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Kung fu: Wataaaaaahhh!

Há dois mil anos, militares chineses desenvolveram as técnicas de defesa pessoal fundadoras do kung fu. Com movimentos ágeis inspirados na natureza, a mais nobre das artes marciais dominou o Oriente e seduziu o Ocidente

Eliza Muto

No ano 102 d.C., as tropas do chinês Wudi, o “imperador militar”, cercaram a capital do reino de Fergana, onde hoje fica o Uzbequistão. O tamanho do exército deixava claro suas ambições: eram 60 mil soldados, 30 mil cavalos e 100 mil cabeças de gado, burros e camelos. Wudi enviara suas forças a Fergana para conquistar um dos maiores tesouros da Ásia: os “cavalos celestiais”. A fama deles corria o continente. Eram corcéis magníficos, os mais potentes de que se tinha notícia. Diziam que, de tão fortes, os animais transpiravam gotas de sangue – hoje acredita-se que o sangramento era causado por um parasita que se alojava sob a pele do cavalo, na região das ancas.

Os soldados de Wudi voltaram para casa montando seu tesouro. A força de seu exército certamente foi decisiva, mas um detalhe fazia a diferença e garantia boa parte do sucesso do estrategista militar – talvez o melhor da dinastia Han (206 a.C – 220 d.C.): Wudi era adepto das artes marciais e das técnicas de defesa pessoal. Enquanto foi imperador, elas estiveram próximas do poder como nunca e começaram a ser utilizadas em batalha. O domínio de técnicas de defesa pessoal era um pré-requisito para aqueles que desejavam assumir o posto de general. Os soldados eram mestres na luta corpo a corpo, no manejo da espada e do bastão. Boa parte desses movimentos forma a base do que hoje conhecemos como kung fu, e cada vez mais evidências apontam sua forte ligação com a história da China. Para muitos historiadores, não é demais dizer que a civilização chinesa nasceu sob o signo das artes marciais.

Mosteiro Shaolin

Foi em um mosteiro budista na província de Henan, encravado nas montanhas do norte da China, que todos os conhecimentos formadores do kung fu foram unificados, por volta do ano 520 d.C. Bodhidharma, um monge indiano, enriqueceu e refinou as diversas formas de combate que existiam até então. Bodhi, como também é conhecido, vivia no mosteiro Shaolin – que significa “pequena floresta” em chinês. Lá ele ensinou aos religiosos uma série de exercícios que, mais tarde, seriam perpetuados e aprimorados por seus discípulos no Shaolin e também no monastério de Fukien, costa sul da China, outra das casas originais do kung fu. O mosteiro foi incendiado e praticamente destruído duas vezes (1736 e 1928), mas existe até hoje.

BASTÃO ARTICULADO DE TRÊS SEÇÕES

É uma das armas mais eficientes da arte marcial chinesa. Uma de suas vantagens é servir, ao mesmo tempo, para ataque e defesa. Os dois bastões das extremidades podem ser usados separadamente – um para bater no corpo do agressor e outro para defender um golpe adversário

FACÃO

O “marechal” de todas as armas, o facão é considerado essencial e se caracteriza pelo vigor e pela velocidade. Usado em combates de curta distância, é uma extensão do braço do lutador e permite movimentos ágeis de ataque e defesa

FORA DE FORMA

Ao chegar ao templo Shaolin, Bodhidarma percebeu que os monges estavam muito rechonchudos e preguiçosos – em questão de minutos eles ficavam extenuados com a prática da meditação. Foi aí que o grande mestre decidiu submeter todos os religiosos a um programa de exercícios para fortalecer o corpo – e entrar em forma

COR DA TERRA

Os religiosos budistas costumam utilizar roupas laranja-açafrão, numa referência à coloração da terra, que foi testemunha do nirvana de Buda. Embora fosse uma vestimenta de ofícios, usada em estudos e rituais, também era utilizada para os treinamentos dos primeiros lutadores de kung fu no mosteiro Shaolin

DENTE DE LUA

É uma das armas mais poderosas do kung fu. É capaz de anular, bloquear, cortar, furar e, é claro, matar o adversário. Com uma extremidade pontiaguda e outra em meia-lua, a arma pode abater o inimigo em um único golpe

GANCHO DUPLO DE CABEÇA DE TIGRE

Um instrumento “dois em um” que une a foice e o gancho. O lutador tem à disposição várias pontas e lâminas, mas precisa ter uma perfeita coordenação das mãos para desferir os golpes contra o adversário. Um simples erro e a arma pode se virar contra o próprio lutador

BASTÃO

É a arma-mãe do kung fu, que deu origem a todas as outras usadas até hoje. No passado, era utilizado pelos monges budistas para se protegerem ou carregar pertences. É rápido e ágil, protagonizando varridas, pancadas e movimentos em círculo

1. ENERGIA INTERNA E TAI CHI

Para Bodhi, tão valiosa quanto a força bruta é a energia interna. Alguns dos movimentos que ele criou fortalecem o equilíbrio e a resistência mental. Deles se originaram os “estilos internos” – o tai chi chuan é o mais conhecido

2. PA KUA

Inspirado no equilíbrio entre opostos pregado no I Ching, as ações do pa kua acontecem num imaginário círculo que representa o yin e yang e os oito trigramas – formações de três linhas representando os estágios da vida

3. BODHI E O ZEN-BUDISMO

Bodhi também fundou o zen-budismo. Para o monge, todos os seres podem ser iluminados se descobrirem o Buda interior. Como? Meditando por horas, em posição de lótus, refletindo sobre o vazio ou enigmas insolúveis

4. MOOK JONG

No treinamento, os monges tinham de enfrentar um forte adversário: o mook jong. Criado no monastério de Fukien, o modelo de madeira com articulações que simulam braços e pernas ajuda a aperfeiçoar o bloqueio e contra-ataque

Os primeiros estilos

Para atingir a perfeição nos golpes de kung fu, monges budistas foram buscar inspiração na natureza. Na dinastia Yuan (1279-1368 d.C.), o monge Bai Yufeng criou uma seqüência de exercícios que se inspiravam e reproduziam os movimentos de cinco animais: dragão, tigre, leopardo, cobra e garça. Com o tempo, essas técnicas saíram dos limites budistas e os estilos ganharam vida própria. A força do tigre, a fluidez da cobra e a leveza da garça dariam origem a alguns dos primeiros estilos de kung fu.

COBRA

Com movimentos fluidos e sinuosos, o lutador do estilo cobra analisa seu oponente e aguarda pacientemente o momento exato para dar bote. O contato com o adversário é mínimo, graças a seus rápidos reflexos. E, quando menos se espera, o lutador atinge seu oponente com um único golpe

1. No primeiro ataque do inimigo, o lutador bloqueia com agilidade o golpe aparando-o com o braço direito típico do estilo da cobra, que lembra o corpo e a cabeça do réptil

2. O praticante desvia o braço do agressor para o lado e com o braço esquerdo “cutuca” seu rosto com os dedos em cobra. Mas, desta vez, o oponente consegue se defender, segurando o punho do lutador

3. Como uma cobra que dá o bote, o praticante mira os olhos do inimigo com o braço direito. O agressor tenta, em vão, segurar o braço esquerdo do lutador, que recua e aumenta a vulnerabilidade do adversário

GARÇA BRANCA

Uma lenda conta que, há 500 anos, um lama tibetano testemunhou uma luta entre uma garça e um macaco e ficou impressionado com a vitória da delicada ave sobre o musculoso primata. Nascia aí o estilo que incorpora a luta da garça ao kung fu. Uma de suas características é o bico – formado com as pontas dos dedos das mãos mantidas unidas firmemente

1. O oponente desfere um murro em direção ao rosto do lutador que, com as mãos em “bico de garça”, bloqueia o ataque inimigo

2. O praticante desvia o soco do adversário e afasta seu braço, deixando-o sem guarda. Simultaneamente, prepara um golpe com o outro braço, equilibrando-se apenas em uma perna

3. Com leveza e harmonia, desfere uma “bicada” na altura dos olhos do agressor esticando o braço por fora. O espírito majestoso da garça branca surpreende e derrota o adversário

CHOY LEE FUT

A tradição oral conta que, inicialmente, esse estilo era uma espécie de treinamento militar de emergência, empregado por patriotas rebeldes chineses contra o governo invasor manchu no século 19. Por isso, a técnica, inspirada principalmente nos movimentos do tigre, é rápida, direta e prima pelo ataque como a melhor estratégia de defesa

1. O agressor aplica um soco em direção ao rosto do lutador do estilo Choy Lee Fut. Para se defender do ataque inimigo, ele emprega a posição de guarda do tigre, preparando um golpe com os braços em um movimento circular

2. O praticante lança golpe com a garra de tigre, bloqueando a investida do adversário. Se bem aplicado, a garra do tigre pode até arrancar o olho de um inimigo

3. Rapidamente, o lutador avança em direção ao agressor com um passo, cruzando a perna, e conclui seu ataque ao rosto do inimigo

Feitos fantásticos

Grandes mestres testam os próprios limites

ESTÔMAGO DE AÇO

Pelo semblante tranqüilo do mestre Ku Yu Cheung (1894-1952) nem parece que em cima dele estão nada menos que um carro e dois lutadores de kung fu. É uma demonstração de como o Qi, a energia interna, pode proteger seu estômago até ele suportar as duas toneladas do veículo.

PONTE DE FERRO

O mesmo Ku Yu Cheung desenvolveu outras técnicas de domínio da energia interna. O mestre era um especialista na “ponte de ferro” – com o corpo apoiado em dois cavaletes de madeira, Cheung suportava uma placa de pedra e quatro discípulos, num total de 300 quilos.

CAMA DE PREGOS

Os brasileiros também têm o poder. Há 15 anos, o mestre Edecir Lopes Martins é o único capaz de dominar a técnica da “cama de pregos”. Deitado sobre uma superfície repleta de pregos afiados, ele consegue suportar marteladas dadas em duas placas de pedra colocadas sobre seu corpo. Após o feito, o mestre não fica com nenhum arranhão.

Centenas de estilos

Com a dispersão pela China das técnicas ensinadas no Shaolin, a arte marcial se diversificou em centenas de formatos. Existem hoje pelo menos 360 estilos batizados de acordo com sua inspiração: animais, províncias, famílias ou figuras religiosas. Foi só a partir do século 20 que todos começaram a ser chamados de kung fu (significa habilidade, virtude). A celebração dessa arte milenar pode acontecer em breve: a China aguarda resposta do Comitê Olímpico Internacional para a inclusão do kung fu nos Jogos de Pequim, em 2008. Conheça alguns dos estilos mais praticados atualmente.

DRAGÃO

Seus movimentos em ziguezague lembram a sacudida do corpo do dragão. A malebilidade do monstro pode, em uma fração de segundos, ser irrompida por um golpe capaz de derrubar o adversário. O lutador até emite um som semelhante ao que seria o sibilo de um dragão, o que o ajuda a obter o máximo de poder de seus golpes

1. O lutador do estilo do dragão tenta se desvencilhar do oponente, recuando. No entanto, este segura seu braço direito e não o deixa escapar

2. Com a resistência do adversário, o lutador tenta libertar-se, apesar de ter um braço bloqueado. Para isso, executa com o outro braço um movimento de saída para soltar a mão direita presa

3. O lutador finalmente se solta. Ao mesmo tempo, encaixa no rosto do oponente um golpe do estilo do dragão. Os dedos contraídos como as garras do animal prendem e penetram na pele do agressor

MACACO

É o estilo mais engraçado – e também o mais mortal – do kung fu. Foi criado pelo mestre Kau See, que durante sua prisão no governo manchu observou macacos que viviam em árvores próximas ao cárcere. Kau teria estudado as ações de caça e sobrevivência dos animais. Solto, incorporou seus golpes ágeis e acrobáticos à arte marcial.

1. O lutador do estilo do macaco defende-se de um soco do oponente e evita o confronto direto, girando o corpo para trás. Praticamente não há contato físico com o agressor

2. O praticante despista suas intenções ao girar o corpo e preparar um golpe com a mão esquerda por cima e outro com a direita, por baixo. Enquanto isso, o oponente é desorientado em sua investida, sem entender o que o lutador pretende fazer

3. O que parecia ser uma fuga estratégica na verdade não passa de uma malandragem. Com a mão esquerda, o praticante prende o braço de ataque do agressor enquanto sua mão direita o ataca por cima

LOUVA-A-DEUS

Uma lenda transmitida pela tradição oral do kung fu conta que um louva-a-deus travava uma luta de vida ou morte com uma cigarra. A robusta cigarra estava a ponto de prender seu adversário com as patas quando o louva-a-deus, quase em pé, reagiu usando suas pernas dianteiras para agarrar a cigarra. O mestre Wang Lang, que presenciou a cena, aplicou os rápidos movimentos do inseto vitorioso na arte do combate humano

1. O lutador encara o adversário bloqueando seu soco com a mão do louva-a-deus – o indicador fica solto enquanto os outros dedos, unidos, formam uma espécie de leque

2. Com o mesmo braço, o praticante tira de ação o membro de ataque do agressor. Ao mesmo tempo, avança em direção ao inimigo e o ataca por cima. Embora o adversário bloqueie seu golpe, o praticante pode agarrar seu braço

3. Com o agressor dominado, o lutador puxa o braço que havia agarrado, anulando o inimigo. E, com a outra mão, desfere um murro em seu rosto

Astros das telas

Eles levaram os golpes do kung fu para Holywood

Bruce Lee

É o grande responsável pela popularização do kung fu no Ocidente. A brilhante carreira no cinema, que inclui filmes como O Dragão Chinês e Operação Dragão, foi tragicamente encerrada com sua morte, aos 32 anos, numa provável reação alérgica a medicamentos.

Jackie Chan

Chan mostrou uma forma diferente de fazer filmes de artes marciais – com um toque de humor. Seu primeiro sucesso foi Punhos de Serpente, de 1978. Mas Chan conquistou o mercado internacional com Arrebentando em Nova York e Hora do Rush 1 e 2.

Jet Li

Um prodígio no wushu, a mais jovem das modalidades de kung fu, Li é a nova cara dos filmes de artes marciais. Sua estréia no cinema foi em O Templo Shaolin, em 1979. Ele ganhou fama no Ocidente como o vilão de Máquina Mortífera 4 e o protagonista de Romeu Tem que Morrer. É a estrelado recém-lançado Herói.

Para saber mais

Na livraria:

Kung Fu, History, Philosophy and Technique – David Chow e Richard Spangler, Unique Publications, EUA, 1982

O Caminho do Guerreiro, o Paradoxo das Artes Marciais – Howard Reid e Michael Croucher, Cultrix, 1983

Na internet:

http://www.cbkw.org – Página da Confederação Brasileira de Kung Fu