizavam os soldados. Mas nenhuma dessas inovações foi mais assustadora, pelo menos à primeira vista, que os gases venenosos usados tanto por britânicos e franceses quanto por alemães.

Contra as nuvens de substâncias tóxicas lançadas sobre as trincheiras, não havia o que fazer. No máximo, os combatentes colocavam um lenço sobre o rosto e torciam por uma mudança repentina na direção do vento. Mais tarde, do meio da guerra em diante, passaram a usar máscaras antigás. Mesmo assim, nem sempre elas surtiam o efeito desejado. Estima-se que o uso de armas químicas entre 1914 e 1918 tenha provocado cerca de 1 milhão de baixas, entre mortos e feridos.

Bafo do diabo

O uso de gases tóxicos foi mais uma tentativa de quebrar o impasse da guerra de trincheiras, em que as batalhas duravam meses e muitas vezes terminavam sem vitória para nenhum dos lados. Alemães e Aliados buscavam uma arma “mágica”, que fosse capaz de romper a paralisação das frentes de combate. Apostaram no uso de substâncias incapacitantes ou letais. Mas, em pouco tempo, descobriram que elas não seriam tão eficazes assim.

Embora tirassem muitos soldados de cena quase que instantaneamente, sobretudo quando pegavam os adversários de surpresa, as armas químicas da época não foram decisivas. Motivo: os exércitos continuavam incapazes de mobilizar suas reservas a tempo de aproveitar eventuais brechas abertas nas linhas inimigas. O “bafo do diabo”, na definição do veterano britânico Alan Hanbury Sparrow, acabou se transformando em mais um elemento irritante e extremamente desgastante na tenebrosa rotina que os combatentes enfrentavam enquanto estavam entrincheirados.

A primeira substância tóxica usada em combate foi o gás lacrimogêneo, lançado em pequenas quantidades pelos franceses contra unidades militares da Alemanha logo no começo da guerra, em 1914. Mas foram os alemães que deram início ao seu uso intensivo. No dia 3 de janeiro de 1915, eles empregaram uma substância parecida – o brometo de xilila – contra tropas russas no front oriental, durante a Batalha de Bolimov, a oeste da cidade de Varsóvia. O resultado da operação poderia ter sido desastroso para os russos, não fosse a providencial ajuda garantida pelo rigoroso inverno do Leste Europeu. Pouco volátil, o gás praticamente congelou quando foi exposto ao frio intenso.

Já o primeiro ataque na frente ocidental fez estragos bem maiores. Ele aconteceu no dia 22 de abril de 1915, durante a 2a Batalha de Ypres, em território belga. Dessa vez, os alemães usaram o gás cloro, muito mais nocivo e perigoso que o lacrimogêneo. Cerca de 160 toneladas da substância, até então desconhecida pelos Aliados, foram acumuladas em 6 mil cilindros e liberadas quando o vento soprava na direção dos inimigos. Resultado: milhares de baixas e um rombo de aproximadamente 8 quilômetros nas linhas francesas.

Coordenado pelo cientista Fritz Haber (que, em 1918, ganharia o Prêmio Nobel de Química), o ataque foi tão bem-sucedido que pegou os próprios alemães de surpresa. Eles não souberam aproveitar aquela rara oportunidade de avanço e perderam a chance de concretizar uma ruptura que poderia ter sido decisiva. Dois dias depois, o gás cloro tornou a ser usado, mas contra tropas canadenses. No dia 1º de maio, nova investida, agora sobre soldados britânicos. Sem máscaras antigás, os combatentes recorriam a prosaicos lenços molhados, embebidos em água ou numa mistura com bicarbonato de sódio e colocados sobre a boca e o nariz. Alguns preferiam umedecê-los com a própria urina, acreditando que a amônia pudesse neutralizar com um pouco mais de eficiência o efeito da substância tóxica. Nada disso, contudo, parecia funcionar muito bem.

O gás cloro também foi usado pelos Aliados contra os alemães, como na tomada da cidade de Loos, na França, em setembro de 1915. Naquela batalha, os britânicos lançaram cerca de 140 toneladas da substância sobre o inimigo. Mas por pouco não acabam eles mesmos sendo as maiores vítimas do ataque químico. Com uma súbita mudança na direção do vento, a nuvem tóxica atingiu os próprios soldados da Grã-Bretanha, matando 7 deles. Era mais uma prova de que armas como aquela não seriam capazes de decidir a guerra.

Mesmo assim, o gás venenoso voltaria a ser usado em diversos momentos. Na titânica Batalha de Verdun, travada em 1916, ele quase determinou a vitória da Alemanha frente às tropas francesas, cuja artilharia foi severamente afetada pela substância. A situação se repetiu na Batalha de Caporetto, em 1917, quando tropas alemãs e do Império Austro-Húngaro atacaram com gás cloro e quase tiraram a Itália do conflito. A combinação de granadas explosivas de artilharia com granadas contendo gás causou sérios danos aos Aliados também na Ofensiva Ludendorff, em 1918. Àquela altura da 1a Guerra Mundial, entretanto, o uso de máscaras e respiradores já estava disseminado e contribuiu para amenizar os efeitos nocivos da substância.

Pânico nas trincheiras

Uma das táticas alemãs mais temidas durante a guerra era a utilização simultânea de dois gases: um lacrimejante, para forçar o soldado a tirar a máscara, e outro incapacitante, como o fosgênio, que sufocava as vítimas. A mais perigosa das armas químicas, no entanto, era o gás de mostarda, também conhecido como iperita. O nome vem da cor amarelada da substância. E seu efeito é devastador: produz bolhas e feridas na pele, pode levar à cegueira e causa necrose nas vias respiratórias, podendo matar por asfixia (leia mais no quadro ao lado). Os alemães foram os pioneiros no uso desse agente durante a 1ª Guerra, tanto no front ocidental quanto no oriental.

À medida que armas químicas tornavam-se comuns nas frentes de batalha, combatentes de ambos os lados foram obrigados a lançar mão de máscaras antigás e roupas protetoras. Também tiveram de se acostumar a novas rotinas, que incluíam a checagem constante dos abrigos subterrâneos, para ter certeza de que ali não havia qualquer vestígio de resíduos tóxicos. Sentinelas eram instruídas a prestar atenção o tempo todo na direção do vento. Granadas de fumaça usadas para mascarar um ataque eram freqüentemente confundidas com armas químicas, espalhando pânico entre as tropas. Ao menor sinal de uma nuvem tóxica, os combatentes soavam uma espécie de gongo, geralmente improvisado com estojos de munição. Imediatamente, todos corriam para vestir sua máscara.

O tenente britânico Bernard Martin, em depoimento reproduzido pelo historiador Richard Holmes no livro Tommy – The British Soldier on the Western Front (“Tommy – O Soldado Britânico na Frente Ocidental”, sem tradução para o português), relata os momentos angustiantes vividos por soldados entrincheirados em Ypres quando, em 1916, o gongo soou anunciando a aproximação de uma nuvem de gás: “Um homem estava sem máscara e em seu rosto branco havia uma expressão de horror. Vi esse homem balançar de lado, braços estendidos, tentando puxar a máscara de outro soldado. Um terceiro estava entre os dois. Um deles caiu. E tudo terminou num instante, um quadro vívido em minha memória para sempre”.

Gases venenosos

As armas químicas que mais foram usadas nos fronts da 1ª Guerra Mundial

Bromoacetato de etila (gás lacrimogêneo)

Efeito: mal-estar, intensa irritação nas vias respiratórias e nos olhos.

Quem usou: França.

Quando: início da guerra, em 1914.

Brometo de xilila (gás lacrimogêneo)

Efeito: mal-estar, intensa irritação nas vias respiratórias e nos olhos.

Quem usou: Alemanha.

Quando: em 1915, no front oriental.

Gás cloro (Cl2)

Efeito: irritação das vias respiratórias, podendo causar edema pulmonar fatal.

Quem usou: Alemanha e Aliados.

Quando: de 1915 até o fim da guerra.

Fosgênio (cloreto de carbonila)

Efeito: acessos de tosse, irritação severa das vias respiratórias por períodos de até 48 horas, podendo levar à morte por asfixia.

Quem usou: Alemanha e França.

Quando: de 1915 até o fim da guerra.

Tricloronitrometano (cloropicrina)

Efeito: poderoso agente sufocante, provoca vômitos e é capaz de matar por asfixia em 10 minutos, dependendo da concentração empregada.

Quem usou: Alemanha e Aliados.

Quando: de 1915 até o fim da guerra.

Gás de mostarda (iperita)

Efeito: bolhas na pele e cegueira. Destrói os alvéolos pulmonares e leva à morte por asfixia quando inalado em grande quantidade.

Quem usou: Alemanha e Aliados.

Quando: de 1917 até o fim da guerra.