O Brasil sai da gaveta
Com o apoio de uma minuciosa tecnologia de restauro, historiadores desenterram os três primeiros séculos da História do Brasil, registrados em documentos que estavam engavetados no Arquivo Nacional.
Claudio Angelo, do Rio de Janeiro
Pergunte a qualquer taxista carioca onde fica a Rua Azeredo Coutinho e repare na cara de ponto de interrogação que ele fará. Até aí nada estranho. Mesmo no guia de ruas da cidade é difícil encontrar essa viela nada charmosa, de apenas um quarteirão, no trecho mais decadente do centro do Rio de Janeiro. Um fim de mundo desimportante, não fosse por um detalhe: é ali que fica o Arquivo Nacional, prédio que, apesar da aparência desenxabida, guarda um tesouro magnífico – a História do Brasil.
Do primeiro registro de posse da terra, no século XVI, até a lista das músicas censuradas pelo regime militar nos anos 70, tudo o que a burocracia brasileira produziu se acumula nas prateleiras do arquivo. São quase 50 quilômetros de papéis.
Agora, um time de quinze historiadores está mergulhado na parte mais amarelada desse mar. Uma papelada maltratada pelo tempo que esconde preciosidades sobre o período menos estudado da nossa história: a época colonial. Paralelamente, químicos e técnicos em restauração correm para preservar o tesouro. Quando terminarem, o material estará disponível e fácil de encontrar, com a ajuda do computador. Um banquete para os historiadores.
O Brasil devorado por insetos
Como os doentes na porta do hospital público Souza Aguiar, vizinho do Arquivo Nacional, os manuscritos do período colonial mais danificados esperam na fila a sua vez de passar pelo centro cirúrgico. No caso, um enorme laboratório instalado no subsolo do edifício. Por lá já andaram pacientes ilustres como o original da sentença de morte de Tiradentes, o mártir da Inconfidência Mineira.
A principal doença tratada ali é o estrago feito pela tinta usada na época. Muito ácida, ela reage com o papel, corroendo-o. “Depois de alguns séculos, as letras literalmente despencam, deixando buracos no lugar do texto”, disse à SUPER a restauradora Adriana Cox Hollos. Para deter o processo, é preciso mergulhar o paciente em uma solução alcalina (veja o infográfico ao lado), que contra-ataca a acidez.
Celulose de boa safra
Outro mal grave é o causado pela respiração e pelo suor das mãos de quem mexe nos originais. É que eles também são ácidos. Por isso, boa parte do acervo já foi microfilmada.
O arquivo, para piorar, é um paraíso gastronômico que atrai cupins e traças. Quando se trata de paladar de inseto, não deve haver uísque 12 anos comparável à celulose de 300 anos. Evitá-los, só mantendo o lugar bem fresquinho, a 20 graus Celsius; e seco, com umidade relativa do ar de 50%. “Os bichos se multiplicam a qualquer variação de temperatura e umidade”, diz Túlio Saeta, chefe do departamento de conservação. Os depósitos são inspecionados todo ano em busca de ninhos. Se surge um foco, isola-se toda a área e congelam-se os documentos por duas semanas, a 25 graus negativos, para matar as larvas. Um tratamento de choque.
O ouro está lá, mas é preciso achar
Botar ordem numa casa de 161 anos de idade, como o Arquivo Nacional, revelou jóias históricas em lugares inusitados. Uma delas é uma carta escrita em 1801 por um nobre português convidando d. João VI a mudar-se de mala e cuia para o Brasil caso o rei levasse a pior na guerra contra Napoleão Bonaparte. Mais um golpe na teoria de que a família real fugiu às pressas para a colônia sete anos mais tarde (veja ao lado).
“Há documentos que nem suspeitávamos que estivessem aqui”, disse à SUPER a historiadora Vivien Ishaq, uma das coordenadoras do salvamento. É o caso dos surpreendentes e extensos registros sobre atividades portuguesas nas colônias da África e da Ásia, trazidos de Portugal pelo próprio d. João VI. Eles poderão suscitar revisões importantes na globalizada política colonial da época.
Endereços trocados
Pesquisar um tema histórico qualquer em meio a toneladas de manuscritos equivale a procurar uma agulha no palheiro com luvas de boxe. Sobretudo quando as listas que informam o endereço de cada papel no arquivo são incompletas. Muita coisa importante acabou esquecida, por estar em lugares esquisitíssimos.
É o caso do documento de rendição do governador do Rio de Janeiro Francisco de Castro Morais ao pirata francês René du Guay-Trouin, em 1711. A carta, na qual o governante aceita pagar tributos em troca da retirada do corsário, estava enfiada em um livro de homenagens, entre incontáveis bajulações a personalidades, especialmente militares. “Jamais teríamos pensado em procurá-la ali”, conta a historiadora.
Cimento novo na construção da História
Organizar as informações é tão fascinante quanto descobri-las. Daí o entusiasmo dos pesquisadores – alunos de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) – que trabalham no projeto de resgate do Brasil Colônia. Eles estão indexando, quer dizer, associando a endereços fixos – o lugar onde cada coisa se encontra no arquivo, em um volume ou uma caixa –, toda a papelada desde a metade do século XVI até o desembarque de d. João VI, em 1808. São 240 anos de cartas, leis, decretos e alvarás, escritos à mão e alguns em mau estado.
Os ácaros são companheiros constantes. “Mas difícil mesmo é ler e entender o que está lá”, diz Vivien Ishaq. “Tanto a caligrafia quanto o português da colônia eram bem diferentes dos de hoje.” Por isso, alguns escritos só podem ser desvendados por quem é bom em paleografia, o estudo da escrita antiga.
A um toque no teclado
Uma vez decifrados e endereçados, os textos poderão ser usados. A partir de abril do ano que vem, quando o país estiver apagando sua 500ª velinha, qualquer um terá acesso a eles. Bastará um toque no teclado do computador do arquivo. Alguns meses mais tarde será possível localizá-los até pela Internet. Pode esperar: o período inicial da História brasileira vai desabrochar nos próximos anos.
Documentação não falta. Já foram lidos 1 082 códices, volumes de manuscritos ou conjuntos de volumes – alguns com 1 metro de espessura – com documentos agrupados por período, e identificados 500 temas. “Mas podemos ultrapassar os 1 000 temas”, calcula Vivien. De perto, a viela Azeredo Coutinho é bem mais interessante do que parece
Para agüentar mais cinco séculos de prateleira
Documentos antigos tomam banho, ganham obturações e rejuvenescem.
1. Como uma peneira
Os papéis mais antigos ficam assim: comidos pelos insetos e corroídos pela própria tinta (chamada ferrogálica), uma mistura ácida de sais de ferro e extratos vegetais.
2. Hora do banho
As folhas são colocadas entre telas de náilon e lavadas com água desionizada (sem nenhum mineral), para eliminar a ferrugem. Depois, recebem um outro banho que as deixa alcalinas.
3. Caldo nutritivo
Depois de limpos, os manuscritos vão para um tanque tomar sopa. No caso, um caldo de aspecto esquisito composto de fibras de celulose, água e cola.
4. De barriga cheia
As fibras se depositam sobre o papel, preenchendo os buraquinhos. É o que os restauradores chamam de obturação. Aí basta deixar escorrer o excesso de líquido.
5. Novo em folha
Pronto o suporte, o grupo de documentos é encadernado. Esses volumes, ou o conjunto deles (quando um só não dá conta do assunto), são chamados de códices.
Do português para o português
Como se escrevia por estas bandas tropicais há 300 anos.
Parece árabe. Mas, se você olhar bem, vai perceber que conhece uma ou outra letra. Só uma ou outra. O idioma que se falava e se escrevia antigamente era diferente do atual não só no som e no vocabulário, mas também na ortografia e na caligrafia, como você vai notar no exemplo abaixo – uma carta do rei d. José I (1714-1777) que dispõe sobre a reforma do ensino na colônia.
edos – Conjunções e preposições vinham emendadas entre si ou à primeira sílaba da palavra seguinte. Lê-se, portanto, “e dos”
ama – Quer dizer “à mesa”. Não a da comida, mas a Mesa Real, a instância máxima do governo português
p – abreviatura de “por”
q – Que
M. – Majestade
vaffalos – O s era escrito assim, igual a um f. Leia vassalos
§ – Depois do cabeçalho, que listava os salamaleques reais, era colocado este sinal de parágrafo para indicar o início do texto propriamente dito
comte – O corrente ano de 1772
Por baixo da poeira
Pequenas revelações de uma faxina.
Fuga planejada
A vinda da família real para o Brasil, em 1808, não foi uma fuga, como muita gente pensa (e ensina) até hoje, mas um processo cuidadosamente planejado durante anos. Uma pista de que a mudança de d. João VI já era cogitada pelo menos desde 1801 é a carta que ele recebeu do marquês de Alorna, d. Pedro de Almeida Portugal.
No documento, o marquês se oferece para organizar a retirada da família para o Brasil. “O assunto foi discutido à exaustão em Portugal”, diz o historiador Fabiano Vilaça dos Santos, assistente de pesquisa do mutirão no Arquivo Nacional. “D. João não era bobo. Era um homem de Estado.”
Casamento no cativeiro
Nesta proclamação pública de 14 de agosto de 1696 o governador do Rio de Janeiro Sebastião de Castro Caldas proíbe o casamento entre índios e negros. Essas uniões vinham sendo estimuladas por senhores de engenho, porque “eram um jeito fácil de aumentar o número de escravos sem tirar dinheiro do bolso”, explica o historiador Fabiano Vilaça dos Santos. Também funcionavam como um recurso para burlar as regras que vinham sendo criadas na época pela Coroa para impedir a escravização dos nativos.
Seqüestro da poupança
A carta régia assinada em 1567 pelo lendário rei d. Sebastião (1554-1578) é um dos documentos mais antigos do arquivo. Ela proíbe que os cristãos-novos (judeus convertidos ao cristianismo) de Portugal deixem o país para fazer negócios no exterior. De acordo com o documento, qualquer cristão-novo que viajasse para fora teria de depositar uma fiança de 500 000 réis (algo como 390 000 reais) nos cofres do rei. Se passasse mais de um ano fora, perderia todo o dinheiro e seria degredado por cinco anos para o Brasil. “Era uma maneira de garantir que a fortuna dos judeus não sairia do país”, afirma o historiador Ronaldo Vainfas, da Universidade Federal Fluminense. Para escapar à perseguição, muitos cristãos-novos se mudaram de vez para a colônia.
Sua majestade está louca
A loucura da rainha dona Maria I (1734-1816), mãe de d. João VI, era um assunto pouco comentado entre os nobres portugueses. Proibida de governar por uma junta médica em 1792, a soberana continuou despachando de mentirinha. “Ela assinava todos os documentos, mas quem tomava as decisões eram os altos funcionários da corte”, disse Vivien Ishaq. A carta ao lado, escrita em 1801 pelo vice-rei do Brasil d. José Luís de Castro para d. João VI, é uma das raríssimas referências explícitas à “funesta e insanável enfermidade” da monarca. “Nunca tínhamos visto um documento pessoal que tratasse do assunto”, afirma Vivien.





