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Ordem na casa

O problema é que podemos ter tantos empréstimos que nem fazendo hora extra conseguimos pagar os juros.

Por 31 dez 2002, 22h00 | Atualizado em 31 out 2016, 18h25
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Rodrigo Velloso e Celso Miranda

Representantes do novo governo têm falado da necessidade de dedicar o primeiro ano de mandato para “arrumar a casa”. Aproveitando a comparação – se administrar o Brasil fosse como cuidar da nossa casa –, o que significaria elevar o superávit primário, fazer a reforma fiscal etc.?

A metáfora da casa é mais adequada do que pode parecer, pois a administração do Brasil guarda semelhanças com o dia-a-dia da casa de cada um de nós. Começando pelo dinheiro que entra: a renda. No Brasil, a principal fonte do governo é a arrecadação de impostos. Os principais deles, o INSS, o Imposto de Renda, Cofins, CPMF e IPI contribuem com mais de 90% do caixa. Na sua casa, como na grande maioria das casas brasileiras, a principal via de entrada de dinheiro é o salário.

Tanto no caso do Brasil, quanto em nossa própria casa, algum extra sempre é bem-vindo. Mais gente contribuindo é uma ajuda tanto para Lula quanto para qualquer pai de família. Por isso, o Brasil quer fazer mais pessoas e empresas pagarem impostos.

E você está louco para aquele seu cunhado arrumar um emprego. Dinheiro em caixa, começam os gastos. Primeiro, vêm os filhos. Pela Constituição, o Governo Federal é obrigado a repassar parte da arrecadação aos governos dos estados. Como um pai que paga pensão aos filhos, essa é uma obrigação da qual não se pode fugir. Mas os gastos não param por aí. Muitos de nós despendemos algum dinheiro para ajudar pais e avós. É justo afinal, eles gastaram muito com a gente. Da mesma forma, as aposentadorias que o governo paga são uma forma de restituir uma parte dos recursos com que as pessoas o sustentaram no passado. No caso do Brasil, no entanto, o que se paga aos aposentados é mais do que se arrecada com o INSS e a diferença está ficando cada vez maior. É como se tivéssemos 48 pais e 29 mães. E o número não pára de crescer.

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A energia do governo vem das pessoas que o fazem funcionar: são os funcionários públicos, os empreiteiros e fornecedores. Uma casa precisa de eletricidade e gás. Além disso, precisamos de alimento, que é a nossa energia.

Essa é uma área em que a gente sempre acha que gasta demais. Fechar uma torneira aqui, outra ali, sempre ajuda a economizar algum. Pesquisar preços, evitar vazamentos… A idéia é gastar menos, sem que isso prejudique o funcionamento das atividades: do governo e da nossa casa.

Alguns programas sociais são tão importantes que o Congresso Nacional fez leis para obrigar o governo a gastar com eles. Todos nós gastamos uma parte da nossa renda com planos de saúde, remédios e dentistas.

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Sobrou algum? Ótimo. Os economistas chamam isso de superávit primário. É a grana que o presidente controla e é usada nas coisas que o governo acha mais urgente fazer (bolsa-escola, combate à fome, estradas etc.). Para uma pessoa comum, esse é o dinheiro para gastar com cursos, construção, eletrodomésticos e diversão. É no uso desse dinheiro que um governo se diferencia de outro.

Ufa. Podemos guardar a calculadora? Ainda não. Chegaram as contas do cartão de crédito e tem um jurinho aí do cheque especial do mês passado. O governo tem que pagar um valor em juros sobre sua dívida, sob o risco de não conseguir mais financiamentos. Empréstimos movimentam a economia e a fazem crescer. No caso do governo, é preciso usar o dinheiro para fomentar atividades que o façam arrecadar mais. No nosso, o ideal é só tomarmos dinheiro emprestado quando tivermos certeza de ganharmos, em pouco tempo, mais do que o valor da dívida acrescido dos juros.

O problema é que podemos ter tantos empréstimos que nem fazendo hora extra conseguimos pagar os juros. As contas não fecham no final do mês e temos que pegar mais dinheiro emprestado do banco ou de um cunhado abonado. O rombo aumenta ainda mais e, nessa situação, não há quem agüente: as contas – a minha, a sua e a de Henrique Meirelles, novo presidente do Banco Central – vão ladeira abaixo. Não resta outra saída a não ser “arrumar a casa” e torcer para que os gastos não nos obriguem a mudar para debaixo da ponte.

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