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O mestre dos disfarces

Ladrão e falsário, Eugène Vidocq criou a agência de detetives.

Por Alexandre Agabiti Fernandez
31 jan 2004, 22h00 • Atualizado em 13 nov 2016, 20h26
  • Rocambolesca. Assim foi a vida de Eugène François Vidocq (1775-1857), ladrão, soldado, desertor, falsário, prisioneiro condenado a trabalhos forçados, rei das fugas, espião, chefe de uma brigada especial da polícia de Paris e fundador da primeira agência particular de informações. Suas memórias inspiraram Os Assassinatos da Rua Morgue (1841), de Edgar Allan Poe, e o personagem Vautrin, figura presente em vários relatos da Comédia Humana, de Balzac. Sua vida ainda foi base para os personagens Jean Valjean e Javert de Os Miseráveis (1862), de Victor Hugo, e para uma peça de Alexandre Dumas.

    Mas, antes de tanto glamour, Vidocq começou ladrão. E sua primeira vítima foi o pai, um padeiro de Arras que teve 2 mil francos surrupiados do caixa. Tentando disciplinar o espírito belicoso do rapaz, o pai o alistou no Exército. Vidocq não tardou a desertar.

    Algumas peripécias mais tarde, o aventureiro se meteu numa briga com um coronel e acabou na cadeia. Lá conheceu Boitel, um homem simples que fora condenado por roubar um pouco de trigo para alimentar os filhos. O absurdo da situação ajudou a forjar em Vidocq uma noção da justiça como princípio moral. Fugiu da prisão e, de quebra, falsificou o documento que permitiu a liberação do infeliz Boitel.

    Capturado, fugiu novamente. Reconduzido à cadeia, escapou outra vez, mas foi agarrado. Entre 1800 e 1809 alternou temporadas atrás das grades e fugas espetaculares. Após seis anos cumprindo trabalhos forçados, nos quais conheceu a nata dos criminosos da época, Vidocq se cansou. Resolveu colaborar com a polícia e ajudou a descobrir um assassino em Lyon.

    O mestre dos disfarces

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    Sua eficácia foi reconhecida: em 1811, tornou-se chefe de uma brigada de segurança de Paris, à frente de um pelotão de ex-condenados. Graças à brigada, a polícia prendeu 700 fugitivos na capital francesa em apenas um ano. Vidocq implantou ainda um serviço de informantes com ramificações em toda a Europa.

    Apreciador de disfarces – certa vez, realizou a proeza de fugir da cadeia com roupas de freira – Vidocq não hesitava em mudar radicalmente de aspecto para investigar criminosos, surpreendendo-os vestido de militar ou de vendedora de peixes. Neutralizava os fugitivos com outra inovação: técnicas de boxe, que dominava graças à robusta compleição física.

    Adulado pela imprensa, Vidocq virou uma celebridade. Mas um escândalo de enriquecimento ilícito em 1827 o obrigou a sair da polícia. Abriu então uma fábrica de papel à prova de falsificações, inventou uma tinta indelével e uma fechadura inviolável. Publicou suas memórias em 1828 e depois mais dois livros sobre o mundo do crime.

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    Em 1836, fundou a primeira agência privada de informações, que oferecia serviços a comerciantes preocupados com a idoneidade dos clientes. A polícia não apreciou a concorrência e obteve na Justiça o fechamento da firma. Mas essa agência, aliada às inovações que implantou na brigada policial, serviriam de modelo para agências de inteligência e de detetives no mundo todo. Vidocq deixou Paris em 1843 e morreu na Bélgica 14 anos depois.

    Sua vida também inspirou uma série de TV nos anos 60 e quatro filmes. O mais recente é Vidocq (2000), em que o ator Gérard Depardieu usa seu carisma para recriar o mestre dos disfarces francês.

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