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Máquinas de ferro e homens de aço

Como a espionagem se tornou um dos fatores decisivos na maior guerra de todos os tempos

Texto Thiago Ianelli Soeiro

A 2ª Guerra Mundial, travada entre 1939 e 1945, foi o maior conflito armado da história. As repercussões das batalhas travadas nessa época ainda ecoam nos dias atuais, e o mesmo acontece com os seus segredos. Boa parte dos triunfos obtidos nessas batalhas só aconteceu graças à uma outra guerra, de conflitos subterrâneos, lutas clandestinas, uma guerra mental e psicológica onde o poder estava na desinformação e na capacidade de ludibriar os inimigos: a guerra da espionagem.

Durante o conflito, foi extremamente difícil conduzir o tipo de espionagem com as quais as agências de inteligência estavam acostumadas. Infiltrar agentes em solo inimigo era complicado, já que as características de cada cultura e especialmente a língua de cada país eram muito difíceis de ser aprendidas em pouco tempo. Todas as primeiras tentativas dos nazistas de enviar agentes secretos para a Inglaterra (eles eram lançados de pára-quedas durante a noite) falharam, porque os espiões alemães eram tão diferentes e se destacavam tanto da população local que todos acabavam aprisionados. Do outro lado, as coisas não eram muito melhores. Não havia agentes ingleses trabalhando dentro da Alemanha nazista, porque as agências de inteligência alemãs acabavam descobrindo todos os que tentavam entrar no país. Os únicos que tinham chances de sucesso eram os agentes duplos, ou seja, alemães ou ingleses de nascença que aceitavam – ou pelo menos fingiam aceitar – colaborar com o inimigo. Mas, apesar de terem conseguido obter informações significativas, como no caso dos espiões ingleses Garbo e Triciclo ou do russo Ramsay (veja mais detalhes sobre eles a partir da página 56), ainda era muito pouco para as necessidades estratégicas dos países combatentes.

Tornou-se óbvio que a espionagem daquela guerra não poderia ser apenas do tipo conhecido como “inteligência humana”, através de agentes infiltrados no governo inimigo. Em vez disso, ambos os lados teriam de desenvolver operações baseadas na tecnologia. Logo começou uma corrida para criar aparelhos que pudessem criptografar transmissões, direcionar comunicações, ouvir as comunicações inimigas e preservar informações essenciais. Quem conseguisse essa tecnologia teria vantagem na guerra.

Decifrando o Enigma

Entre todas essas máquinas, as mais complexas e secretas eram, sem dúvida, os aparelhos de criptografia. A máquina que gerava as mensagens codificadas para as transmissões de rádio nazistas, chamada Enigma, era um dos itens mais cobiçados pelo comando aliado. A Enigma tinha o aspecto de uma máquina de escrever, com o teclado adaptado ao idioma alemão, mas com algumas diferenças. Dentro da máquina havia um cilindro onde estavam colocados 3 rotores removíveis (a cada carta, um rotor diferente podia ser inserido, para que a ordem criptográfica fosse alterada), cada um deles trazendo impressas todas as 26 letras do teclado. Quando uma mensagem era teclada, um impulso elétrico era enviado aos rotores e, a cada letra, esses rotores giravam, fazendo com que, por exemplo, a letra “P”, fosse interpretada pelas máquinas que enviavam as comunicações de rádio como um “F”. Se o operador apertasse novamente a tecla “P”, os rotores girariam novamente, fazendo com que, na segunda vez, a letra fosse interpretada como um “H”. Isso tornava as mensagens extremamente difíceis de ser decifradas, pois o código nunca se repetia. Usando o sistema inverso, as mensagens eram decodificadas e lidas pelo destinatário.

A Enigma foi uma poderosa arma dos alemães durante o início da guerra. A vantagem que a máquina proporcionava era tão grande que os capitães de navios equipados com ela eram instruídos a destruir a máquina em caso de abordagem ou naufrágio, para que não houvesse risco de cair nas mãos de soldados aliados. Ironicamente, foi em uma batalha marítima, em 1941, que a Enigma acabou chegando às mãos do governo britânico. Sofrendo de inúmeras avarias após ser atingido por cargas de profundidade lançadas por um destróier inglês, o submarino alemão U-110 foi forçado a emergir. A tripulação abandonou velozmente o submarino, negligenciando os protocolos de destruição de documentos, pois achava que o U-110 afundaria rápido demais. Porém deu tudo errado: marinheiros britânicos abordaram o submarino a tempo e puseram as mãos não só na Enigma mas também nos seus manuais de funcionamento. A partir dessa descoberta, as agências de inteligência dos Aliados “quebraram” o código das comunicações do comando militar alemão, especialmente as informações envidas por sua Marinha. Isso foi fundamental para afastar a ameaça dos submarinos nazistas, que atacavam os comboios de tropas aliadas – a famosa Batalha do Atlântico.

Decisão no Pacífico

Um outro código que deu muito trabalho ao comando aliado foi o JN-25, o 25o código implementado pela marinha imperial japonesa, utilizado antes e durante a 2a Guerra. Era um código quase tão complexo quanto aquele produzido pela Enigma, mas com uma diferença fundamental: era constantemente atualizado e remodelado. O JN-25 era um código numérico, usado para enviar informações como localização de ataques, de tropas inimigas e de pontos estratégicos no mar através de uma aparelhagem. As informações transmitidas por uma máquina especial ficavam contidas em 5 grupos de números; quando elas chegavam ao destino, eram decifradas com a ajuda de livros-código, que eram constantemente trocados pelo comando de inteligência japonês.

O JN-25 foi o código usado para coordenar os navios que realizaram o bombardeio em Pearl Harbor, o que impossibilitou que o governo americano pudesse se preparar para o ataque. Depois do ataque, os livros-código existentes foram confiscados e modificados pelo alto comando da Marinha japonesa, para que não houvesse nenhum risco de quebra no código pelas forças aliadas. Mesmo com todo esse cuidado, uma edição do código foi decifrada pelo serviço secreto americano, que logo passou a ter acesso total às comunicações militares japonesas. Esse conhecimento foi fundamental para que os americanos vencessem a Batalha de Midway, o mais importante conflito naval da 2a Guerra.

Seis meses após o ataque a Pearl Harbor, os japoneses pretendiam invadir o atol de Midway, o que aumentaria o perímetro de defesa do Japão. Além disso, tomar Midway prepararia o terreno para ataques às ilhas Fiji e, finalmente, para a tomada do Havaí. O plano de batalha japonês era atrair os poucos porta-aviões americanos estacionados no Havaí para uma armadilha e afundá-los. O problema é que o comandante da Marinha americana, almirante Nimitz, tinha em suas mãos uma vantagem esmagadora: o conhecimento total de seus planos, transmitidos no código JN-25 e interceptados pelo serviço de inteligência. Como conseqüência, os americanos entraram no conflito com informações prévias sobre as forças inimigas. O resultado da batalha foi uma derrota devastadora para o Japão: mesmo com forças numericamente muito superiores, eles perderam 4 porta-aviões e mais de 200 aviões, contra apenas 1 porta-aviões americano afundado. A partir daí, a guerra no Pacífico seria sempre favorável aos Aliados, graças à quebra dos códigos japoneses.

Pondo fogo na Europa

Mas não foram apenas as máquinas que decidiram o resultado da 2a Guerra. Logo após a invasão da França pelos nazistas, em 1940, os Aliados criaram uma nova força de voluntários que teria como objetivo lutar na guerra secreta contra Hitler. Essa força foi chamada de E, sigla para Special Operations Executive (“Executora de Operações Especiais”). Ela era subordinada às forças conjuntas de inteligência aliadas e especializada em missões clandestinas de sabotagem e de subversão atrás das linhas inimigas. Isso significava explodir trens, pontes e fábricas que eram pontos-chave na distribuição de armas, munições e mantimentos para os exércitos do Eixo. A E operava sob as ordens do primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, que declarou que o grupo tinha que “fazer a Europa ‘pegar fogo’ e deixar o comando nazista perplexo”.

Os agentes da E eram equipados como verdadeiros James Bonds: a equipe empregava os melhores cientistas da Inglaterra para desenvolver armas de guerra dignas dos filmes de 007. Eles desenvolviam artefatos como uma pistola-charuto (que podia disparar um único tiro) ou a Sleeping Beauty (“Bela Adormecida”), uma canoa que podia ser submersa e escondida perto da costa, funcionando como o perfeito veículo de entrada e saída de terras inimigas. No arsenal da E, também estavam o carborundum (uma espécie de graxa abrasiva, usada para parar locomotivas com apenas algumas gotas em pontos estratégicos da máquina) e as ilusões criadas pela equipe do diretor cinematográfico Elder Wills. Os ilusionistas de Wills criavam troncos de árvores e pedras falsas, onde eram escondidos desde equipamento de rádio até armadilhas explosivas, para serem usados nas missões secretas do grupo.

Um exemplo da eficácia desses homens de aço foi a descoberta de que uma usina elétrica em Pessac, na França, fornecia energia para a fabricação de submarinos alemães. Os agentes se infiltraram no local, plantaram bombas, evacuaram a usina e explodiram as instalações. A equipe também participou de dezenas de outras missões durante a guerra. Uma das mais importantes foi a descoberta e sabotagem de uma usina norueguesa (o país estava ocupado pelos alemães) que fabricava água pesada, do tipo usado em reatores nucleares. A destruição do local arruinou as chances nazistas de obter a bomba atômica e mostrou a capacidade de alguns homens e máquinas de decidir a sorte da maior guerra que o mundo já viu.

O homem que nunca existiu

Em 1943, a Inglaterra planejava invadir a ilha da Sicília, no Mediterrâneo, como um primeiro passo para o ataque à Itália continental. O problema é que os alemães tinham grandes contingentes militares estacionados por lá, tornando quase impossível uma invasão naval. Para resolver o impasse, a inteligência aliada logo criou um dos planos mais mirabolantes da guerra: o corpo de um soldado, morto havia alguns dias, foi vestido com uma farda da Marinha britânica e com credenciais do fictício major William Martim. Com ele, foram colocadas cartas de uma noiva e de um pai inexistentes, além de uma carta onde o vice-comandante britânico comunicava a um de seus generais que as próximas ofensivas tinham como alvo a Sardenha e a Grécia. O corpo do “major” foi levado por um submarino até próximo à costa de Huelva, na Espanha, e foi jogado ao mar. Ele foi levado pelas correntes até a praia, onde foi encontrado por militares espanhóis e entregue aos alemães, com todos os documentos falsos. Os nazistas acreditaram nas informações e tiraram suas tropas da Sicília, levando-as para os alvos da ofensiva aliada imaginária. Assim, britânicos e americanos desembarcaram na Sicília com pouca oposição e tomaram facilmente a ilha.