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Prisão:oficina do inferno

Foi parar no xilindró? Então é bom aprender a se virar dentro da prisão. Isqueiro, aquecedor, cachaça, saleiro: dá pra fazer tudo isso atrás das grades.

Por 12 dez 2006, 22h00 | Atualizado em 31 out 2016, 18h23

Leandro Fortino

A oficina dos presidiários é erguida longe da vista dos guardas e vigias para fornecer aos detentos aquilo que eles não podem ter. Isqueiros, aquecedores, tostadores, forninhos, tudo feito com clipes de papel, pedaços de escova, palitos e outros objetos simples.

Trinta dessas invenções carcerárias, desenhadas por presos americanos, foram publicadas no livro Prisoners’ Inventions (“Invenções de Prisioneiros”, sem tradução para o português). Espécie de versão masmorra do Manual do Escoteiro Mirim, o livro chamou a atenção de vários artistas. Tanto que algumas peças viraram exposição.

Mas os detentos brasileiros também são engenhosos. Prova disso é a fabricação da aguardente “Maria Louca”, que envolve complicados processos de fermentação e destilação, na antiga Casa de Detenção do Carandiru. Bom, complicado para nós. Para eles, era uma festa só. Com auxí­lio do físico Cláudio Furukawa, da USP, a SUPER construiu algumas dessas traquitanas. Duas envolvem eletricidade e, portanto, perigo. “O preso precisa tomar cuidado para manejar os objetos”, afirma o físico.

Aviso: não tente fazer nada disso em casa. Você não é o MacGyver.

Aquecedor de água

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Que tal um café quente na cela? Um presidiário reproduziu o que os físicos chamam de efeito Joule. Duas tiras de metal saem da tomada e entram num copo. A corrente passa pelo líquido e gera calor. No protótipo da super, o copo fumegou em 30 minutos.

Isqueiro

Essa foi bolada por um preso americano. O ciarro acende, mas dá medo chegar perto. Para melhorar a condutividade, joga-se uma pitada de sal na água. O copo esquenta e a parte imersa do clipe escurece. É a reação de eletrólise, em que os sais grudam no metal.

Saleiro e pimenta

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Eis o truque para fazer um galheteiro. Com palitos de sorvetes, tiras de lata de alumínio e caixas de fósforos, constrói-se uma peça para não misturar o sal e a pimenta. Ob­jetos simples como esse fazem de uma cela um lar.

“Maria Louca”

No Carandiru, com água, fermento e arroz, e dominando as artes da fermentação e da destilação, eles pro­du­ziam a cachaça“Maria Louca”. A gar­rafa custava R$ 150 nos pavilhões, como um uís­que 12 anos no supermercado. E olha que a “Maria”?levava só 6 dias para ser feita.

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Destilaria da “Maria Louca”

Presos do Carandiru faziam essa bebida em segredo

1. Fermentação

Os presos misturam água, arroz, fermento e açúcar (mais casca de frutas, café ou cravo para dar gosto) em garrafas plásticas e escondem em um buraco. Uma luz fornece o calor. As tampas são giradas aos poucos para soltar os gases. O processo dura 6 dias.

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2. Destilção

Num galão, eles esquentam o líquido com uma tesoura plugada na tomada. O álcool, com ponto de ebulição menor que o da água, vira vapor logo. Esse vapor é resfriado na serpentina e vira o precioso líquido, pronto para o consumo dos condenados.

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