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Nas pegadas dos brasilsauros

Esqueça Hollywood. O Brasil já teve dinossauros de verdade, tão temíveis quanto os astros de Jurassic Park.

Luciana Garbin

Corria o ano de 1897 quando o agricultor Anísio Fausto da Silva encontrou umas pegadas estranhas no leito seco de um rio que passava nos fundos de sua propriedade, em Sousa, sertão da Paraíba. Sem saber do que se tratava, seu Anísio batizou a trilha de “rastro da ema”. Alguns anos depois, os cientistas descobriram que a tal “ema” era na realidade um iguanodonte, que há 130 milhões de anos imprimiu na lama a marca de suas patas. Foi a primeira prova de que já houve dinossauros no Brasil. Hoje sabe-se que eles se espalhavam pelo país inteiro e nada ficavam a dever, em tamanho e ferocidade, aos brutamontes que aparecem no filme Jurassic Park, do americano Steven Spielberg.

“Há cerca de vinte espécies de dinossauro identificadas no país”, informou à SUPER o paleontólogo Reinaldo Bertini, da Universidade Estadual Paulista, em Rio Claro. Estão fora dessa lista, é verdade, celebridades como o tiranossauro ou o velociráptor, as estrelas de Spielberg. Esses bichos só existiram no hemisfério norte. Em compensação, o Brasil abrigou parentes muito próximos deles. O abelissauro, retratado na capa desta revista, pode até ser confundido com seu primo mais badalado, o tiranossauro. O vegetariano titanossauro, de 15 metros de comprimento, era o similar nacional do pescoçudo apatossauro, conhecido antigamente como brontossauro. E você se lembra dos velociraptores, aqueles monstrengos de passo desengonçado e bote fulminante que quase comeram os heróis do filme? Pois restos de um predador muito parecido, o deinonicossauro, foram achados no interior de São Paulo e de Minas Gerais. Sorte que você não corre o risco de topar com um deles por aí.

Um dia-a-dia repleto de perigos

Conheça alguns dos dinos que moravam no Brasil entre 145 milhões e 65 milhões de anos atrás.

1. Espinossauro

Predador bípede, chegava a 15 metros de comprimento e 5 de altura. Comia peixes e tinha no dorso uma espécie de “vela” formada por espinhos ósseos, ligados por uma membrana. O aparato servia, provavelmente, para controlar a temperatura do corpo.

2. Abelissauro

Imbatível numa briga, pertencia ao grupo dos terópodes – que inclui os maiores carnívoros que já caminharam sobre a Terra, como o tiranossauro, o driptossauro e o alossauro. Tinha cerca de 11 metros de comprimento por 5 de altura e chegava a pesar até 8 toneladas.

3. Titanossauro

Era herbívoro e perambulava pela maior parte do país: seus fósseis foram achados do Ceará a São Paulo. Primo do apatossauro, um dos maiores dinos, tinha, também, medidas de titã: 15 metros de comprimento, 4 de altura e peso de 15 toneladas, o equivalente a quatro elefantes – dos grandes.

4. Deinonicossauro

Primo dos ferozes velociraptores, usava suas garras afiadíssimas para retalhar as vítimas. Aliás, é daí que vem o nome deinonicossauro – “lagarto de garras terríveis”, em grego. Alcançava até 2 metros de altura e 4 de comprimento. Como caçava em bandos, podia até atacar bichos bem maiores que ele.

5. Estruciomimo

Conhecido antigamente como celurossauro, o estruciomimo (o nome significa “o que imita o avestruz”) tinha até 1 metro de altura e era um caçador veloz. Quando o safári não rendia, contentava-se com os restos das refeições de predadores maiores. Era necrófago – comia carne podre.

Os avós dos gigantes eram gaúchos nanicos

Bá, que baita descoberta, tchê! Um dos dinos mais antigos da Terra é gaúcho, de Santa Maria. Foi encontrado por acaso, em janeiro do ano passado, pelo paleontólogo Max Langer, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ele mostrava a um colega argentino um local de escavações abandonado quando deparou com um fóssil encravado num barranco. Foi conferir e achou três esqueletos de um réptil desconhecido pela Ciência que viveu há 230 milhões de anos, a época em que surgiram no planeta os primeiros dinossauros. Com apenas 1,5 metro de comprimento por 80 centímetros de altura, era um nanico se comparado aos grandalhões que vieram depois. Alimentava-se de plantas e de pequenos animais. Langer levou os fósseis para a Universidade de Bristol, na Inglaterra, onde está tentando comprovar sua hipótese de o bicho é um ancestral dos saurópodes, família de quadrúpedes que inclui os maiores dinos conhecidos, como o apatossauro.

Não é primeira vez que um vovô-dino aparece em Santa Maria. Em 1934, na mesma cidade, uma expedição formada por brasileiros e americanos descobriu o estauricossauro, um bípede carnívoro de 2 metros de comprimento e 235 milhões de anos. “Os dinossauros mais antigos do planeta viviam aqui no Rio Grande do Sul”, orgulha-se Langer.

A cidade das calçadas jurássicas

O padre italiano Giuseppe Leonardi, um dos maiores paleontólogos do mundo, estava viajando pelo interior paulista em 1976 quando uma súbita dor de dente o obrigou a fazer uma parada em Araraquara. Ao pisar nas lajes cor-de-rosa usadas como calçamento na cidade, reparou em algo estranho. Ficou tão entusiasmado que até se esqueceu de ir ao dentista. A análise das marcas confirmou o seu palpite. Ali estavam impressas pegadas de répteis que habitaram a região de Araraquara 180 milhões de anos atrás. As lajes tinham sido arrancadas das rochas de uma pedreira, nos arredores da cidade. Lá ficaram gravados os únicos registros de dinossauros brasileiros do período jurássico. Leonardi explicou ao prefeito que precisava arrancar os trechos de calçadas com pegadas de dinos. O prefeito riu da cara dele e negou o pedido. Mas o padre-cientista não se abalou. Esperou o Carnaval, quando a cidade inteira estava muito ocupada em se divertir, para meter a picareta no calçamento e levar o tesouro para o Departamento Nacional da Produção Mineral, no Rio de Janeiro, que o guarda até hoje.

Mosassauro, o terror do Atlântico

Ainda bem que não se praticava surfe nas praias de Pernambuco há 70 milhões de anos. A região era freqüentada por uma fera bem mais perigosa que os tubarões que hoje costumam atacar os surfistas do Recife: o mosassauro (veja a ilustração). Esse réptil aquático, de até 10 metros, aterrorizou o litoral brasileiro no período cretáceo. A dieta dos monstrengos marinhos era composta de peixes e caracóis enormes, de até 1 metro de diâmetro, os amonóides (foto). Também petiscavam outros répteis aquáticos, como os ictiossauros – “peixes-lagartos”, em grego. Seu reinado durou até 65 milhões de anos atrás. Eles sumiram das águas na mesma onda de extinção que acabou com os dinos. Para sorte dos surfistas.

Tesouro escondido

Vegetação densa dificulta as pesquisas.

Os cientistas acham que ainda há muito osso de dinossauro a se descobrir no Brasil. “Um terço da superfície do país é de terrenos sedimentares, os mais propícios à formação de fósseis”, explica o paleontólogo Reinaldo Bertini. Mas a safra fóssil brasileira é minguada se comparada à de outros continentes e mesmo à da Argentina, aqui do lado. É que boa parte do país está coberta por florestas. Elas dificultam a localização dos fósseis, embora não prejudiquem a sua conservação. “Ninguém vai sair desmatando para procurar bicho morto”, brinca a paleontóloga Lilian Paglarelli, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O melhor lugar para garimpar fósseis de vertebrados são os desertos, como o do Meio-Oeste dos Estados Unidos, o da Mongólia e o da Patagônia. Para complicar, diz Bertini, não há uma tradição de pesquisas no Brasil. Na Europa, estudam-se dinossauros há mais de 200 anos; na América do Norte, desde meados do século XIX. Aqui, o assunto só ficou sério na década de 40. Veja, no mapa ao lado, as principais descobertas paleontológicas no país.

Presidente Prudente (SP)

Dentes de abelissauros e ossos de deinonicossauros e titanossauros.

Santa Maria (RS)

Esqueleto do estauricossauro e ossos de um quadrúpede de 230 milhões de anos, ainda não identificado.

Chapada do Araripe (CE)

Grande quantidade de fósseis de pterossauros – os répteis voadores, contemporâneos dos dinos (veja texto na página 18).

Araraquara (SP)

Pegadas de vários tipos de ornitópodes e estruciomimos.

Candelária (RS)

Esqueleto de um carnívoro primitivo, ainda não identificado, encontrado no início deste ano.

São Luís (MA)

Pegadas de abelissauro, ossos de titanossauro e estruciomimo.

Sousa (PB)

Pegadas de vários dinos diferentes numa área onde hoje está a bacia do Rio do Peixe.

Uberaba (MG)

Ovos de titanossauros; dentes de abelissauros e de deinonicossauros.

Monte Alto (SP)

Ossos de titanossauros e deinonicossauros.

O paraíso dos lagartos voadores

Eles não eram dinossauros, mas dominavam o céu. Temíveis répteis voadores, os pterossauros habitaram a Chapada do Araripe, no sertão do Ceará, 100 milhões de anos atrás. Alguns mediam uns poucos centímetros de uma ponta da asa à outra. Outros, como o tupuxuara, descoberto em 1993, chegavam a 6 metros. Viveram e sumiram na mesma época que os dinos. Araripe é um dos locais com maior concentração desses bichos no mundo. Das 122 espécies conhecidas, dezoito foram achadas lá. Isso explica por que alguns desses lagartos alados receberam dos paleontólogos nomes em tupi, como anhangüera (“diabo velho”) e tapejara (“antigo morador”). A preferência pela chapada se deve aos paradisíacos lagos de água salgada que um dia a cobriram. Era de lá que os pteros- sauros retiravam os peixes, base de sua dieta.

Primeiros vertebrados a voar, eles surgiram há 150 milhões de anos. “Seus ossos eram ocos e frágeis, o que os deixava mais leves e ajudava na decolagem”, explicou à SUPER o paleontólogo Alexandre Kellner, do Museu Nacional do Rio de Janeiro, que há muitos anos estuda os pterossauros. No vôo, o bicho não gastava energia. Graças ao formato das asas, extremamente leves, aproveitava as correntes ascendentes de ar para ganhar altura. Como os aviões planadores.